“Notas” – 14/09/2017

Um dia histórico – para Lula

“O senhor usou outro dia o apalavra ‘denegrir’. Este termo é politicamente incorreto, e as associações de negros podem se irritar com o senhor. Aconselho que evite o termo.”

Cito de memória (e portanto não cito à perfeição. Quem quiser confira nos últimos minutos do vídeo, na internet) o conselho de Lula ao juiz Sérgio Moro nesta audiência da quarta-feira, dia 13 de Setembro. Um quase sussurro, olhar de quem, com medo, tenta ainda intimidar. Os minutos anteriores exibem Lula com olhar furioso, respondendo aos berros questionamentos que o incomodavam.

A mudança de tom e de olhar seguiu-se ao pedido da Procuradora do Ministério Público sobre o modo de se dirigir a uma autoridade. Lula vinha usando o “Querida” e a jovem procuradora resolveu colocar um limite. Lula não está acostumado a limites. E ao ser apresentado a um, murchou, transfigurou-se.

Neste particular, este depoimento foi, sim, um acontecimento histórico.

Anunciou-se manifestação de apoio a Lula com dezenas de milhares de manifestantes, e o punhado de apoiadores visto negou esta projeção. Manifestantes contrários também foram poucos (Reinaldo Azevedo, no texto dedicado ao depoimento, notou esta ausência de público em ambas torcidas), mas a oposição ao PT ao menos não anunciou números. Tudo prometia um anticlímax, um evento sem maior consequência que mais uma desmoralização da autoridade de Sérgio Moro por Lula e seu advogado.

Desmoralizar autoridade dos juízes e procuradores é a tática desta defesa desde o início da Lava-Jato. Interrompem o juiz, os procuradores; gritam, debocham. Há quem assegure que tanta tolerância tem seu método, sua lógica precisa. Eu não concordo, penso que o Poder se afirma e se nega também nas coisas tidas como pequenas, no que se considera minúcia.

Lula e seu defensor não conseguiram convencer os interrogadores, e embora se escreva que a prova da culpa cabe à acusação, há o elemento do convencimento da opinião pública em processo envolvendo um ex-Presidente. Atribuir responsabilidades a uma morta não convence, e não comove. Demonstrar irritação com insistência sobre a impossibilidade (ou probabilidade mínima) de certas coincidências tampouco.

E Lula teve mesmo que se refugiar na tentativa de intimidação dos interrogadores. Berros, uso do citado tratamento de “Querido” e “Querida”, o olhar de quem está se segurando para não agredir quem ousa incomodar com questionamentos sobre respostas que se negam; o repertório cênico de Lula, enfim.

O advogado de Lula chegou ao ponto de querer corrigir o procurador, observando que este usara o termo “corrobora” de forma indevida. Sempre interrompendo, sempre levantando questões de ordem menores, na procura de algo que parecesse obstáculo ao direito de defesa. O que se consegue com isto, além de irritar e antipatizar, ainda mais, a defesa?

Mas se insiste nisto, porque alguma coisa conseguem: mostrar os antagonistas de Lula e do PT como uns meninos bem comportados, que por sua origem social privilegiada, perseguem o “Presidente que mais fez pelos pobres em quinhentos anos de História”. Esta é a razão que me leva a considerar um erro qualquer tolerância com quebras de protocolo ou desrespeito franco de Lula e seus defensores. O que se deve fazer é cassar a palavra do advogado quando este interrompe o juiz e os procuradores, e sempre observar o réu quanto ao tom de voz. Observações quanto ao hábito de Lula servir-se de água no gargalo no lugar de utilizar copos seriam desejáveis, mas não tão urgentes quanto estas providências.

Isto não é apego às etiquetas sociais, e sim imposição de limites básicos. Sem estes, o que se tem é um palco ou picadeiro onde Lula diverte seu público e amplia seu domínio através de demonstrações de Poder.

Mas parte da imprensa, sobretudo a que se posta como oposicionista ao PT prefere tratar estes depoimentos como piada, ou afetar superioridade (a maneira mais reveladora de covardia):

“O que Lula e sua turma querem é isto; se Moro perder a paciência será pior. A prisão de Lula e seus companheiros está logo ali, questão de meses.”

Esquecem estes cultores do teatro da luta política como baile de salão que a prisão de Lula não atenuaria desmoralizações impostas por ele às autoridades, e não há espaço para desmoralizados na luta política. A vitória viria como um leite coalhado servido em taças de cristal. A marca do deboche acompanharia a punição, retirando desta qualquer peso histórico. E não se prende um ex-Presidente apenas por obrigação de punir delitos.

A intervenção firme da Procuradora (embora expressa em um tom de voz vacilante, como se cometendo indelicadeza brutal, e se desculpasse com antecedência), quase no final do interrogatório anulou (ou atenuou muito, o que dá no mesmo) todas as falhas no trato com Lula. Ele sentiu o golpe, embora tentasse ironizar, perguntando qual o tratamento devido a uma procuradora.

Lembro do depoimento anterior, quando o advogado de Lula interveio quando o procurador dirigiu-se a Lula como “Sr .Luiz Inácio”. Estava ali um ex-Presidente e isto deveria ser observado, no que Moro concordou. Este incidente mereceu de Reinaldo Azevedo um artigo (Reinaldo Azevedo fez questão de lembrar, hoje, que a Procuradora “formalista” gravara vídeo com os outros Procuradores da Lava-jato criticando a classe política, como se isto a desmerecesse, ou a fizesse menos digna do tratamento protocolar). E não considero que o advogado de Lula estivesse errado neste episódio. Há particularidades, que, negligenciadas, retiram de certos eventos todo o significado. De que vale um julgamento de um ex-Presidente se este é tratado como um cidadão qualquer?

O que esta Procuradora fez foi apresentar a Lula a realidade; intelectuais e jornalistas (e repito, muitos dos que se apresentam hoje como seus oposicionistas) intoxicaram Lula com a fantasia da sua superioridade. Ele, Lula, poderia dispensar qualquer cuidado com educação e respeito nas suas conversas, pois esta conduta era saudada como “autêntica”. Um herói da classe trabalhadora poderia falar como bem entendesse com quem bem entendesse. Chegou com estes modos à Presidência e atingiu a velhice sem qualquer observação sobre impropriedade dos seus modos. Qualquer um se estragaria com tamanha sujeição dos interlocutores, e não se pode, claro, culpá-lo por se portar como sempre se portou; se ninguém reclamou até hoje…

Sérgio Moro interrompendo os discursos de Lula (ainda que com muita educação para meu gosto; eu cassaria a palavra logo após recomendar ao ex-Presidente que ele entrasse com pedido de resposta na Imprensa, se perseguido fosse e não utilizasse o interrogatório como exercício deste direito) e declarando sua convicção de culpabilidade de Lula foi, para mim, um desdobramento da atuação firme da Procuradora.

Lula agiu no resto do tempo do interrogatório como um valentão de rua que, colocado em seu lugar por algum corajoso, recolhesse os vestígios da sua valentia com resmungos e ameaças pronunciadas com voz sumida. O conselho ao juiz (bem depois de corrigido pela Procuradora) sobre evitar o termo “denigre”, acenando com a fúria do Movimento Negro, foi uma (última?) tentativa de rugir após ter a primazia de leão contestada.

Uma data histórica – para Lula.

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