“Notas”- 03/02/2018

Conversa junto aos sebos do Maletta

“E aí, amigo Pawwlow? Tenho lido lá o seu blog. Apoiando Jair Bolsonaro, hein?”

“Não apoio ninguém; tenho pretensões de ser algo mais que um apoiador de candidaturas. Apenas escrevo sobre inimizades comuns ao candidato a e a mim, sem me acovardar, como muitos. Não ficaria surpreso se soubesse que muitos que riem, em público, do Bolsonaro, no íntimo torcem por eventual vitória dele.”

“Que inimigos comuns vocês possuem?”

“Não só a Esquerda linha PT e associados, mas liberais colonizados, e conservadores cheios de cuidados. Todo o arco que abriga sob si os devotos e/ou obedientes da casta acadêmica. Além da própria, claro.”

O encontro com este conhecido, que se diz leitor do blog, fora de iniciativa dele. A mensagem mencionava “uma(s) cervejinha(s)” e o endereço de alguns dos sebos que frequento desde adolescente, o Ed.Maletta. Frequento o local desde, ao que me lembro, onze anos. Ia com meu pai, assíduo dos bares e sebos. Muitos dos livros de minha biblioteca particular foram adquiridos naqueles sebos, e muitos da biblioteca deixada por meu pai, também. No Maletta, beber e visitar os sebos, ou visitar os sebos e beber; prazeres que observo como gêmeos idênticos, ou companheiros desde infância. Conversar sobre política, ou qualquer assunto que tenha parentesco com livros, com o que mora neles, hábito comum a muitos ali; conversas sobre paixões que não sejam filtradas pelo intelecto podem escolher outros tantos botecos da cidade.

“Quer dizer que você votaria no Bolsonaro não por gostar dele, mas por eliminação?”

“Bem, tenho votado assim há algumas eleições, ou você me toma, por um segundo que seja, como um tucano? Há campos opostos, e muito nítidos, às vezes. Esta eleição não é possível de interpretar senão como campo de batalhas de concepções de Mundo. Mesmo quem não subscreva opiniões de Bolsonaro, percebe que, ou vota-se nele, ou se submete à ditadura da casta acadêmica. Ou vota-se no inimigo dos professores universitários que defendem a criminalidade como elemento de convívio social a ser suportado com sorriso pelas vítimas, ou se declara um partidário desta tese. Não há como fugir, como empregar eufemismos.”

“Há sempre como escolher algo menos tosco, não? Você, Pawwlow, fala como os petistas que colocavam a eleição de Lula como um posicionamento inequívoco sobre a situação social no Brasil. Ou votava-se no PT, ou se tratava de um alienado patológico.”

“Em determinada época, a escolha tinha de fato esta fisionomia. Quem mencionava mazelas sociais com mais ênfase eram as candidaturas do PT. Quem menciona com ênfase o massacre da violência sobre o cidadão comum hoje é a candidatura Bolsonaro. Culpe os adversários do PT de outras eleições e de Bolsonaro agora, não a quem decide por escolhas que parecem mais urgentes. Há demandas, e quem as contempla tem vantagem neste jogo, não? Quanto a ser ‘tosco’, não preciso lembrar que eleições não são eventos aparentados com concursos de elegância. E fossem parentes, ainda que distantes, qual sutileza adversários do Bolsonaro andam exibindo, hein? ”

Por que não se pode entrar com copos e garrafas nos sebos de revistas e livros, ou na livraria do Júpiter, representante da ed.Zahar? O prazer seria completo. Que se beba com olhos voltados aos sebos e livraria, então!

“Você acha que ele fará bom governo, caso eleito?”

Meu interlocutor pontua a frase com três batidinhas do copo na mesa de plástico.

“Não sei, acredito que não. Há o aparelho do Estado, desenhado nas últimas décadas no feitio da planilha dos engenheiros sociais, a se moldar, na expectativa de eleitores simplistas, e portanto, apressados. Que recolherão o apoio assim que perceberem que ele como Presidente não poderá entregar toda a mercadoria prometida na eleição. Há ausência de redes de apoio que duvido sejam confeccionadas no tempo desejado. E sem estas redes de apoio, sem movimentos sociais não esquerdistas, Bolsonaro não terá como deter avanços de quem se organizou, e milita, há décadas…digo mais: houvesse esta rede política não institucional, Bolsonaro não precisaria sequer do cargo de Presidente. Sem ela, o cargo valerá quase nada.”

“Para que se candidatar então?”

“Também me pergunto isso, de onde surge este desejo por cargo que só oferece Poder a quem o possui antes de alcançá-lo. Talvez o desejo de reforçar, pela candidatura, alguns pontos de vista, e forçar debates sobre questões que a Imprensa, formada pela Academia, evita. A candidatura Bolsonaro talvez sirva como lembrete sobre a necessidade de se reformar a política brasileira com quadros preparados para a luta política em nível mais profundo, não apenas institucional e eleitoral. Um quadro intelectual, homens que estudam a mentalidade brasileira e os problemas a se enfrentar de acordo com esta mentalidade.”

“Isso me lembra o que você, Pawwlow, me dizia sobre a ‘classe política’, tal como descrita pelo Gaetano Mosca”.

“E isto, por sua vez, me lembra de ir naquele sebo ali da frente perguntar se o livro do Mosca que procurei outro dia chegou”.

Levaríamos, se isto fosse permitido, a cerveja e os copos para o sebo na conversa que duraria horas. A conversa não durou tantas horas assim, e tratamos de terminar a cerveja antes de irmos ao sebo (que não, não tinha ainda o livro do Mosca).

Para mim, o Maletta foi, é, e será assim.

“Philosopho”, o blog do Eduardo Almeida Reis

Perguntando ao Google pelo autor dos livros que releio sem cansaço, sou apresentado ao seu blog. Parece que existe desde 2016. Começar pelos textos mais recentes e alcançar as páginas iniciais, viagem que me presenteou com horas de prazer (claro que algumas postagens, reli, rindo). O estilo, a irreverência, a coragem; tudo que faz de Eduardo Almeida Reis uma de minhas admirações desde que o li, já há quase quinze anos, nas páginas dos jornais de Belo Horizonte. Os livros que li, e tenho, e releio, repito, sem cansaço.

A Internet, tirando o “YouTube” e sites (acadêmicos ou não) de consulta, é deserto apavorante. Textos com clichês acima da cota aceitável para olhos sensíveis, com simplificações que estupidificam leitores à semelhança de quem os escreve, me tornam irritadiço, e desertor frequente de blogs e sites. Cada dia um item é riscado do meu itinerário na internet, e poucos alojo entre os favoritos.

“Philosopho” do Eduardo Almeida Reis é um destes poucos. Adquiriu, por seus méritos indiscutíveis a quem quer que tenha gosto para prosa envolvente e com personalidade, a fidelidade deste internauta sem paciência.

Recomendo.

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