“Notas”- 31/12/2017

MDB

Não tenho idade para lembrar da sigla MDB gritada nos muros. Não compareci às urnas onde a sigla competia com a sigla ARENA, mas ainda assim tomo a ideia do PMDB de voltar a assinar seu nome como antes de 1980 como um insulto ao seu passado.

O PMDB resignado com seu papel de governista desde Itamar Franco não tem muita semelhança com o MDB oposicionista (ainda que oposição combatida por diversos setores da Esquerda). O MDB da “Anticandidatura” de Ulysses Guimarães não reconheceria no PMDB de Michel Temer e grande elenco parentesco ainda que remoto. Ah, ao saber do retorno ao nome antigo a lembrança imediata foi a observação de Temer ao Jarbas Vasconcelos quando este criticava o governismo sem restrições do partido (durante o Governo Lula, se não estou enganado); incomodados com o partido não tinham por que continuar nele, lembram?

A porção peemedebista que apoiou o governo de José Sarney e tomava Ulysses como inoportuno e ranzinza, pouco (ou nada) comprometida com a campanha do antigo líder em 1989, já pareceria ao MDB um estranho, ou parente com o qual não falava nem em festas de fim de ano. O PMDB iniciava ali sua carreira de partido que prescindia das eleições majoritárias para o exercício do Poder. Eleito Fernando Collor, lideranças peemedebistas precisaram de cerca de dois anos apenas para obter influência decisiva no governo do vice-Presidente empossado Itamar Franco.

Deste episódio para o instante em que escrevo este texto, o PMDB negou com suas práticas o MDB: o objetivo é o Poder e suas decorrências, o resto sendo o eco de murmúrios de ressentidos. PT ou PSDB tendo mais pontos em contato (ambas agremiações representantes da casta acadêmica na política partidária) do que imaginam muitos, por que não participar dos seus respectivos governos?

O MDB retratado no livro “As 16 Derrotas Que Abalaram o Brasil” de Sebastião Nery é lembrança saudosa há muito; as eleições para o Legislativo de 1974 tiveram um MDB heroico, combatente sem expectativa maior que o exercício do combate, e a vitória que obteve em dezesseis estados foi seu prêmio. O MDB do Brasil que pouco ou nada conheceu do chamado “Milagre Econômico” (este livro deveria ser reeditado, retrato que é de um período que coleciona clichês jornalísticos sobre si) em seus estados distantes, em vilarejos dominados por coronéis arenistas, nas periferias das grandes concentrações urbanas.

Como outros devem ter tentado, tentei imaginar algum resíduo desta sigla no PMDB. O governo atual sepultou de vez estes devaneios. Penso que não sou o único a ter sido chamado à vigília; o PMDB nada manteve, nestes anos como governista, do seu ânimo de luta.

Por que então o apelo a um símbolo caro a muitos, mas um símbolo apenas? Símbolo de décadas atrás? Mesmo a bandeira rubro-negra do PMDB (anos ‘80) seria relíquia utilizada como paródia nestes dias de fragmentação do partido e de seu rompimento com o que poderia ser identificado como ideário mínimo do PMDB (uma social-democracia à brasileira, empírica e nacionalista). Lideranças acusadas de corrupção, adoção das fórmulas mágicas caras aos tecnocratas do PSDB; onde o MDB se reconheceria nesta síntese?

Vejo esta iniciativa não apenas como publicidade partidária das mais rotineiras, mas como uma despedida do PMDB de qualquer ambição maior que o Poder do momento atual; cargos e a posse do Poder institucional bastando, até que a volta do PT e/ou a cristalização do “Pós-PT” ditem os caminhos futuros do partido (onde ele se alojará neste projeto de Poder, digo).

Por que não um símbolo como consolo? Como alusão a um passado de combates e respeitabilidade? Uma sigla que empresta alguma dignidade a um corpo que se esfarela, após o gozo do Poder ao preço da perda da respeitabilidade (já que sempre exerceu neste governismo o papel de bode expiatório – escrevi no blog sobre isto, “PMDB, o culpado providencial”) ?

A sigla MDB é, no PMDB de hoje, uma bandeira sobre seu caixão.

“Vencemos!”

“Vencemos!” proclama José Dirceu, e gargalham em resposta os “formadores de opinião.”

“Como pode ser vencedor alguém que (ao que tudo indica) voltará à prisão em breve? Como um partido cujo líder máximo é dado como futuro ausente nas próximas eleições, submetido que está às incertezas de decisões judiciais, pode ser vencedor de qualquer coisa?”

Sim, José Dirceu pode terminar seus dias preso, e Lula também, e o PT sofrer alguns outros contratempos, mas Lula lidera nas pesquisas e o partido é menos odiado que precisaria ser para que se pudesse decretar seu fim. Menos odiado, quase amado, poderia se acrescentar.

Por que não seria?
O governo que se seguiu à sua derrubada do Poder institucional não é nada popular,e e seus apoiadores recebem desprezo merecido da população que desceu da efervescência pré-impeachment (durante a qual populares discutiam votos de Ministros do STF como discutissem futebol) à apatia que pode (e está sendo) ser convertida em nostalgia por um governo de aparência benévola. Não seria previsível este pesadelo?

Fui dos que previram que o impeachment cobraria o preço do renascimento do PT, um renascimento potencializado, ainda por cima. O sucessor de Dilma Rousseff teria o ônus das reformas que ela própria (como apoio de Lula, nunca demais lembrar) já havia anunciado como necessárias, sem qualquer apoio orgânico.

Reinaldo Azevedo aponta as simplificações de entusiastas da “Lava-Jato” como responsáveis pela provável volta do PT, mas estas simplificações também cantaram o impeachment de Dilma Rousseff como passagem obrigatória. Quando jornalistas reconhecerão que o impeachment foi um erro que cobrará caro?

O PT embora tenha encenado resistências, lançando slogans e palavras de ordem para consumo de militantes e simpatizantes, pouco se debateu sob o que qualificou como “Golpe”. A certeza de que o Poder seria reconquistado com facilidade, pois tomado por mãos nada estudiosas do Poder, não anima a resistir com força total, concordam?

Uns “escrachos” e artigos encomendados aos redatores de sites e blogs amigos bastam.

E otários que se tomam por sábios acreditaram que o PT vivia então seu velório quando o partido apenas estava em uma clínica de repouso e revitalização.

Hoje muitos se riem das mensagens de Dirceu e amigos.

Haverá risadas quando o pior acontecer?

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Desejo aos leitores do blog um Ano Novo produtivo. Feliz 2018!

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