“Notas” – 16/12/2017

“Agora é diferente!”

Políticos simpáticos ao PT, filiados ao PT e /ou ao “Pós-PT” anunciam ida ao julgamento de Lula em Porto Alegre, marcado para Janeiro. Quando escrevo políticos, refiro-me aos parlamentares e aos ativistas de “Coletivos” e “Movimentos Sociais.”

Parecem mesmo dispostos. Para o quê? Que se espera desta marcha?

Não acredito que estes manifestantes anunciados marcharão ao palco do julgamento do líder petista com ilusões de suspender o julgamento, ou forçar sua absolvição. Não acredito que haja, mesmo nas mentes mais simplórias, esperanças de uma reviravolta que torne possível a volta de Lula à Presidência da República pelos meios convencionais. Penso que calculam 2018 já sem esta hipótese. Logo, que esperam deste espetáculo?

Haveria o desejo sincero de demonstrar solidariedade e companheirismo a um provável condenado? O desejo do protesto puro, sem expectativas que não a da demonstração de que correligionários de Lula não consideram legítimo sua condenação e consequente retirada da disputa? O ânimo do combatente que não sofre abalos nos momentos desfavoráveis?

A retórica dos políticos e jornalistas que apoiam (ou mesmo promovem,ou ajudam a divulgar) esta manifestação sugere que não são apenas as motivações enumeradas acima que movem seus pés até Porto Alegre. Há a determinação de considerar este julgamento uma usurpação da vontade popular, um “golpe dentro do Golpe”. Paulo Henrique Amorim, por exemplo, não tem deixado dúvidas quanto a este estado de espírito ao escrever textos e gravar vídeos dizendo não mais haver espaço para “conciliações”. Como ele (Amorim) sempre reitera:”Esta canoa vai virar”. Amorim está entre os que apoiam a ida ao julgamento e exibe em seu site vídeos de políticos como Roberto Requião também “convidando” ao “Protesto”.

José Dirceu também (ou sobretudo José Dirceu?) incentiva a ida a Porto Alegre: a militância deverá marchar (pelo que li na “Folha de S.Paulo) até Porto Alegre no dia 24 de Janeiro, pois esta data (o dia do Julgamento de Lula) seria o “Dia da Revolta”. Dirceu invoca sentimentos como “fúria” e “indignação” e “mesmo o ódio”.

O que vai em sites e blogs simpáticos ao PT e é sintetizado e potencializado pela conclamação de José Dirceu autoriza a imaginar que o propósito desta concentração de militantes em Porto Alegre é intimidar o Juiz daquela vara e combater pela substituição de um sistema político adverso ao PT por outro que promova a volta do PT ao Poder em bases mais adequadas ao propósito de sua conquista e perpetuação.

“Agora é diferente!” anunciam sem constrangimento ou eufemismos. Por que adotariam eufemismos, afinal? Sabem que falam aos inimigos que negam o medo enquanto recuam, que riem o riso forçado de quem sabe que está diante de gente que ameaça e cumpre.

Quais anúncios de confrontos e arruaças não foram cumpridos? A Ed.Abril já foi atacada com carregamentos de lixo. A TV Globo pichada. Repórteres corridos de lugares públicos após terem seu direito de trabalhar “escrachado” por militantes. Alguém foi punido? Alguém responde a processos por depredações e/ou agressões?

Tudo é tratado com balançar de cabeça e ironias que dizem “deixa estes moleques fazerem o circo deles, um dia eles cansam. O povo está vendo como eles são intolerantes e fanáticos.” Risos forçados e relativizações (sobretudo numéricas, como se agressões ou manifestações violentas só fossem preocupantes se realizadas por multidões além da vista humana) sendo os argumentos mais utilizados por “formadores de opinião” que anunciam “bombas” que “destruirão o PT”. Estes anúncios se repetem desde…desde…2006, 2007?

E assim foram avançando até chegarem ao anúncio de um confronto com a Justiça. Aonde chegarão caso consigam constranger um Juiz ou subjugar manifestantes adversários pela violência? Nem se consegue imaginar como a Imprensa, que é acusada de reacionária pelo sistema do PT, noticiaria anúncio de alguma milícia direitista de marchar até um Julgamento. Mas esta Esquerda tudo pode, nada que faz merece o qualificativo de “grave”.

O impeachment fez um moribundo voltar à vida com fome de sangue. Este moribundo, o sistema de Poder do PT (que inclui seus coadjuvantes e sucessores), não parece disposto a permitir que o estado de agonia tenha oportunidade de se repetir.

“Agora é diferente!”

