“Notas” – 26/09/2017

O “Muso do Verão” de 2017: o Horário de Verão

Ontem, o programa “Estúdio I” do “GloboNews” dedicou-se ao Horário de Verão; discussões e enquetes sobre a proposta do Governo Michel Temer de colocar fim ao tormento ao referido horário, uma das muitas pragas que o Brasil importou dos Estados Unidos como se não tivesse já suas próprias.

Há, claro, a má vontade sobre qualquer iniciativa deste Governo; faça o que fizer este Governo, a obrigatoriedade de se declarar contrário será cumprida. O que esperava este grupo de políticos ao aceitar o Poder como caroneiro do PT? Os petistas e para- petistas deploram o impeachment por este ter dado o Poder ao grupo que hoje está sob investigação.

“Não é possível que os ‘coxinhas’ não pensassem nisso quando vestiram camisetas da Seleção e foram para as ruas! Entregar o País ao grupo mais desmoralizado do PMDB!!!”

Não era possível que os eleitores do PT não soubessem que o Poder seria dividido com gente assim, respondo. Parece que este grupo que sempre adere aos governos era tomado como um grupo de orações por estes petistas tão surpresos.

(Escrevi no blog sobre esta associação do PMDB com o PT de maneira um tanto profética no dia 14 de Agosto de 2011, no texto “PMDB, o culpado providencial”)

E tome agora combater toda e qualquer medida proposta pelos “usurpadores”.

Enquanto são militantes de redes sociais que se manifestam assim, tudo bem, parte do jogo. O problema é quando jornalistas, formadores de opinião remunerados, agem como militantes de internet. Aí acaba qualquer sentimento de confiança, qualquer respeitabilidade. A única objeção respeitável à medida governamental pode ser a que questiona a preocupação súbita, repentina, de quem mesmo dominando o Congresso por décadas, não se movimentou para colocar este item na pauta.

O debate sobre Horário de Verão tem sofrido desta distorção; possíveis economias de energia e prejuízos ao organismo de quem violenta seus horários por um período do ano tornam-se pretextos, ou disfarces mal ajustados, à prática da política partidária mais crua.

Não tardará e jovens da praia, “conscientes”, vestirão camisetas “No Horário de Verão ninguém mexe, Golpistas!” e “Coxinhas não querem acordar cedo, Horário de Verão neles!!!”

O Horário de Verão como muso, pronto a receber homenagens em prosa e verso e “instalações” de “coletivos”. Ou um especial no “GloboNews”, quem sabe…

Concursos de “musas do Horário de Verão”, saraus e “maratonas” também são possibilidades. “Ocupações” e marchas protestando contra “inimigos da ecologia e inimigos da democracia” vislumbro desde agora.

Ou alguma alma ingênua duvida que se o fim do Horário de Verão estivesse sendo proposto pelo PT ou pelo PSOL, ou ainda pela Rede, não haveria já seus apoiadores dando expediente em programas de TV ou redigindo editoriais recheados de estudos demonstrando que os males ao chamado “relógio interno” são pouco compensados pela economia de energia (que estudos mostram ser a cada ano menor)?

Mas é o “golpista Temer e sua gangue do PMDB” que vem propondo medida que é (quem o duvida?) popular. Logo…

A enquete sobre a continuidade do Horário de Verão mostrou empate que me parece fácil de explicar: o programa é assistido, penso poder afirmar, por classe média com certa folga no horário (começo da tarde). Penso também ser possível afirmar, sem o auxílio de estatísticas, que é público de classe média, na sua maioria. Como tal, penso também não exigir maiores engenhos a conclusão de que não é gente que teve que saltar da cama às cinco da manhã. E respondeu, pois, mais de acordo com suas simpatias políticas do que com qualquer outro critério, seja pela preocupação ecológica declarada, ou pela inclinação pessoal. Posso, claro, estar enganado sobre os favoráveis ao Horário de Verão na enquete do “Estúdio I”. Talvez sejam trabalhadores no horário de almoço contribuindo para o debate.

