“Notas” – 16/09/2017

Ainda a Mostra do Santander; “Um começo”

Um amigo e leitor me envia email (após ler o texto de 12/09/2017) perguntando se “um simples boicote” não seria pouco para os que promoveram uma mostra com diversas obras nas quais o vilipêndio é evidente. Um processo “ensinaria esta gente a respeitar sentimentos religiosos.” Muitos pensam como este leitor e amigo. Quem recebe o golpe de uma “obra” que nada mais tem que hóstias (ou representações de, o que no meu entendimento nada muda) com inscrições do que povoa a mente do “artista” tem o direito da reação emocional.

Reação emocional é compreensível; combate emocional, não.

Quantos têm como pagar advogados para uma maratona jurídica que pode durar anos? Quantos dispõem de tempo para rituais jurídicos complexos e desgastantes?

Um “simples boicote” tem a vantagem de ferir o órgão sensível, o bolso, e exigir pouco de quem o pratica; desvantagem, não vejo qualquer.

Sei que muitos ofendidos desejam assistir os promotores e apoiadores da Mostra sofrendo punições previstas em lei, mas terão de se contentar com recuos, por hora. Terão de se contentar com isto (e lembrando de agradecer aos céus pelo boicote ter dado certo, apesar dos protestos dos intelectuais de twitter) até serem segmento com Poder. Isto custa tempo, tempo preenchido com estudo e organização de grupos. Como o lado dos que apoiam a Mostra, falando nisso,  se organizou, por anos; estudos e debates sem cansaço.

Não sei se isto acontecerá.

Pois não vejo os ofendidos com a Mostra organizando listas (não tenho visto, pelo menos) de jornalistas e órgãos que apoiam a Mostra e ridicularizam os indignados, para boicotar. Órgãos e articulistas que não deixam um só dia de ironizar e catalogar os ofendidos com o evento em Porto Alegre. E sem este boicote de formadores de opinião e órgãos, este recuo será um dos vários “começos” que não passam de “começo” nesta luta.

“O boicote não foi nada, não foi nada, mas é um começo.”

Quanto não ouvimos sobre diversas iniciativas e movimentos com esta crença nos desdobramentos? Crença desacompanhada da disposição para um combate prolongado, de duração imprevisível, que pode bem tomar o tempo de vida. Mais o tempo de vida da descendência. Esta disposição é, ela própria, e apenas ela, “um começo”.

As “Jornadas de Junho” ficaram na fase do “é um começo”. O impeachment de Dilma Rousseff, outro “começo”. São os “começos” de quem deseja acabar logo com a luta e voltar ao elemento natural, de consumo desligado das coisas desagradáveis da Política. Ao mundo pré – PT, como sonham tantos que não conseguem ver no governo do PSDB, de Fernando Henrique Cardoso, o início de muito que ganharia energia total no período do PT.

Este tom de menosprezo a um gesto considerado menor, mas de eficácia indiscutível, o boicote, revela bem o ânimo de quem ainda não tomou gosto pela luta. Tivesse esta gente que se considera “ativista de Direita” um apreço mínimo pela luta política, não exibiria tanta pressa e tanto desprezo pelos gestos que não custam dinheiro (mas tiram dinheiro do lado adversário) e exigem apenas organização permanente. Isto, organização permanente, o que muitos no fundo não querem exercitar.

O lado dos “ativistas da diversidade” possui bancas e mais bancas de advogados e todo o Poder do dinheiro e do domínio nas redações de jornais e revistas. Uma luta de igual para igual com estas potências resultaria em massacre.

Não seria sequer “um começo”, mas um suicídio.

Um parêntese biográfico ideológico

Rua Guarani, centro de Belo Horizonte. Um dia de um ano do fim do Séc XX.

Minha avó materna, no Brasil desde 1949, me levava como auxiliar de compras pela vizinhança de seu apartamento na Av.Paraná. Quem conhece BH sabe o que esta vizinhança ainda tem (e naquele final de década de ‘90 tinha ainda mais) de fedorenta, atulhada de comércio de rua e calçadas deterioradas. Não é local para turismo, ou indicado para almas deprimidas; todo o conjunto de imagens que surge quando se menciona centro de cidade grande “necessitado de revitalização”.

E minhas queixas e lamentações sobre o Brasil compareceram à conversa entre avó e neto entre compra e outra; aqui uma extensão de fio elétrico, ali um tempero…

“O Brasil é atrasado, olha a brutalidade desta gente vinda do campo sem saber o que é uma cidade grande.”

“A tristeza do Brasil é sua herança colonial miserável”,

e outros tantos clichês que não se acanham da condição de clichês quando se contempla a feiura e a pobreza e não se consegue conter, fala-se e fala-se…

“Que você conhece de outros países? Só conhece o Brasil.”

“Sim, vó, mas você conhece a Polônia (sua terra natal), e outros países da Europa de passagem. Duvido que viver na Polônia do Pós-Guerra era tão ruim como se arrastar na miséria e atraso aqui do Brasil.”

“Você sabe o que é viver, de uma hora para a outra sob as leis de um país que não é o teu? A Polônia, no lugar dela onde eu vivia, passou a pertencer à União Soviética. Soldados russos entravam na minha casa procurando o que levar.”

Tentei argumentar sobre este ser um momento passageiro, de confusão histórica e mostrar o cenário que nos cercava ali, naquele momento de discussão entre a Paraná e a Guarani, com sacolas nas mãos.

Minha vó ensaiou narrar algo do que viu de muito perto, não de leituras de livros escritos por quem não passou nem do outro lado de uma fronteira, mas desistiu da discussão com jovem presunçoso, comunicando, com um gesto de estapear o vento, que a discussão acabava ali. O que não disse, a expressão vincada das lembranças deprimentes disse, e de sobra.

Voltamos ao apartamento minúsculo, em um edifício velho de décadas, calados, portando sacolas com as compras da tarde. Minha avó poderia transmitir em seu andar curvado e em seu rosto de expressão firme tudo, menos saudade da Polônia e da Europa. Ou qualquer fantasia sobre as promessas do Primeiro Mundo.

O que aprendi sobre remédios para males complexos não veio de leituras, mas deste trajeto entre rua Guarani e Av.Paraná.

O capitalismo é um mal cujos remédios apresentados até hoje fazem-no parecer benévolo.

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