“Notas” – 24/08/2017

Sombras na parede

Quando não se deseja ver o que existe, a imaginação trata de trabalhar. Ameaças às quais se nega confronto com a desculpa da insignificância surgem aumentadas nas mentes preguiçosas por covardia.

Há blogs e sites, como o do Paulo Henrique Amorim, celebrando arremessos de ovos em políticos antipatizados por seu público (não raro divulgando agendas destes políticos, lembrando a possibilidade de uma recepção com ovos), e ridicularizando, por exemplo, juízes, enquanto anunciam que “o pau vai comer” após a vitória de Lula em 2018, tida por estes sites e blogs como certa.

Que se faz? Abana-se a cabeça, e declara-se desinteresse. Decreta-se mesmo como a pior dos desperdícios a leitura deste material. Afinal, ovadas são contratempos que são solucionáveis com água e sabão. E Lula voltar, kkkkk.

E surge então áudio com suposto diretor demitido da Globo com notícias de gravidade indiscutível. Maquinações que se preparam para futuro próximo; na Globo então trabalhando para o PT contra a massa indefesa. Redes sociais fervem com esta descoberta, replica-se, divulga-se e….que temos? Alarme falso, mais um. A Direita não cansa de consumir desta mercadoria, com a avidez proporcional ao desprezo que dedica aos elementos disponíveis, de veracidade inquestionável.

Curioso que entre as “revelações” do tal diretor havia o plano de se recorrer à mensagem subliminar da cor vermelha. Bom, cor vermelha no “GloboNews” há até no teto, e o discurso ali é puro esquerdismo de bairro nobre. Logo projetaram para o Futuro o que existe sem disfarces no Presente.

Lembro que este boato foi paralelo à divulgação de encontro de José Dirceu com admiradores no qual o líder petista expressava sua insatisfação com vitória de Lula que não trouxesse junto o controle total do Estado, sobretudo com o apoio de polícia organizada, o que teria faltado aos governos petistas que por isto mesmo caíram.

Disto pouco se falou. Não conseguem ver, os direitistas de rede social, a História correndo diante dos olhos. Escolhe-se o delírio, pois este parece menos humilhante.

Isto me reforçou o desejo de me abster de discussões políticas, fugir de rodinhas de analistas de praça. Estupidez é mesmo algo que se pode contrair por convívio com estúpidos. Adoece-se junto, passa-se a elaborar planos e interpretações, inspirado nas sombras da parede.

Capa histórica de “Veja”

A capa da “Veja” com familiar de vítima de violência é algo a se registrar. Tardia sim (o menino arrastado pelo cinto de segurança por aqueles monstros no Rio de Janeiro de alguns anos atrás também merecia ter sido capa), mas prefiro o atraso à omissão definitiva.

Rostos de familiares de vítimas (na minha opinião, as vítimas por excelência, pois têm que arrastar consigo até a Morte a lembrança do familiar morto) dizem mais que números que podem ser declamados pelos mesmos que justificam a criminalidade. Um rosto e uma história não permitem este deboche, transmitem a mensagem com nitidez que não permite relativizações criminosas.

A imprensa tem que enfrentar os abutres que não hesitam em acusar vítimas de colaborar com o que consideram sensacionalismo e combater a chaga maior do Brasil de hoje.

Jerry Lewis e Paulo Silvino

Dois grandes humoristas deixaram o Mundo por estes dias: Paulo Silvino e Jerry Lewis.

Duas perdas que não vejo como compensar entre os nomes de hoje. É um clichê escrever e dizer isto, mas é a verdade. O deserto só se expande por estes dias e o que é mais grave é que as gerações que habitarão nele terão referencial muito limitado (se o tiverem,claro) do que perderam, do que era o Mundo antes da desertificação mental. A tendência é que tomem mediocridades como talentos verdadeiros. Escrevi algo do tipo quando da morte do Chico Anysio e me vejo confirmado pelo público de certas comédias atuais.

O Paulo Silvino do “Zorra Total” vinha sendo uma amostra pálida do comediante que vi nos programas de minha infância e adolescência, e como a Globo pouco reprisa estes programas (talvez mais no “Viva”), telespectadores pouco lamentarão.

É a tragédia da falta de referencial.

Ela ocorre também, com Jerry Lewis (escrevo sobre o público brasileiro, claro). Minha geração assistiu suas comédias na “Sessão da Tarde”, comédias reprisadas muitas vezes. Não lembro de ter ouvido algum colega meu de geração se queixar do repeteco, era mesmo um prazer que não saturava nas doses. Dos comediantes atuais, poucos não soam enjoativos e previsíveis; a repetição, um transtorno.

O que não parece feito de material inferior neste nosso tempo?

Sei que o elenco do Astral está cada vez melhor, e isto em todas as modalidades artísticas.
Aqui o elenco é de qualidade inferior, com um público também ficando inferior (pela falta de referencial).

Talvez algum progresso surja desta entressafra.

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