“Notas”- 06/01/2018

Carlos Heitor Cony

“Você vai escrever sobre o Cony? Não sabia que ele morreu?”

Não, não sabia. Há algum tempo não vinha lendo nada dele, acreditava que seus problemas de saúde estivessem ditando um descanso. Estas figuras que acostumamos como certas (“Eles não vão nos faltar tão cedo”) sempre surpreendem quando morrem. Como estivessem condenadas à imortalidade física como pagamento justo pela imortalidade de suas obras. Nós – o público de grandes cineastas, pintores, atores, jornalistas, cantores e escritores- podemos morrer. Eles, não.

Como um homem da faixa dos quarenta anos, soube de Cony pelas páginas da “Manchete”. Minha avó paterna colecionava a revista, sua casa tinha pilha de revistas que ombreava com a geladeira. Iluminado por velas na sua cozinha, lia as matérias que mais tarde descobri que se qualificariam como “sensacionalistas” e dois colunistas: David Nasser e Carlos Heitor Cony. Estes dias da pré-adolescência me firmaram gostos. O homem é definido por preferências fixadas assim, me parece. Depois, nos justificamos. Ou tentamos.

Pouco mais tarde, já adolescente, li sobre o romancista Cony; o mesmo da revista escrevia livros, sim? E livros elogiados por intelectuais estudados na Universidade. Livros de crítica literária da biblioteca materna me apresentaram ao Cony que buscaria depois em sebos e bibliotecas: o autor de “O Ventre”, “Informação ao Crucificado”, “Tijolo de Segurança”, “Matéria de Memória”, “Balé Branco”, “Pessach”. Li e reli. Bibliotecas públicas de Juiz de Fora e Belo Horizonte tiveram um sócio por conta destes volumes editados pela “Ed.Civilização Brasileira”. Levava um após outro para leituras rápidas e releituras lentas, curtidas. Os que mais me pesaram na devolução: “Pilatos” (como o autor, considero este seu melhor livro), “A Verdade de Cada Dia” e o volume de contos “Sobre Todas as Coisas”. E escrevo a razão deste desejo de reter os volumes para mim (o que não fiz; devolvi os livros. Lamentando muito, mas devolvi):

“Pilatos” é todo ele irretocável.O desprezo do autor por qualquer sinal do que se convenciona considerar “bom gosto” e as perambulações do personagem principal pelo Rio de Janeiro dos bairros distantes impressiona ainda hoje. A “Pensão Gonçalves” (e seu proprietário que não é “o Gonçalves, mas o Fernandes”) sempre imagino quando lembro do Rio de Janeiro. As narrativas dentro da narrativa e as descrições de eventos ora grotescos, ora assustadores; personagens como O Grande Arquimandrita e Dos Passos; tudo convida reler este livro desaconselhável aos delicados.

“A Verdade…” é um livretinho delicioso; personagens como Marcelino de Jesus Caldas e o narrador resignado com os eventos que narra (de nada se queixa, com nada se assusta) parecem concentrar todo o universo da ficção conyana. Um Cony compacto.

Já o volume de contos demonstra que Cony foi subestimado, ou pouco louvado (o que vem a dar no mesmo) como contista. Há no livro pelo menos três grandes contribuições de Cony ao gênero: “O Defunto e Sua Circunstância” (se não me engano do título), “O Cavaleiro da Ordem Equestre” e o conto-título. Esta narrativa, de um padre de subúrbio que demonstra na sua prática o que entende por amar a Deus sobre todas as coisas, está entre os pontos altos de toda a obra de Cony. Que seja pouco citado, diz muito sobre a casta acadêmica; confrontada por uma obra forte e de difícil classificação, escolhe o silêncio.

Estes trabalhos de Cony dos quais os três parágrafos anteriores tratam me trouxeram o desejo de um dia conhecer o escritor. Graças a estes trabalhos, reli todos os livros de sua primeira fase (a segunda, iniciada com “Quase Memória”, acompanhei menos, confesso) e todas as entrevistas que pude ler e/ou assistir. Curti Cony graças a estes três livros como se curte um cantor ou um cineasta. Fixaram-se em mim como um modelo a seguir na literatura: o compromisso com a verdade que se pretende transmitir, indiferente ao bom mocismo e às preocupações com estômagos muito sensíveis. Aos incomodados com cenários e situações tidas por deprimentes, a dispensa da leitura.

Todo o Cony que me interessa está como que condensado nestes aspectos do seu trabalho; o que tantos outros louvam e acompanham, pouco me diz.

E a vida não me possibilitou qualquer contato com Cony. Morreu sem ser informado de minha admiração ou existência. Tudo bem.

Que diria ao escritor, afinal? Que estes três livros foram relidos sem cansaço? Que estas obras me fizeram desejar sua amizade? Que invejei seu círculo? Ora, este tipo de coisa ele deve ter ouvido até a saturação. Seria um chato a mais em sua vida. E não precisamos disso. O que se precisa é leitura e escrita; estas as maneiras de se fazer digno a um autor que admiramos, mais nada. Perguntar por inspirações ou motivações apenas cansa.

Imagino os papos no Além; as rodas de gente interessante só aumentam na proporção do aumento de nosso deserto: amigos de Cony como Paulo Francis e Antônio Maria, Nelson Rodrigues e Mário Filho, Joel Silveira e Otto Maria Carpeaux….imaginem estas rodinhas com a Eternidade como prazo, para eliminar saudades e conviver, hein? Aqui a mediocridade e a chatice se afiguram eternas. Com estas baixas talvez sejam mesmo.

Assino embaixo do desejo expresso pelo Renzo Mora no twitter: que Cony reveja Mila, sua cadelinha. Tenho certeza que a terá como guia e amiga na morada eterna. Merece.

Quanto a mim, lerei uma vez mais o que tenho dele em casa: seus livros de crônicas “O Ato e o Fato” e “Posto Seis”.

Promessas que pretendo não mais adiar: tentar adquirir nos sebos “A Verdade de Cada Dia”, “Sobre Todas As Coisas” e “Pilatos”; formar pastas com textos seus da “Manchete”para releituras periódicas.

É o que posso fazer, o que devo fazer.

2018 começa com este golpe, que ele inspire em vez de prostrar.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s