“Notas” – 27/05/2017

Sobre “mais uma semana tensa em Brasília”

“Mais uma semana tensa em Brasília: discussão das reformas acaba em bate-boca e pancadaria no Congresso”.

“Mais uma semana tensa em Brasília: manifestantes depredam e incendeiam ministérios.”

Tensão é, neste momento no Brasil e na cultura jornalística em vigor, o refúgio semântico de quem não deseja chamar as coisas pelo nome: quebra das regras mínimas de convívio parlamentar e ação de grupos organizados;  não seriam descrições mais precisas dos fatos da semana que vai acabando?

Nada vem do nada: há o abandono de certas regras de etiqueta parlamentar há alguns meses, desde os debates do que acabaria sendo o impeachment. Que se fez? Qual presidente das duas casas do Congresso, ou o presidente das sessões onde as agressões verbais e desqualificações pessoais aconteceram iniciou algum procedimento que pudesse não apenas punir mas desestimular infrações futuras? Ou não há no regimento algum limite?

Pode ser que algum parlamentar tenha procurado tomar alguma providência, mas a imprensa não registrou. Ou não registrou como deveria.  Apartes aos berros por parte dos parlamentares do então governo do PT ano passado e da atual oposição neste ano foram e continuam frequentes. Pois agem como bem entendem, e não há consequências. Não é de assustar o desânimo das massas, do imediato pós-impeachment até aqui.

Tudo é tratado como “tensão”.

“Tensão” houve nos protestos que começaram pacíficos e terminaram palcos de depredações em 2013. “Meia dúzia de radicais”, “uma minoria”, não eram assim descritos os depredadores de máscara preta? Onde a investigação dos episódios que foram decisivos para o esvaziamento daquelas concentrações impressionantes?

Lembro de “ativistas” depredando o Paço Imperial, sob protestos dos demais manifestantes.

Houve algum inquérito além do que investigou os dois jovens que atiraram um artefato que matou o cinegrafista da Band?

Estamos a coisa de um mês de quatro anos daquelas noites nas quais a depredação de agências bancárias era a “linguagem da explosão da revolta contra tudo isso aí”.

Não se estabeleceu limites, esta é a verdade. E quando não há limites delimitados com nitidez e punição a quem os transpõe, tudo acaba nas mãos dos que se organizam. Para a destruição. Para a tomada do Poder total. Para o esmagamento dos que se acovardaram quando tudo anunciava o momento final.

Há quem veja no que aconteceu em Brasília tentativa desajeitada de demonstrar força no naufrágio final. Ilusão anestésica que não anestesia; as manifestações estão crescendo em organização e violência e não demonstram qualquer cansaço.

Há a colaboração de um governo fraco, fruto de um desastre que se vendeu por maioria da imprensa como um remédio; o impeachment de Dilma Rousseff. Michel Temer demonstra, desde que assumiu, nenhuma disposição para enfrentar confrontos, e quando resolve responder a uma praça de guerra montada em Brasília recorre às Forças Armadas e a um decreto (policiamento por militares do exército durante certo período, no Distrito Federal) do qual se viu constrangido a recuar.

Não tinha mesmo como monitorar movimentos que anunciavam disposição para confrontos? Não há como alegar surpresa, pois redes sociais e blogs alinhados ao esquema de Poder do PT não fizeram segredo das suas inclinações. Há despreparo, alienação do que está acontecendo. E, não preciso escrever, mau aconselhamento.

Temer anuncia intenção de processar “os responsáveis”. Acredita quem quiser.

Houvesse, penso, intenção de punir depredadores e militantes violentos, haveria interpelação de segmentos que anunciam o que farão em redes sociais antes. De líderes de movimentos e jornalistas que incentivam ações contra o que classificam de “governo golpista”. O problema é que Michel Temer parece pressentir que não resta autoridade e tempo para isto. Mas nunca houve autoridade, e tempo ele desperdiçou.

Os manifestantes com artefatos (um feriu mesmo um desafortunado militante que não teve tempo de arremessá-lo e ferir outra pessoa) voltarão e voltarão. Até que Temer renuncie. Até que congressistas que cassaram Dilma sejam escorraçados como ratos.

E arrisco outra previsão:

Voltarão mesmo depois de 2018, caso Lula ou algum associado não seja eleito. Por que respeitariam uma “democracia golpista” apoiada por uma “imprensa golpista”?

Não, estes “ativistas” (tanto os da rua quanto os do Congresso) vieram para ficar, para pisar na cabeça dos que, enquanto puderam fazer algo, nada fizeram, exceto celebrar vitórias fictícias e lançar memes na internet.

A História não admite que se faça pouco das suas lições.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s