“Notas”- 26/08/2017

Concurso de boas maneiras

O deputado federal e presidenciável Jair Bolsonaro definiu o ato do qual foi vítima (uma jovem,ao que parece militante do PC do B, quebrara-lhe um ovo no peito) como “intolerância”. Fez questão de tratar o ato como algo a ser resolvido nos rigores da lei, mas errou ao qualificar como intolerância ao que é agressão pura e simples. Arremessos de ovos, cusparadas e empurrões não são exteriorizações de julgamentos desfavoráveis, são agressão e intimidação. O mesmo pode se dizer de pichações de casas e/ou empresas.

Vem se impondo um padrão de conduta que privilegia os brutais, os desaparelhados de ideias e argumentos; junta-se um bando e amedronta-se alguém que não se gosta. Como ninguém deseja passar por censor ou mesmo ganhar o rótulo de “intolerante” como cartaz de identificação, este tipo de delinquência vem se tornando prática aceitável, uma modalidade mais direta de democracia, por assim dizer.

Ora, isto é banditismo pseudo ativista e deve ser tratado como tal. Não adianta chamar a polícia (como muito bem fez Bolsonaro e muito mal faz João Dória em não o fazer nas vezes em que foi vítima destas agressões) e utilizar um vocabulário arrumadinho. Há quem não possa fazer nada (ou pode muito pouco) quando atacado e quem pode deve se conscientizar disto. Há esta responsabilidade a mais na condição de homem público: lutar por quem não pode lutar, enfrentar tabus que são impossíveis de mirar ao homem comum, oprimido pelas exigências da vida anônima, na qual a sobrevivência já é um feito.

“Eleição de 2018 sem Lula é fraude”, anunciam os sites e blogues que elogiam agressões, como o de Paulo Henrique Amorim, e que são leitura obrigatória destes militantes das ovadas. Mas… quem dá bola para estes espaços de militância partidária na internet? Quem se dispõe a cobrar destes jornalistas e blogueiros explicações sobre como pretendem tratar a “fraude” caso esta ocorra?

Quando o juiz Sérgio Moro perguntou a Lula se este pretendia continuar sua pregação anti-Ministério Público em suas aparições, este se deu ao direito de dizer “Não sei, depende…”(se não com estas palavras, com este sentido, há o vídeo do interrogatório na internet) manifestando disposição de continuar desprezando o que considera força inimiga.

São muitos os sinais do que o Futuro guarda aos que não desejam admitir que há uma guerra, não mais uma disputa política convencional, mas não têm sido lidos e interpretados como o exigem. Caso Lula não saia mesmo candidato (o que parece que acontecerá) o resultado não será respeitado, e o vencedor terá dias mais amargos que os de Donald Trump e Michel Temer somados e multiplicados. Tolos são os que leem a frase “eleição sem Lula é fraude” como ameaça e não como aviso, anúncio de confronto. Mas estes tolos são, apesar de há algumas eleições não acertarem qualquer previsão, ainda tomados a sério como “formadores de opinião”. Venderam o impeachment (que abortou a desmoralização total do PT, então bem avançada) como salvação e nos deram um Michel Temer, e agem como se não tivessem um mínimo de culpa pela ameaça da volta do PT.

Que se deve fazer, portanto?

Primeiro: não admitir como legítima qualquer manifestação violenta. Chamar a polícia, caso esta não esteja presente, não hesitar em enfrentar no plano físico os agressores. Qual seria a diferença se já se apanha, se leva ovo na cara? Ao menos se revida um pouco…

Segundo e mais importante: interpelar na Justiça blogues e sites que incentivem estas agressões. Deve-se ignorar (quando não recomendar ao interlocutor que evite dizer tolices) os que fazem o elogio da covardia que se finge de superior: “Não preste atenção, estes sites e blogues só pregam aos convertidos. São pobres diabos sem leitores”. Devem se lembrar de como a violência da linguagem só vem aumentando nestes espaços da internet; a covardia dos agredidos sendo combustível para agressões renovadas.

Quando surgiram os primeiros “escrachos” e não se protestou o bastante (pois os alvos eram supostos ex-torturadores ou oficiais das Forças Armadas que em tese teriam alguma responsabilidade por torturas), criou-se um precedente. Milícias se intitularam “levantes” e o escândalo foi recebido com sorrisos e abanar de cabeças. Quando cuspiram em senhores idosos na porta do Clube Militar, não houve a resposta devida por parte dos militares mais jovens (se houve, não teve repercussão) e sem esta resposta, por que não continuar? E continuaram, e continuarão.

Não, presidenciável Bolsonaro, não é “intolerância” o que move arremessadores de ovos e pichadores de residências. Desejo de agredir e de intimidar, sim. Caso não se diga com todas as palavras o que é esta política de milícias de agressores, o Sr., caso seja eleito um dia, não conseguirá governar. Nem se ameaçar o recurso à Força, pois o medo do enfrentamento terá paralisado a todos. Os que discutem com cuspes e ovos devem ser enfrentados sem descanso. Eles e seus incentivadores. Mesmo os que relativizam agressões e aconselham prudência devem ser percebidos como inimigos.

João Dória e outros políticos também têm se esforçado em manter a aparência de disputa convencional enquanto alvos de cuspes e ovos. Acreditam que qualificativos genéricos e/ou demonstrações de lógica elementar farão o serviço que cabe às interpelações judiciais. Um ou outro insulto ao PT e simpatizantes não são armas, e irritam ainda mais os agressores.

O título de Mr.Nice Guy, de oposicionista civilizado ao sistema de Poder do PT (e do Pós-PT, já iniciado), parece cobiçado por todos, mesmo os que são, dia e noite, retratados pela imprensa e pela classe artística (cada vez mais associada à casta acadêmica) como trogloditas indignos de qualquer consideração. É um concurso de boas maneiras que oferece como prêmio pacotes promocionais de cuspes e ovos. A Presidência da República, caso obtida, não será prêmio do concurso, e sim o resultado de outros acidentes. E virá desacompanhada de Poder real. O sucesso de Lula não é a demonstração mais acabada do ridículo em se parecer bom moço (ou alguém acredita que foi a barba aparada e os sorrisos que deram a ele vitória em 2002, e não o desgaste do PSDB)?

O trágico é quando o alvo de ovos tem sob si cidadãos que recebem mais que cusparadas e arremessos de ovos, pois sem meios de acionar na Justiça seus agressores. Sem meios e sem voz, no anonimato humilhante das massas.

Esta massa de sobreviventes sob milícias não esquecerá quem pôde detê-las e não o fez, medindo esforços, temendo confrontos inevitáveis.

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