“Notas”- 30/09/2017

Sobre Hugh Hefner

Não sei muito sobre o publisher de “Playboy” falecido por estes dias; e material sobre Hugh Hefner não falta na internet. Também não tenho pretensão de superar Renzo Mora, que já escreveu sobre Hefner textos mais saborosos do que eu seria capaz.

A “Playboy” foi publicação importante para mim; algumas das melhores entrevistas que li foram publicadas na versão brasileira. Ruy Castro e Fernando Morais, por exemplo, me foram apresentados ali. Capítulos de livros, entrevistas longas com personalidades, reportagens de páginas e páginas no melhor modelo de jornalismo literário, etc, etc… E sei que o modelo original tinha (ou tem ainda, não acompanho a “Playboy” americana) este mesmo modelo, esta preocupação de nivelar pelo alto o entretenimento para as massas.

Os ensaios fotográficos também me renderam momentos marcantes, se me entendem; e não me excito com a nudez um milésimo que com a seminudez; fotógrafos como J.R.Duran foram os responsáveis por esta comoção (minha e de outros tantos apreciadores de mulheres). Duran, em entrevista ao Ruy Castro para “Playboy”, contou que, em uma reunião na matriz da revista, ouviu dos executivos americanos que suas fotos pareciam ser tiradas pelos namorados das modelos. E ainda assim seu estilo foi respeitado e mantido (ainda bem!).

Não sei o quanto Hefner tinha conhecimento das edições nos diversos países, mas acredito na sua satisfação com a versão brasileira, expressa nas mensagens publicadas nas edições comemorativas de aniversário. Satisfação, reitero, merecida. Os talentos brasileiros do jornalismo e da fotografia ofereceram por décadas um produto de nível elevado a um preço acessível a muitos. Isto é um feito ainda pouco louvado, no meu entender.

Como disse parágrafos acima, não acompanho a edição americana, e a de qualquer outro país, mas não teria medo de apostar que o nível de exigência quanto ao produto final é o mesmo, o que significa que Hefner era rigoroso com sua franquia.

Como não repetir o clichê sobre seu “caráter visionário”? Como não considerar este homem um empresario de comunicações singular? O senhor de robe de chambre cercado por mulheres deliciosas em um castelo de prazer de gosto questionável era um pensador da imprensa e de seu papel neste negócio. O intelectual não engolia o playboy e vice-versa, não se anulavam. Não à toa sua casa era frequentada por gente como Norman Mailer, o intelectual menos intelectualoide por excelência.

Um sujeito convencional, um publisher cinzento e respeitador de modelos de profissão, talvez não fizesse tantas apostas ousadas, como as entrevistas longas com personalidades do esporte, música, cinema, política e literatura. O citado Norman Mailer, Bob Dylan, Miles Davis (a primeira “Entrevista Playboy”, de autoria do Alex Haley), isto só na edição matriz.

A edição brasileira teve diversas entrevistas com personalidades de diversas áreas, também longas como as do modelo americano, conduzidas por jornalistas de nível (muitas pelo Ruy Castro). Uma pelo menos deve ter alcançado repercussão internacional: a de Fidel Castro por Fernando Morais, na comemoração do décimo aniversário da edição brasileira.

E não duvido que outros países tivessem as entrevistas longas com pessoas importantes por seus jornalistas mais competentes.

A questão da liberdade sexual que tem sido tão celebrada nos obituários de Hefner me parece discutível, uma vez que o erotismo não era tão inédito quando do lançamento de sua revista (mesmo sem a nudez, a sensualidade de modelos era frequente nas revistas), e mesmo este apelo foi ultrapassado por publishers como Larry Flynt. Hefner teria sido mais um beneficiário da liberação da década de 1950 do que um seu inspirador segundo artigo publicado em “The Weekly Standard”, de autoria de Philip Terzian. O texto da revista neocon demonstra que o avanço da liberação de costumes do imediato pós-Guerra não foi obra de intelectuais que viram milhares de quilômetros à frente, como alguns românticos imaginam, desprezando a História. Hefner seria “sintoma, não a causa” desta revolução, diz o texto.