Pois aos madrugadores é permitido adotar o horário de preferência, sim? O sujeito que queira, por preocupação com os gastos de energia, ou por desejar aproveitar o verão ao máximo, adiantar seu desertador, que esteja servido! Não precisa do Governo impôr à população esta escolha. Penso mesmo ser obrigação moral a adoção espontânea do Horário de Verão destes preocupados com energia. Acabe o Governo, não importa se este ou qualquer outro, com o Horário de Verão, que estes ecologistas de estufa o mantenham na vida pessoal.

Por que não são entrevistados os madrugadores compulsórios do Horário de Verão? Entrevistas colhidas nas estações de trem dos subúrbios de São Paulo e Rio de Janeiro (madrugadas na Baixada Fluminense incluídas), e os terminais de ônibus das duas cidades, repletos de trabalhadores humilhados por esta imposição governamental. Em BH sei que as estações de ônibus dos bairros distantes (e dos municípios da Grande BH) não exibem massas de entusiastas do Horário de Verão. Por que não vai um ecologista estudantil nestes lugares defender “a economia nos horários de pico”?

Estes ecologistas residentes em bairros nobres (no RJ, perto da praia) parecem não se imaginar no corpo mal descansado dos trabalhadores pelos quais declaram amor, ou serem capazes de imaginar as estações de transporte coletivo (e caro! ruim!) repletas de cansados.

Não conheço estes ecologistas de bairro nobre e portanto apenas imagino que eles nem imaginam o quanto este horário é odiado com todas as forças por quem sabe o valor concreto de uma hora a mais de descanso; as pragas declamadas todas as manhãs contra autoridades (e contra apoiadores das autoridades) que ignoram o que seja levantar com o céu ainda azul escuro, quase preto, não são audíveis nos bairros onde moram e /ou pontificam “formadores de opinião”.

Isto não imagino, conheço trabalhadores da vida real.

Uma “gastura”

José Carlos Oliveira no seu “Um Novo Animal na Floresta” faz referência a um termo que diz ser do seu estado natal, Espírito Santo, mas que conheço desde muito novo, aqui também em Minas Gerais, e que descreve uma sensação de mal-estar: “Gastura”.

Segundo o Carlinhos Oliveira no livro citado, “porque vai gastando os nervos devagarinho.”

Tenho “gastura” de gente que fala cantando, numa tentativa de comunicar simpatia e que a mim revela falsidade e ameaça implícita:

“Faça o que quero ou abandonarei este tom de voz amigável, este falar carinhoso.”

Quase sempre que disse coisas que desagradaram o “cantante” encontrei a rudeza e a agressividade enfim libertadas de freios e máscaras. Que diferença no tom e no ritmo, sô! E isto me fez, com os anos que tenho, um desconfiado de gente que fala cantando. Imagino o punhal dissimulado na dobra da camisa, o pedido de algo (que me custará muito) embutido na conversinha.

Outra “gastura” que me esfola: a palavra ‘capital” nos noticiários locais.

“Expectativa de chuva na capital este fim de semana.”

“No centro da capital, tumulto por conta dos camelôs.”

“Nos bairros da capital, moradores se queixam da falta de água durante horas.”

Não usam Belo Horizonte ou “Beagá”. Assistem o noticiário de estados cuja capital tem mesmo nome do estado, como São Paulo e Rio de Janeiro, e concluem que devem imitar os âncoras, alheios à necessidade concreta destes de diferenciar as dimensões (municipal e estadual) citadas nas reportagens. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, o âncora é obrigado, pela realidade concreta, a dizer “na capital” quando se refere a algo restrito à ela. Será tão difícil entender isto? Quanto custa perceber que isto é ridículo?

Pois é ridículo, segundo jornalistas de outras praças aos quais mostrei o hábito (através de outro texto neste blog dedicado a este cacoete) presente no noticiário televisivo e impresso. Estes jornalistas de outras cidades aos quais pedi apreciação sobre o costume, consideraram este ‘“a capital” como um provincianismo que reforça o estereótipo do mineiro caipira; “depois se queixam das gozações”…

Pode-se dizer: “Mas Pawwlow, ficar repetindo o nome da cidade?”

Ora, não repetem “a capital”, “a capital”?

Na página impressa, este cacoete é apenas lamentável, um argumento a mais para não ler jornal daqui, mas dito e repetido por gente que fala cantando…

dá uma “gastura”…

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