“Notas”- 29/08/2017

“Mais necessário cobrir políticas públicas que política institucional”

O título do texto é uma obviedade, e não preciso ser advertido disto. Mas é uma obviedade escandalosa que recebe desprezo mais escandaloso ainda. A cobertura do rodízio de ministros do governo de Michel Temer atenua a lembrança de que não há política própria (estudada, aprimorada, discutida com a sociedade) nestes ministérios. Muitos poderiam não existir; a população não daria falta, ou talvez celebrasse o fim de mais uma fonte de gastos.

Lembro da coluna do Márcio Moreira Alves n”O Globo” dedicando textos às discussões de políticas públicas, manifestando seu interesse por questões que superavam em importância a discussão de partidos, governos e gabinetes ministeriais. Em uma entrevista disse algo sobre este trabalho que seria como:

“Mais necessário cobrir políticas públicas que política institucional.”

É uma linha que observo no trabalho do Elio Gaspari; muitos dos textos que mais gosto de sua coluna tratam de iniciativas de profissionais dos serviços públicos, que procuram a saída onde ministérios inteiros encontram meios de apresentar mais problemas.

Há gente bem intencionada procurando fazer sua parte, ainda que leis e burocracias desanimem as almas mais entusiasmadas. Um trabalho de formiguinha cujo resultado a formiguinha decerto não o verá em seu tempo de vida. Talvez os filhos, talvez os netos…se tudo der certo, se a incompetência ou a sabotagem (ou a sabotagem dos incompetentes, que acreditam vencer na Política prejudicando a maioria por meio do mecanismo de manchar uma administração) permitirem. A formiguinha no caso trabalha acreditando mesmo que nem os bisnetos dos bisnetos verão algo pronto, mas não deixa que esta certeza lhe afete o ânimo.

Isto exige cobertura decente, as luzes precisam atingir a oficina da sociedade. Que se desvie um pouco algum holofote do balcão onde o sofrimento de milhões é tratado como troco miúdo, subtraído nas espertezas de uma politicagem miserável, sórdida.

Lembro do Elio Gaspari em um uma palestra do “Congresso da ABRAJI -Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, nona edição” explicou algumas das falhas nas coberturas de políticas públicas no Brasil. Gaspari (o vídeo está no “YouTube”) dá o exemplo da cobertura da Saúde (cito de memória, logo…):

“As pessoas vão cobrir Saúde no Ministério da Saúde. Tem alguém aqui nesta sala que acredita que Ministério da Saúde resolve o problema da Saúde? “

Gaspari diz a seguir que um plantonista que cobrir grandes hospitais e conseguir interlocução com alguns grandes médicos poderá entender de Saúde. Se este jornalista for entrevistar algum destes médicos com quem conversava após este assumir algum posto no Ministério das Saúde sairá sem informação, pois, segundo Gaspari, “ele vira mentiroso. Vira mentiroso pois está na função de defender o Governo e dizer o que o Governo quer que ele diga.”

Cobrir planos de saúde na “Agência Nacional de Saúde Suplementar”, em outro exemplo de Gaspari, “é perder tempo”.  “O problema dos planos não está lá, então lá a gente não vai. Olha, não sei onde se tem que ir, mas sei onde não adianta ir.”

Quem discorda do jornalista veterano?

Este conhecimento de onde não se deve ir é precioso, ajuda nas coberturas, pois o repórter não perderá tempo procurando órgãos que podem fazer muito pouco, que operam sob leis que se mostram impraticáveis, sobrevivendo aos problemas cuja discussão se adia “para o dia em que todos os corruptos estiverem longe da Política e o Brasil for rico.”

Todos estes órgãos têm suas justificativas já prontas para o repórter que os procurar, esta é a verdade que jornalistas experientes como Gaspari conhecem. São a ponta do processo, apenas. Onde ir então, qual a resposta que Gaspari declara desconhecer?

Gaspari sabe e a pratica ao seu modo. Conversa com médicos, juristas, educadores que consigam contemplar prazos dilatados e cenários mais abrangentes. Claro que gente sem cargos públicos no momento, na sua maioria.

A discussão de políticas na imprensa é a saída, o debate público sendo o único aliado do homem comum. Os debates na imprensa afetam no médio prazo o ambiente no Congresso e aos poucos alguma brecha se encontra nos problemas que se apresentam desesperadores, desanimadores. Saúde, política de segurança, política de crédito ao cliente comum dos bancos, política de vigilância alimentar, política educacional…tudo.

A cobertura dos escândalos vem esgotando a classe jornalística, que parece também desacostumada com estas discussões, sobretudo os jornalistas mais jovens. Debate-se de maneira esporádica assuntos vitais; nos canais abertos quase sempre em períodos pré-eleitorais. “GloboNews” sempre traz reportagens e debates que contribuem (ainda que tenha-se que filtrar e decantar bastante) para alguma discussão pública que chegue ao meio da política institucional. Mas é canal por assinatura. A Globo aberta é mais fixada no Congresso Nacional e nos ministérios, sobre assuntos do dia. O mesmo ocorre nas outras redes de TV aberta, pautas dedicadas aos escândalos e ao comércio de votos por cargos. Portanto…

Os jornalistas deveriam se compenetrar deste dever que acompanha o status da profissão; o Poder exige que quem dele desfrute observe seus deveres para os que não o possuem, mas o suportam, ou seja, a massa. Penso que quem exige que apenas diplomados possam se identificar (e ganhar a vida) como jornalistas deveria dar o exemplo. Mesmo porque as faculdades de jornalismo se orgulham de formar “cidadãos aptos a informar e transformar a realidade social”. Que cubram suas áreas com carinho, não se limitando ao roteiro fácil de gabinetes ministeriais (ou secretariais) e órgãos de mãos amarradas.

Dou um exemplo: reportagens sobre transporte coletivo ouvem autoridades da área e cidadãos pouco informados sobre o problema. Por que não dedicar matérias (sem medo de reprisar pautas, até porque o problema se arrasta no Brasil há décadas) aos estudos sobre o custo das empresas e sobre associações de usuários que aplaudem aumentos de ônibus? Não seria algo de proveito a quem sofre o transporte coletivo dia depois de dia?

“Onde tem que ir eu não sei…”

Arrisco, Elio Gaspari, sugerir que se elabore, para começo da jornada, algum mapa imaginário de onde as políticas são tramadas, e que este seja distribuído aos interessados em combater a tranquilidade dos editores acomodados, que não podem (pelo mau exemplo que fornecem) sacudir repórteres preguiçosos e/ou inexperientes.

Algo que se pareça com esta determinação de algum diretor de redação febril:

“Vão às associações de ex-isto e ex-aquilo, aos profissionais competentes que foram boicotados e depois afastados sem motivo conhecido, e tentem arrancar destes mais alguns nomes a se procurar, com o perfil semelhante. Gente capaz e honesta que foi expurgada, sem que se saiba bem a razão. Ouçam histórias, consigam o que puderem de atas de reuniões, documentos, cartas. Tentem ir nas reuniões, aos encontros de veteranos de algumas batalhas perdidas das políticas públicas.”

Neste “de dentro” da sociedade há de haver respostas.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para “Notas”- 29/08/2017

  1. Pingback: “Notas”-01/12/2018 | FERNANDO PAWWLOW-CADERNOS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s