Isto não anula sua importância, reforça seu caráter de leitor dos tempos, no meu entendimento. Um intelectual que soube fazer dinheiro atento à época, não se refugiando em fantasias de época de ouro, ou na morte em vida da burocracia acadêmica.

O texto da revista neocon diz que Hefner fora vencido pela caricatura, um excêntrico de robe de chambre consumindo litros de refrigerante. Bom, ele sempre se colocou como personagem, e isto já é em si uma caricatura -tanto do intelectual como do homem de negócios. Não ficarei surpreso se ler um dia sobre gargalhadas de Hugh Hefner sobre Hugh Hefner. Lembro de entrevista que deu à Bruna Lombardi (salvo engano) na qual se imaginava interpretado no cinema por Tom Hanks, e não por Robert De Niro como sua entrevistadora (caso seja mesmo Bruna Lombardi quem o tenha entrevistado nesta ocasião) imaginava; isto deve dizer algo, não? Os “reality shows” da “Mansão” são divertidos, mesmo pelo kitsch que não vejo como não ser proposital.

Há o Hugh Hefner personagem trágico, retratado no filme do Bob Fosse, “Star 80”. E posso imaginar que o personagem Hefner ainda renderá outros tantos filmes explorando sua figura de cachimbo e pijamas de seda na mansão de excêntrico de história em quadrinhos.

Como todo personagem mítico, há a fase do ocaso, da decadência dos dias finais.

A “Playboy” brasileira dos últimos anos (falo da fase da ed.Abril, não vi até hoje nenhum número da fase atual) vinha caindo de qualidade; entrevistas mais curtas, repórteres pouco inspirados. Não sei como andava a matriz e as edições de outros países.

Que achava Hugh Hefner desta queda de nível? Ele teria desleixado nos últimos tempos? Espero textos de quem entende do assunto e do personagem.

Culpam a internet, como se “nudes” ou pornografia abundante substituíssem bons ensaios. Pode ser. Sei que entrevistas longas, que são discutidas nos lugares dias após a publicação e textos de autores consagrados não se encontram na internet a todo momento. Logo…o que vem matando a imprensa, o mercado editorial, é a mentalidade do lucro através da economia mesquinha. A mentalidade de dono de pequeno negócio que se intoxica com leituras ligeiras de manuais de sucesso, mentalidade ilustrada pela “Parábola do Frango de Jacareí”.

Li a referida parábola no livro do Mario Sergio Conti “Notícias do Planalto”. Conti conta que Boni, em reunião com executivos da Rede Globo nos anos ‘80, narrou a história de um restaurante de beira de estrada em Jacareí, muito procurado por suas porções fartas de frango. O filho do dono do estabelecimento, recém-chegado de um curso de administração nos Estados Unidos, notara que os fregueses deixavam muito das porções no prato. Sugeriu ao pai que reduzisse, pois, as porções à metade. Reparou também que toalhas de pano consumiam gastos com lavanderia e poderiam muito bem ser substituídas por toalhas de papel. O letreiro do restaurante era também gasto desnecessário, o lugar era conhecido já. A cada medida de economia, fregueses desertavam e o restaurante faliu.

Esta a mentalidade que vem convencendo leitores a cancelar assinaturas de revistas e buscar o máximo possível em sites na internet. Publicações com poucas páginas, textos sem criatividade, temores de pressões de grupos organizados. Nada de riscos, nada de ousadias. Qualidade apenas se sobrar espaço e não comprometer um centavo.

Esta é a mentalidade que nega Hugh Hefner. Afinal, sua fortuna veio da sua ousadia e de seu casamento com a qualidade. Pois muitas revistas de nudez vieram e passaram.

“Faça o melhor, e o leitor virá”, parecia ser o lema de Hugh Hefner, bordado em seus robe de chambre e gravado nas bordas das banheiras que aconchegavam suas coelhinhas.

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