“Notas”- 09/12/2017

Notas após um intervalo

Quando não se vive do blog, este acaba por ser sacrificado na escala das obrigações em tempos difíceis. Problemas pessoais me absorveram de maneira que este blog sofreu um de seus maiores hiatos e duvidei mesmo que postasse qualquer texto, qualquer nota curta, antes de Janeiro de 2018. Aos que visitaram o blog desde a última postagem, agradeço por não terem desistido deste espaço. A deserção de um público exposto ao jejum de textos novos é compreensível.

E neste tempo não faltou assunto, nunca falta.

William Waack

Me senti obrigado, por exemplo, a escrever algo sobre o episódio do William Waack, logo que o vídeo com sua frase infeliz foi divulgado. Mas que escreveria ali? Lamentaria que um jornalista que admiro e respeito (autor de livro ao qual me devo uma releitura, “Camaradas”) e sei possuidor de cultura rara entre jornalistas de qualquer país se expressasse como qualquer idiota em um momento no qual se acreditava sem testemunhas? Protestaria contra o linchamento promovido por gente que teve pretexto oferecido embrulhado com laço de fita vermelha? ou me juntaria aos que tentaram defender Waack declamando sua biografia para quem não se importava com ela na delícia de destruir um grande nome?

Não há muito que se pode fazer quando grupos organizados dispõem de meios de liquidar seus inimigos e os ditos inimigos contam apenas com a satisfação interior por serem justos, cultos, etc, etc. Waack teve contra si os blogs simpáticos ao sistema do PT e de inimigos dentro da imprensa na qual trabalha. Há muitos no “GloboNews” que pensam de forma diversa da dele, sem sua cultura. Onde o público de Waack (o mesmo que agora anuncia desertar do canal a cabo da Globo após seu afastamento) nos momentos onde ele era a voz isolada no coral do esquerdismo de orla carioca? Talvez fosse ele mais elogiado que foi, mais louvado que foi, e a empresa cogitasse de uma convocação para um pedido de desculpas que enfraqueceria o assunto no médio prazo. Como a Band fez com Boris Casoy no episódio da ofensa aos garis. Lembram? Ainda que Casoy sofresse condenação na Justiça e o assunto seja ainda hoje requentado por seus detratores, sua carreira não terminou por conta de um comentário estúpido emitido, como o de Waack, em momento de descontração. Os defensores de Waack preferiram louvar seu caráter, negar seu racismo e relativizar a ofensa. Claro que isto só colaborou para fervura da água no caldeirão onde uma carreira brilhante era sacrificada por medíocres.

Claro que se mencionou a inveja, o ressentimento, a covardia ante as milícias do “politicamente correto”, mas penso que articulistas como Augusto Nunes, José Roberto Guzzo, e Reinaldo Azevedo (para citar os três que li) subestimaram o Poder combinado das redes sociais e da imprensa esquerdista. Este esforço associado de militantes e ativistas e jornalistas ex-funcionários da imprensa convencional vem obtendo vitória sobre vitória enquanto jornalistas competentes e cultos preferem tomar esta ameaça como fantasia de paranoicos:

“Como jornalistas recalcados, conservados no rancor por não mais estarem empregados no que chama de ‘mídia golpista’ podem, nos seus blogs e sites grotescos, representar algo que não seja leitura para os já convertidos?”

Aviso, ou tento avisar, há anos, que esta facção jornalístico-partidária tende a ficar mais e mais forte. Fiz isso nos espaços de comentários dos jornalistas que admiro e neste meu blog. Fiz o papel do profeta de pátio de hospício, vejo hoje. Estes jornalistas não conseguem admitir a possibilidade do cochilo. Sempre estão certos, são profissionais que agradecem a boa vontade dos amadores, mas que sabem o que fazem.

Quando um dos seus é escalado para o linchamento, recorrem à lógica como escudo, acreditando que a massa, o grande público, fará por eles o que eles, como formadores de opinião, não conseguiram fazer: suspender o avanço dos que vêm se impondo pela ousadia, pela capacidade de calar bocas berrando mais alto. Gente que não hesita em distribuir cotoveladas e joelhadas como argumentos. Mas gente também que se ajuda, que forma redes de blogueiros que se citam uns aos outros e se replicam. Isto não tem como não funcionar, convenhamos. As baixas do lado adversário são a confirmação de certas leis da guerra; os que se preparam com antecedência e contam com as dificuldades de antemão, saem-se melhor quando o ataque surpresa resolve se apresentar. Os seguros ou convencidos de alguma segurança, filha de vantagem já estabelecida, sob o mesmo ataque surpresa, cede ao desespero. Como não há cooperação improvisada, quando desunidos precisam se unir às pressas, o resultado é nulo.

Que o escolhido, por culpa sua e dos que acreditaram que este momento (a tentativa, sob certo ponto de vista bem sucedida, de destruição de uma carreira) jamais fosse acontecer, tenha sido um valor como William Waack, torna tudo mais trágico e desanimador.

Lula liderando pesquisas

Sim, não adianta culpar os institutos ou a estupidez da massa. Não adianta também responsabilizar esta ou aquela porção do eleitorado. A escolha pelo impeachment de Dilma Rousseff como desfecho de seu governo desastroso apresenta enfim a conta: Lula liderando pesquisas, sob qualquer hipótese de candidaturas a enfrentar. Ou “cenário”, como preferem redatores. O homem voltou, ainda que não possa sair candidato, ainda que morra.

A desmoralização de um sistema de Poder estava em curso e pedia, para sua conclusão, apenas mais um ano e alguns meses. Havia o espetáculo tocante e histórico da massa discutindo votos de Ministros do Supremo Tribunal Federal; ônibus lotados e filas de emprego eram palcos de discussões inéditas entre a massa que apenas suporta os golpes dos poderosos sobre o lombo, de olhos fixos no chão.

Mas a Imprensa e a classe política tinham pressa. E agiram. E o resultado desta pressa em agir está aí: a mesma massa que tempo atrás parecia temível ao PT (quem não lembra do diagnóstico sombrio de Gilberto Carvalho sobre a rejeição ao PT atingindo, como infiltração, os extratos não categorizáveis como “elite branca coxinha”?) de novo sob o encanto do líder que parece nos dias de hoje, algo até benéfico, algo a se ter saudade.

Escrevi durante o processo de impeachment sobre o que seria o Brasil após a queda daquele governo, parecia que tinha diante de mim alguma bola de cristal. Tinha sim olhos atentos sobre um chão movediço e nos livros de História que advertem sobre afoitezas.

Talvez o Brasil precise passar por certas coisas para aposentar torcedores que se apresentam como analistas. Uma volta do populismo agora revitalizado pelo rancor e pela fúria da casta acadêmica, mais disposta que nunca.

Pena que eu não poderei comemorar meus acertos; estarei, como os que não poderão sair do Brasil, sob este pesadelo.

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