“Notas”- 17/03/2018

A indignação do dia

Há quem se organize e colha o resultado da organização e há quem confia nos méritos e se dispensa dos deveres; os organizados ditam a palavra de ordem e os desorganizados murmuram contra. Simples.

A indignação do dia cabe, no momento, aos partidários da casta acadêmica e do partido que, ao menos por enquanto, vem substituindo o PT como seu braço político, o PSOL.

Não, não digo que não-simpatizantes da casta acadêmica e do PSOL não possam se indignar com o assassinato da vereadora do PSOL, Marielle Franco, mas a cena cabe ao partido e aos astros do esquerdismo que compartilham a ordem: “Não vamos deixar este crime ser apenas mais um”. Necessário utilizar a tragédia pessoal (considero familiares de vítimas as vítimas por excelência) como um instrumento retórico no esforço de consolidar, de vez, a agenda acadêmica sobre criminalidade. Muito mais que desmoralizar o que já nasceu desmoralizado (a intervenção federal e o próprio governo federal protagonizado por Michel Temer), este o objetivo maior dos comícios e manifestações sobre a morte da líder comunitária.

Mas penso que estes ativistas talvez estejam atacando o pote com afoiteza demasiada; a dramatização foi (está sendo) realizada com carga excessiva. Carregam no tom, não temem (nunca temeram, mas superam-se agora) exageros. Paulo Henrique Amorim posta vídeo onde texto de Mino Carta é lido ao som da Marcha Fúnebre, na explosão do kitsch que esvazia qualquer símbolo. “Para quê sutilezas? Não se trata de torneio de bom gosto”, parece dizer.

Caetano Veloso já anuncia show e não ficaria surpreso se informado que seu apartamento sedia o QG de manifestações e oficina de manifestos. Não foi assim no “Caso Amarildo”?

O que irrita a população abaixo da casta acadêmica é o silêncio sobre as vítimas “normais” da guerra brasileira, e não o pranto pela vereadora do PSOL. Estas estrelas do mundo dos espetáculos e do meio universitário são pessoas inteligentes e decerto sabem que este é o sentimento, mas prefere-se acrescentar esta indignação frente ao silêncio sobre as mortes comuns como mais um elemento da “cultura de ódio”.

Por que não aproveitariam isso também? A ordem, assim parece, é chupar desta fruta até o caroço, e mesmo o caroço; onde houver um pingo de sumo nos fios do caroço há que se aproveitar. As lágrimas e murmúrios de impotência da maioria devem ser tomados como ameaça. É o que se vê nas redes sociais; a militância vigilante.

Mas não se esperava que militantes de internet (sobretudo os tuiteiros de barbinha e óculos de armação colorida) enfrentassem o que vêm enfrentando: protestos contra o que se considera “indignação seletiva”. Cobranças por postagens sobre os dez anos da morte infame do menino João Hélio e sobre as dezenas de milhares de mortes anuais. Não adianta tentar desqualificar os autores dos comentários, recomendar leituras (acho graça de quem recomenda estudos nestas horas, em geral um papagaio de vocabulário restrito), gritar “Fascistas Não Passarão”; o sossego de quem despreza a dor de muitos parece mesmo ter acabado.

Nem atrizes de TV tiveram paz para postar textos e imagens de tela preta e hashtags; seguidores de instagram destas estrelas televisivas apontam o silêncio sobre a morte de gente comum e o que se considera mero exercício de modismo. Talvez alguns destes comentaristas estejam sendo muito severos e não compreendam que, ou estas celebridades acatam a ordem do dia ou serão podadas das rodas chiques e da escalação de novelas e campanhas institucionais. Quem se atreve a ser o primeiro a cessar o aplauso ao tirano, afinal? Claro que não estou na mente destas musas da TV e, portanto, não posso afirmar que o temor de represálias seja o motor destas postagens, mas assino embaixo dos comentaristas sobre o critério do luto.

Outra finalidade desta encenação pós -assassinato: atacar Jair Bolsonaro.

Afinal, por que não? O sujeito não vem crescendo nas pesquisas? Não são simpatizantes seus muitos dos que ousam desafinar o coro fúnebre do momento? Os tuiteiros de barbicha, óculos coloridos e sabedoria de praça de alimentação de shopping center já responsabilizam seus eleitores e simpatizantes pelo assassinato. Claro que escrevem para meia dúzia de cinco leitores, mas há sempre os tuiteiros de público algo maior que os retuítam para demonstrar à Esquerda que, embora discordando do seu ideário, não são reacionários; um exercício de covardia, enfim.

Helio Fernandes, tema de alguns dos meus textos e admiração desde os dias de minha adolescência, não deixou de aproveitar seu texto na última Quinta-Feira, dia 15, para uma vez mais, atacar Jair Bolsonaro. Direito do mais antigo jornalista brasileiro (talvez do Mundo) em atividade não gostar do candidato à Presidência, mas escrever que Bolsonaro teria dito que a vereadora “tinha que morrer mesmo” sem antes checar a veracidade da informação, atenta contra sua credibilidade. Talvez a coluna de Domingo, dia 18, saia com retratação sua, pois um comentarista protestou. Decerto o fará, pois homem decente.

(Mas nem todo aquele que utiliza a internet é decente; ou Bolsonaro cria, ou fortalece, um braço jurídico na internet, ou pode desistir da candidatura. O ritmo dos ataques a ele não diminui, só aumenta. Deter o avanço dos boateiros de internet exige uma equipe por capital do País, com militantes virtuais e advogados. “Como processar cada tuiteiro com cara de pré-adolescente com barba falsa e óclinhos de armação colorida?” Processando os já famosos que os retuítam já ajudaria dissuadir, não? Ou isso, ou é melhor desistir da próxima eleição, fundar uma ONG, criar um site de Direita, esperar mais umas três eleições, etc)

Que a indignação do dia seja pelo assassinato de Marielle Franco. Que façam shows com Caetano Veloso e sua turma, e que álbum luxuoso das manifestações com fotos de Ana Carolina Fernandes seja lançado. Tudo bem. O Brasil não perde nada com isto.

Mas que não se esqueçam dos incendiados vivos em ônibus, dos pacientes assaltados nas filas de postos de saúde, dos assassinados nas frentes dos filhos em assaltos, do martírio do menino João Hélio, das dezenas de milhares de mortes violentas por ano.

O silêncio quanto ao conjunto destas dores é uma cusparada na alma dos brasileiros.
Isto não se perdoa, não será mais tolerado.

“Basta!”

Este o berro na internet destes últimos dias.

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