“Notas”- 10/10/2017

“O mais solitário dos homens no Brasil”

Como escrever sobre questões que sei mal colocadas logo no início? Como me manter distante das discussões estúpidas? Como escolher assuntos que acredito úteis, ou ao menos agradáveis? São as perguntas que me faço quando provocado por interlocutores que leem o blog e cobram textos sobre “as últimas”. “As últimas” não costumam valer a tinta da caneta, mas corro risco do blog sofrer deserções caso me omita sobre as cretinices do momento.

Desde a tal “mostra do Santander”, muitas pessoas descobriram que seus valores são motivos de gargalhadas dos “formadores de opinião”. As manifestações de indignação com aquele evento foram saudadas como “retorno à Idade Média” como se manifestar contra algo que é do gosto de alguns fosse um crime, um escândalo, um acontecimento preocupante. A maioria foi enfim apresentada ao que alguns sofrem há anos nos ambientes sob domínio da casta acadêmica: a repressão a qualquer indício de discordância, com todos os seus estágios; o espanto dos que determinam o que é certo pensar, a cobrança pelos questionamentos, e por fim, a exclusão e a estigmatização.

Jornalistas e celebridades de internet dando expediente no twitter não argumentaram, desqualificaram os que se manifestaram contrários àquela mostra. Ou ao fato de crianças terem formado público compulsório daquela mostra. Ou aos que se declararam espantados com alguns itens daquela mostra.

Público compulsório é comum nas Universidades, falando nisso. Quantas palestras maçantes e de nível baixo são empurradas aos alunos, valendo presença? Para não sofrer reprovação por faltas, as vítimas lotam auditórios. São, além de meio de garantir público obrigatório a medíocres com titulação, aulas a menos a dar por parte de professores que de hábito não corrigem com atenção provas e trabalhos, que não gostam de trabalhar textos com alunos em classe, etc, etc.

E agora as crianças como público compulsório de eventos e ai de quem piar! Barbudinhos hipster comparecerão ao linchamento virtual dos “reacionários que não deveriam mais existir em pleno Séc.XXI”.

A maioria foi enfim apresentada aos medíocres com Poder.

Este Poder veio do deslumbramento da classe média pelos diplomados, aos “que sabem das coisas”. Como a maioria não gosta de ler e (menos ainda) de discutir questões políticas, e o vazio não existe na vida pública, o Poder foi dado de presente à minoria que lê algo (ou segue quem lê) e se ocupa em elaborar códigos. Não considero isso injusto.

O chato é quando você lê, se ocupa de questões políticas e culturais e discorda do clero acadêmico, e tem ao seu lado gente com quem se tem apenas “afinidades negativas”. “Afinidades negativas” são aquelas que segundo Ortega Y Gasset, se formam entre indivíduos que têm em comum “o fato de nenhum se chamar João”.

E assim fica o sujeito que, como eu, não aceita público compulsório do que quer que seja, sobretudo se público compulsório de crianças, mas discorda de censura. O sujeito que defende boicote aos promotores da mostra, mas que considera intromissão estatal (ainda que sob pretexto de defender crianças) algo indesejado em casos como este.

Ou o sujeito que considera a performance de um sujeito nu ridícula, mas que considera um exagero processar o dito artista, ou proibir sua apresentação.

O sujeito que considera que se está vulgarizando acusações de algo grave como pedofilia, mas que não acha certo que pessoas que discordem dos ditos formadores de opinião sejam comparadas aos traficantes de drogas que atacam centros de candomblé, como a matéria do “Fantástico” parece sugerir.

Este sujeito é, hoje, o mais solitário dos homens no Brasil.

Não se pode trocar meia dúzia de palavras sem ser acusado de reacionário ou “moderninho” por quem não o permite sequer terminar uma frase. Tem críticas a fazer a uma mostra? Está então ao lado dos inimigos das liberdades. Considera que há histerismo em determinadas manifestações de desconforto com o que se convenciona chamar de arte? Deve estar do lado “dos que promovem essas coisas.” Ou “querendo fazer média”.

Não vale a pena ter opinião no Brasil de hoje. Talvez no Mundo.

Há do lado de quem critica com embasamento quem ataca por preconceitos, e há do lado de quem elogia por convicção quem o faz por medo do banimento de algum círculo social. Qualquer posicionamento sofre, nos dias que suportamos, esta deformação, este traço de indignidade que degrada os juízos sobre assuntos vitais, como liberdade e valores morais.

Acusações de pedofilia por parte de quem não sabe com precisão o que é pedofilia duelam com acusações de hipocrisia contra quem critica crianças como público compulsório “mas curte as ‘novinhas’”, como se isto dissesse algo.

Lembro das acusações contra Xuxa por esta ter contracenado com um menino em filme de Walter Hugo Khouri, acusações feitas por quem nada sabe sobre o filme, menos ainda sobre o grande cineasta, sempre que se discorda de algo que Xuxa diz. Este dado, a acusação de pedofilia a uma obra de um artista respeitado, já diz muito do que corre por opinião no Brasil. O fato de Xuxa ter proibido o filme contribui para esta distorção, mas não justifica as manifestações de ignorância (manifestações que não se restringiram aos idiotas das caixas de comentários da internet, um colunista escreveu besteira sobre o filme, querendo atacar Xuxa quando ela apoiou a tal “Lei da Palmada”), as boçalidades que lemos sobre uma obra de arte por parte de quem não a conhece.

Este traço, a afoiteza, é um dos pontos fracos de quem deseja enfrentar o Poder apenas por ter dado conta da existência dele só agora.. afoiteza que anda de braços dados com a ignorância, sua irmã gêmea. A casta acadêmica em seus tentáculos na mídia trata de esmagar os discordantes, e consegue. Consegue, pois os seus críticos estão acompanhados, contra sua vontade, de gente despreparada e com pressa (de quê?).

Os inimigos da casta acadêmica têm como aliados os piores soldados nesta guerra, e o sabem: os ignorantes que querem, ainda que não saibam como, “fazer alguma coisa”.

Os que pensam e não conseguem concordar com os lados na disputa não podem contar com nada, com ninguém.

Assim me coloco e me identifico com outros que desistiram de formar fileiras. Escrever sem ganhar um centavo e perder leitores pelo que não foi sequer escrito é o destino certo de quem percebe o duelo entre estúpidos. Sentir-se o mais solitário dos homens no Brasil…

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