“Notas”- 23/12/2017

Lições do PT

Não respeito quem despreza conselhos. Tolos declaram aprender por conta própria o que a Vida tem a ensinar, enquanto ignoram, olhos pousados sobre fumaças, as lições que a Vida oferece. Como não considerar gente assim um perigo quando em posição de influência? O Brasil é repleto destas ameaças.

Há os que sabem ouvir conselhos e extrair lições da Vida, porém. E melhor ainda aconselham e fornecem lições – aos que sabem aproveitar, e também  aos que preferem se demorar nas considerações morais em tempos de ameaça.

Os petistas são bons em aprender. Algumas derrotas eleitorais ensinaram muito; não tiveram pressa, inimiga do aprendizado. Antes aprenderam na Ditadura a lógica do Poder. E com a prática do Poder conquistado após anos de oposição se dedicam a ensinar como as coisas funcionam. Claro que só os seus militantes ou os militantes dos movimentos políticos associados extraem proveito. A Direita (ou o que se define por Direita no território do Centro até a Direita de fato ) soubesse ouvir conselhos e extrair lições, o PT e o Pós -PT correriam perigo. Não correm, pois.

Esta semana duas figuras ilustres do PT ofereceram duas lições que me parecem mesmo dois presentes de Natal a todos os que observam e/ ou militam na Política:

Gleisi Hoffmann alvo de insultos por uma passageira em um voo requisita a presença da Polícia Federal e menciona o episódio, esclarecendo não considerar este tipo de abordagem uso da liberdade de expressão. O que a passageira fez com a senadora é o que blogs e sites aliados do sistema de Poder do PT qualificam (e incentivam) como “escracho”. “Escrachar” é agredir verbalmente (ou fisicamente, quem não lembra dos cuspes em idosos acusados de torturadores?) personalidades públicas que lideranças de movimentos considerem merecedoras. Simples. Basta observar que o episódio ocorrido com a senadora do PT pelo Paraná não foi qualificado como “escracho” pela imprensa simpática (não importa se ostensiva ou não) ao sistema do PT. Nem a imprensa dita adversária do PT empregou o termo. “Escracho”, só para os “Inimigos do Povo”.

Quantos “escrachos” foram seguidos de processo, por parte de seus alvos? Levar o agressor (ou deveria escrever “escrachador”?) até autoridade policial só lembro do Jair Bolsonaro. O resto prefere seguir conselhos de quem aconselha covardia, sob o pretexto de cautela, ou “superioridade”. A senadora Gleisi mostrou como se faz. E por quê se deve fazer; “escracho” não é manifestação. Assino embaixo, pois meu blog não aplaudiu os “escrachadores” do Chico Buarque; aos que não leram o que escrevi, informo que postei críticas na ocasião em que alguns jovens hostilizaram o cantor e compositor na porta de um restaurante, observando que a indiferença às pessoas que nos desagradam é a prática a seguir. Negar o olhar, negar plateia.

Aposto que os que militam na chamada Direita preferirão insultar ainda mais a senadora do PT a extrair de sua atitude a lição preciosa. Onde deveria haver o silêncio e a negativa de um olhar (escrevi no blog como belorizontinos se comportaram aos pedidos de votos de Patrus Ananias na Pça Sete), emotivos e apressados depositam atenção e explosões que consagram a liderança merecedora de desprezo absoluto.

Outra lição foi dada pelo Sr. PT, o ex-Presidente Lula, em entrevista coletiva.

O ex-Presidente (ou futuro Presidente, quem sabe?) recomendou que mais pessoas fizessem como Reinaldo Azevedo, ou seja, lessem o processo antes de se manifestar, contra ou a favor de sua (de Lula) inocência. Como o jornalista citado, Reinaldo Azevedo notou, houve risos, a plateia entendeu a citação do nome do jornalista adversário como uma piada de Lula. E parece que não era piada; Lula percebeu no jornalista um “formador de opinião” que se informa antes de “formar opiniões” (não consigo escrever estes termos sem aspas).

Reinaldo Azevedo escreveu que Lula não citou jornalistas do sistema PT de comunicação, e sim o de um jornalista tido como “de Direita”, “Tucano”. Daí as risadas da plateia; soma-se a inteligência de todos ali e não se alcança a inteligência de Lula. Não se percebeu que não era piada, que Lula citou com a propriedade de quem de fato lê o jornalista que o qualificou como “apedeuta”. Lula não citaria os “blogueiros sujos” por saber que ninguém que não seja militante do PT e associados os leva a sério.

Há gente que se entende como inimiga do sistema de Poder do PT que entendeu a citação de Lula como um elogio ao jornalista por este ter, pelo que entendem, “se vendido ao PT”. Quem pensa assim é ainda mais equivocado que os gargalhadores da entrevista coletiva. Fosse Reinaldo Azevedo tomado pelos petistas como um convertido, Lula não o teria citado como exemplo de rigor (afinal um simpático ao PT criticar a acusação contra Lula não teria qualquer mérito), e seu público não teria percebido a citação como piada.

Lula ofereceu ali uma lição: havendo um adversário de peso, deve-se prestar atenção nele. Deve-se ler com mais assiduidade um oponente que um correligionário.

Com frequência noto nos autoproclamados “direitistas” filtro ideológico para seleção de leituras ainda mais rigoroso que o existente entre esquerdistas.

“Eu, ler Fulano? Não perco meu tempo lendo lixo. Se sei que é lixo…”

Tentativas de argumentação que mencionem a necessidade de se conhecer o adversário são recebidas com o desprezo de quem abomina quem se rende “à lógica do Inimigo”.

Nada se aprende quando não se deseja aprender, e esta gente não se julga necessitada de aprender. Talvez um retorno ultra potencializado do PT seja o preço por esta escolha. Talvez isto possa enfim ensinar, embora eu não acredite.

Boas festas

Que os leitores do blog comam e bebam com as pessoas queridas. Que sobre espaço entre os bocados de prazer para as reflexões que a data sugere, faço votos. Feliz Natal!

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