Reinaldo Azevedo, Jair Bolsonaro e a Violência

Reinaldo Azevedo no seu programa de rádio (vídeo publicado em sua coluna) desta sexta-feira comentou declarações de Jair Bolsonaro. O presidenciável teria dito algo sobre “carta branca da Polícia para matar”. Mais uma declaração apressada que exigiu tradução do deputado; a Polícia precisaria ter garantias de cumprir sua missão contra bandidos armados.

O jornalista apresentou suas credenciais de “amigo da PM”, mencionando sua condição de paraninfo de turmas da Polícia Militar de São Paulo e homenageado pela “Medalha Tobias de Aguiar” (condecoração da Polícia Militar de São Paulo) para anular de antemão comentários de “direitistas chucros”, “idiotas”. Precaução necessária por parte de quem vem sendo acusado de esquerdismo por ex-admiradores que se declaram traídos.

Os argumentos de Azevedo quanto aos perigos de se oferecer “cartas brancas para matar” foram razoáveis. Há mesmo o perigo de que a parcela (não importa se grande ou pequena) dos maus policiais concentrem poderes sem freio. E o perigo que esta ausência de freios se volte contra a princípio da hierarquia, o que tornaria esta “carta branca” mal vista por comandantes.

Até aí, RA ia muito bem. Também considero mudanças nas leis preferíveis a este arranjo de forças que converteria policiais em juízes e carrascos, como também observou Azevedo.

Mas o jornalista decidiu ir além: atacou a proposta de Bolsonaro de tornar mais fácil ao cidadão o porte de armas, mencionando Caracas como cidade onde a liberação de armas trouxe à população insegurança ainda maior.

Não sei muito da situação da Venezuela quanto às armas e não pesquisarei (pois não é preciso) para escrever o seguinte: ainda que a população tenha tido acesso às armas, o que domina as periferias daquele país são milícias que não portam meros revólveres ou facas de cozinha. Gangues que apoiam o Governo e que ostentam armamento pesado. A liberação das armas no Brasil teria este inconveniente: cidadãos com revólveres tentando enfrentar assaltantes e/ou sequestradores de metralhadoras. Isto Azevedo não disse, e estaria certo se dissesse. Caso demonstrasse desta maneira que Bolsonaro está errado quanto ao desarmamento, eu aplaudiria. Mas não. Recorreu aos argumentos sempre reiterados pelos “especialistas em causas da violência”. Sim, os argumentos dos “doutores”, professores universitários sempre ouvidos por canais como o “GloboNews” após tragédias: bobagem comparar o Brasil com pessoas sem direito às armas com suas dezenas de milhares de homicídios anuais com os Estados Unidos de armas mais acessíveis e números de homicídios humilhantes na comparação. O Brasil, segundo RA, não deveria buscar comparação com os EUA, país com IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) distinto do nosso, e sim comparar EUA com Japão, com IDH compatível.

Talvez eu seja um dos idiotas que consideram a comparação Brasil e Estados Unidos válida, ou mais válida que entre Japão e Estados Unidos: países que são gigantescos e com população também gigantesca, e heterogênea. Há bolsões de pobreza nos Estados Unidos e nem nestes a violência se compara aos dos bolsões de miséria do Brasil; leis severas parecem dizer mais neste particular que o tal IDH. Comparar qualquer país da América ao Japão ainda que este país da América seja rico me parece grotesco. Vejam as dimensões físicas, as culturas (os graus de sedimentação cultural, para ser mais preciso) entre os dois pontos que se deseja comparar tomando por base única os números do IDH. Mas esta comparação primária é empurrada aos telespectadores dos canais por assinatura. Uma das muitas demonstrações de idiotice da casta acadêmica que dita as políticas de segurança pública.

RA ao repetir esta simplificação recomendando aos interlocutores bolsonaristas imaginários mais estudo dispensa comentário adicional, mas causa tristeza em quem, como eu, já teve oportunidade de ler artigos excelentes de sua autoria sobre temas graves. Reinaldo Azevedo, tanto na “Primeira Leitura” como na “Veja” era superior ao RA de hoje. Discordo de muito do que ele escreve sobre política, mas no geral respeito sua lógica e a clareza dos seus textos. Daí minha decepção em vê-lo repetir argumentos de hipster de cafeteria, destes que, com barba lenhador de shopping, emitem juízos graves no twitter.

Que Azevedo impugne as ideias de Bolsonaro sobre criminalidade, mas que ofereça sugestões; debata mudanças nas leis, analise com dados da realidade e não com “verdades” da casta acadêmica. Merecemos todos. RA e seus leitores, eleitores do Bolsonaro ou não.

O desafio maior destes dias é combater simplistas sem ser um deles.

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