“Notas” – 15/03/2018

“Apenas desperdícios, nada mais”

Antônio Carlos Magalhães, em diversas entrevistas, identificou a “falta do sentido de gravidade” em situações sem dúvida graves; “fala-se milhões como se fala de centavos”, em um exemplo do político baiano.

Nada é grave, e nada exige medidas radicais; remendos de ocasião e cuidados de não melindrar tabus é o que se apresenta nos momentos em que as feridas por curar doem.

Que é um arrastão na praia durante o Carnaval em uma cidade onde há não muitos anos uma criança foi arrastada pelo cinto de segurança? O então Presidente Lula recomendou que não se discutisse mudanças no Código Penal “sob a emoção do momento”, ou estou enganado? Aquela monstruosidade não comoveu legisladores sob a emoção daquele momento e em nenhum outro mais. Para não se dizer que o crime caiu no esquecimento, uma ONG se esforçou para salvar um dos autores do crime.

Quando se lembra deste acontecimento e/ ou de qualquer outro crime que se imagina exemplo de que as leis não servem à realidade, professores universitários e jornalistas formados por eles berram: “Não apele para sensacionalismo!”

E são obedecidos.

Nada serve como pretexto para uma intervenção se uma criança arrastada pelo cinto de segurança não serve. Pessoas assaltadas nas filas de postos de saúde também não inspiraram medidas radicais. E inúmeros latrocínios também não. Por que logo um arrastão rotineiro serviria como o ponto diante do qual só gestos dramáticos são resposta?

Todos estes crimes inspirariam em classe política pacotes de leis severas e não o envio de tropas a uma cidade que, apesar de violenta e cenário de crimes traumatizantes, não é a mais necessitada de atenção. Não é a única. O Brasil berra por socorro aos que discutem pormenores e teorias de café.

O assassinato da vereadora do PSOL, Marielle Franco é algo, sim, dramático, e as esquerdas estão sabendo, com toda a razão, extrair da tragédia o tal sentido de dramaticidade. Por que não se aprende com quem sabe fazer política, quem domina os símbolos e sabe prantear os seus? Esta oportunidade de aprendizado está sendo desperdiçada em tentativas de atacar a Esquerda (e a vítima do assassinato), tentativas que só servem à Esquerda. Dizer que a vítima defendia políticas que ajudavam a criminalidade não serve à luta por leis mais justas para com as vítimas, penso. Vítimas de crimes são vítimas de crime e isto deveria bastar.

Poderia se discutir mudanças nas leis tomando este crime por base, mas se desperdiça mais esta oportunidade, e deste desperdício não se pode acusar a Esquerda. Ela está usando este assassinato para reiterar seu discurso.

Mas o que não tem sido desperdício de uns tempos para cá, no Brasil?

O impeachment de um governo impopular foi um desperdício, e dele vieram tantos outros mais, filhos deste. Desperdícios que foram precedidos por inúmeras sessões de masturbação coletiva, vulgo “hangouts”. Alguns companheiros de credo se entregando às discussões que não contemplam a possibilidade das coisas tomarem rumo diferente do imaginado por quem julga a vida uma prolongação da vida interior apenas. “Não vamos contar com o imponderável”. Escrevi sobre o que penso destes hangouts no texto publicado em 27/10/2014.

Apenas desperdícios, nada mais.

Discussões que não partem dos exemplos concretos que ilustram as teorias, mas de declamações de princípios liberais (ou conservadores, tanto faz, quando se combate a Esquerda, tudo se anula por igual) que parecem imbatíveis aos que se deleitam com declamação de nomes de autores e correntes de pensamento.

Noto em muitos inimigos da Esquerda (refiro-me ao que presenciei no ambiente estudantil e ao que leio nas discussões de internet) o uso de expressões como “gramscismo”, “marxismo cultural”, “bolivarianismo” “fabianismo”, fora de lugar. O oponente na discussão percebe que quem recita estes lugares-comuns não os colheu da leitura de livros e sim de material mastigado com antecedência e divulgado por intelectuais que são, não raro, as únicas leituras destes combatentes improvisados… e material mastigado, e remastigado, não produz argumentos. Há que ler o básico que levará ao domínio destas terminologias, não apenas ao seu decoreba. Começar pelo começo. E também escrevi sobre isto, dando meu exemplo de autodidata que começou por material básico. Publiquei em 09/03/2017.

As discussões sobre violência que se pretendem aptas a combater o discurso da casta acadêmica devem ter esta base; leitura de material teórico num crescente que vai do básico do básico aos autores que a casta acadêmica (seja por professores, seja por jornalistas formados nas universidades) cita. A mera citação de crimes escabrosos e o testemunho das vítimas (sobretudo das famílias dos mortos, as vítimas por excelência destes massacres) não servem como armas; o domínio da teoria é de utilidade indiscutível.

Escrevi aí em cima sobre testemunhos das vítimas, não? Há um documentário com estes testemunhos. Pouco se falou dele (procurando por ele agora no google não encontrei, por não saber o título. Os leitores queiram perdoar). E isto serve como exemplo, ao menos para mim, que a defesa dos direitos das vítimas exige esforços ainda maiores. Exige que antagonistas do discurso acadêmico lutem para ocupar espaços na esfera dos formadores de opinião e que honrem esta possível conquista demonstrando preparo intelectual e disposição para enfrentar boicotes.

Ou será mais um desperdício. E ondas de sangue desprezam desperdícios.

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