“Notas” -27/01/2018

Condenação de Lula – nada a comemorar

A condenação de Lula na segunda instância fez muitos correrem aos estoques de fogos de artifício:

“É o fim de linha p’resse cara”, “Este partido vai ter que fabricar, e rapidinho, outro vigarista para engabelar o povão”, “Deste traste estamos livres em 2018″.

Tudo tão simples, uma condenação em segunda instância, e pronto! Recursos com chance mínima de mudarem o quadro, e tchau!

Não vejo nada a comemorar; mesmo se Lula for preso (e há ainda outros processos a responder) e não puder mesmo ser candidato, o esquema de Poder que ele integra (e lidera, e inspira) continua de pé e robusto. Um hiato de quatro (ou mesmo oito) anos é quase nada na perspectiva histórica.

Como os petistas e associados estão esperneando e berrando ameaças, os mais inadvertidos acreditam que a cartada decisiva esteja sendo jogada agora. Mas não está. Há espaços ocupados (e defendidos com dedicação de quem sabe que o jogo do Poder reside em ocupar e defender posições na cidadela) em todo o Estado, mais Academia, mais mídia (com seus quadros recrutados na Academia), mais sindicatos e movimentos ditos sociais, etc, etc.

O que está sendo jogado agora é o jogo do símbolo – e este jogo quem tem condições de vencer é a parte que conta com um mártir. Não se trata de concordar ou não com o que escreve Reinaldo Azevedo sobre condenação de Lula sem provas, mas de saber que quaisquer imprecisões do processo serão contabilizadas e maximizadas para o Futuro. O jogo político não se encerra em 2018, e disto os petistas e associados sabem.

Que se faz para deter os que utilizam o processo (e condenação) de Lula como pretexto para insultar uma vez mais o Judiciário? Assiste-se lideranças associadas ao PT (quando não gente destacada do próprio PT) proferindo ultimatos, como se isto fosse mero exercício da liberdade de expressão. Todos os dias o site do Paulo Henrique Amorim incentiva reação violenta a qualquer sentença judicial que comprometa a candidatura Lula em 2018 e ninguém se anima a exigir explicações sobre qual “revolta” ele (Amorim) está a conclamar.

Tudo que se diz de mais violento sobre adversários e instituições tidas como inimigas se abriga no princípio da liberdade de expressão e não se percebe um questionamento mais enérgico sobre limites que pode haver deste direito. Muitos, como este blogueiro aqui, cuidam de não escrever algo que possa trazer problemas depois de se publicar, mas há os que contam com defensores numerosos, e se soltam bem mais ao escrever.

Não se trata apenas de contar com advogados, mas com público fiel e aguerrido. Com militância de internet. Os adversários do PT parecem acreditar que isto seja desnecessário. Os que pensam no assunto, claro. A maioria conta bocados de Poder em números de institutos de verificação de circulação ou de aferição de audiência.

Que adianta prender Lula se estes desembargadores estão sujeitos a serem alvos de “escrachos”? Que adianta remover o nome de Lula da lista de candidatos se anuncia-se sem medo ou inibição, período de desordem se isto vier mesmo a ocorrer? Onde a vitória se supostos derrotados se mostram em condições de tornar esta vitória nula em atos de confronto e desmoralização do Poder nominal?

O que escrevo sobre desmoralização do Poder – instituições, decisões judiciais, etc – é, na verdade, o objetivo a se alcançar com todos os protestos desde o impeachment de Dilma Rousseff. Quem nega que esta desmoralização esteja sendo bem sucedida?

Semana passada um destes “movimentos” invadiu a sede da Rede Globo sem temores de consequências. Já é rotineira esta natureza de protesto. Eles, estes militantes, podem tudo. Quando detidos, contam com legiões de advogados, e outros tantos militantes a fazer pressão.

Tanta dedicação à causa (ainda que vaga, imprecisa ou mesmo inexistente fora da lógica da conquista do Poder) não tem seu mérito? Pois há uma enorme vaga do lado oposto ao destes combatentes, não? Onde se oculta quem deveria denunciar lá fora esta ameaça às empresas de comunicação? Onde se pode encontrar algum “formador de opinião” com dignidade de se admitir ameaçado, amedrontado, assustado, acuado? Onde os críticos destas empresas (que têm muita culpa deste quadro, diga-se) que mesmo mantendo as críticas aponte o totalitarismo em marcha nestes protestos? Ah, Direitistas! Não hesitam em aplaudir ataques à Ed.Abril ou à Rede Globo certos de que a queda destas empresas trará algum benefício às suas bandeiras!

Pelas razões apontadas acima, vejo neste julgamento um drama humano, apenas. Não entrevejo nesta condenação qualquer avanço dos inimigos do PT ou recuo ou estrago considerável no território petista, parapetista ou pós-petista. Penso que muito da gritaria por parte destes líderes e militantes é teatro, manobra com vistas a encobrir um retorno já planejado. Escrevo sobre o que entendo ser o “Pós-PT” desde antes do impeachment de Dilma Rousseff, sem medo de estar enganado.

Emparedado Lula, que se faça dele um mártir, e se continue a avançar- esta a síntese do que percebo nestes movimentos relativos ao julgamento.

Este esquema de Poder sabe ter contra si gente apressada, ansiosa pelo fim da guerra, guerra que para simpatizantes e militantes deste esquema é combustível, razão de viver, meio de vida. Para os adversários, um contratempo, um pesadelo.

Há um aprendizado que exige, antes de qualquer outra coisa, honestidade de se admitir necessitado de aprender algo. Este aprendizado leva tempo e nada promete senão sucessão de esforços e humilhações. O aprendizado da luta política não se pode substituir por decisões judiciais ou ondas de aprovação ou desaprovação que, como ondas, não são confiáveis como arma. Um governo nocivo por si não cai se conta com oposição que julga a incompetência, ainda que associada à corrupção, suficiente para a derrubada deste. Isto é óbvio, ouço já o leitor. Mas obviedade de assimilação problemática por conta de quem deveria conhecê-la e divulgá-la: imprensa e classe política interessada. Há que haver uma militância permanente, um quadro de advogados voluntários (como a Esquerda possui) e uma imprensa que exerça pressão constante. A Direita (o amplo painel que compreende, sem rigor na categorização, os inimigos da Esquerda) no Brasil ainda não exibe este conjunto de ferramentas. A espera do “grande momento” é o que há.

Este “grande momento” que substitua união, organicidade, trabalho duro, não está neste julgamento, nesta condenação de Lula. Ainda que outros processos -e condenações- venham; este julgamento não é nem começo do fim do PT.

Talvez seja o início, pela manipulação da ideia do martírio de Lula, da celebração do “Pós-PT”. E este demorará a ser derrubado.

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