“Notas”- 24/03/2018

Sobre “as mesmas respostas”

“E a caravana de Lula pelo Sul, hein? O sujeito está sendo tocado como cachorro da igreja”.

Sim, Lula tem tido momentos desagradáveis. Mas não acredito que seu fã-clube tenha sido numeroso e atuante nestas localidades onde foi hostilizado. Apenas a coisa piorou. Hoje quem nunca gostou mesmo dele, e do PT, não ignora apenas, não se contenta em murmurar e fazer caretas. Vaia, insulta, promove espetáculo e posta na internet. Hoje o sentimento de aversão ao PT é menos silencioso, mas não arrisco dizer que cresceu. Quero ver ele sendo tocado de volta à aeronave no Nordeste.

“É um começo. Um dia esta população acorda. Você não acredita nisso?”

Esta preferência do eleitor que o PT cativou nestes anos iria então para qual corrente? Jair Bolsonaro? Ora, é preciso mais que o que ele vem apresentando. Por enquanto, a bandeira mais popular que Bolsonaro apresenta é a da punição aos bandidos, mas esta, aos acostumados com a violência, diz muito pouco. Anunciar privatizações e política econômica austera não converte as massas que temerão cortes de gastos.

“O STF… sempre decepcionando. Já tinha encomendado uns engradados de cerveja… você acompanhou a Sessão?”

Como não conto com a prisão de Lula como marco histórico (considero-a mesmo um desserviço ao que quero -a derrubada da casta acadêmica do Poder- e um troféu, um martírio para esta mesma casta) esta decisão, ou esta discussão, no Supremo me causa apenas tédio; que uma decisão judicial seja tomada como fato político em si me parece exemplo acabado da decadência das discussões públicas no País. Lula preso hoje ou amanhã não muda em nada o fato de que a Direita (o que é apontado como Direita por simpatizantes e militantes da esquerda, bem entendido) não tem plano B enquanto a Esquerda tem planos B, C, D…

“A Direita não precisa de planos B, Bolsonaro se mantém estável nas pesquisas e não corre riscos judiciais. ”

Correr riscos judiciais, quem não os corre, nos dias em que opiniões viram crimes (enquanto incitações à luta de raças é tida como exercício de liberdade de expressão)?

Bolsonaro não está livre de concorrer, ganhar (caso a candidatura Lula seja de fato inviável) e ser cassado por uma frase ridícula, ou alguém acredita que a Esquerda sossegará após uma possível vitória do inimigo? Sempre haverá movimentos organizados que exigirão que Bolsonaro, mesmo Presidente, “responda por sua homofobia”, ou “seja enfim punido por destilar ódio”, etc, etc. Ele, Bolsonaro, não criou uma rede de apoio como o que Lula criou para si. Tudo parece existir no universo da internet, apenas.

Como, insisto, acreditar em uma candidatura que se propõe a atacar o sistema se esta não conta com um partido próprio nem com um Instituto próprio, e não preciso escrever, não possui sequer sombra do que se poderia chamar de militância? Fernando Collor contava com um partido próprio, o PRN (que não sobreviveu à sua queda), mas à falta de uma militância e de um movimento organizado caiu cerca de dois anos depois de eleito. Simpatizantes de Bolsonaro não parecem ver nesta lacuna algo de grave, ou ao menos anormal.

“Bolsonaro AINDA (frisando bem a palavra e não raro erguendo o dedo para enfatizar), AINDA não tem isso, mas está se formando no Brasil algo do tipo em algumas cidades.”

Ainda não tem… ainda não fez… ainda não conta com….ainda … ainda… ainda… e já estamos quase em Abril; eleição a poucos meses e o que era para já existir há anos ainda por se concretizar. Esta a falha de visão que mais me irrita em alguns interlocutores. Esquecem (quando não ignoram) que à primeira eleição que participou, Lula já tinha seu partido (com militância formada e muito, muito bem organizada) há quase uma década e militava no meio sindical há cerca de duas. E ainda assim só conseguiu se eleger dali a três eleições. Algo em torno de doze anos após a primeira tentativa. Contando sempre com apoio do clero, da casta acadêmica e de artistas. Que Bolsonaro tem que se possa comparar a isto?

O Poder não admite improvisações e bravatas. O Poder toma como abuso, como liberdade não dada, comemorações antes que ele, Poder, se renda. Quando a Direita entenderá o que a Esquerda entende há décadas? Quando o hábito mental de negar dificuldades será abandonado pelo que tem de nocivo? Subestimar adversários, negando o reconhecimento das suas qualidades (ou habilidades) não ajuda ninguém, mas insiste-se neste padrão de pensamento. Perder tempo ainda não é percebido como pecado ou crime por muitos que se apresentam como lutadores, e não é nada além disso.

Não há nada a comemorar, mas os que não desejam outra coisa senão despertar do pesadelo (James Joyce manda lembranças), agarram-se a uma carreata com número reduzido de adesões ou a um vídeo de internet onde X ou Y “estraçalha” oponente em debates como sinais de que “a Hora chegou”. Estas pseudo vitórias parecem bastar aos que alegam falta de tempo para leituras e formação de grupos de estudo. Envios de vídeos pelas redes sociais são para a maioria o máximo de militância permitida.

Mas telefonam, enviam estes vídeos por celular e cobram respostas. Cobram mesmo textos no blog sobre o que enviaram. Respondo as mesmas perguntas com as mesmas respostas. E se queixam, me dizem nos encontros ou nos emails que estou repetitivo, que “não mudo o disco”, que estou “pessimista”, que “assim é fácil escrever”, etc, etc.

Há que mentir, que encenar entusiasmo. E não há como apresentar este sorriso quando tenho que concordar com os que satirizam os manifestantes de verde e amarelo; quando tenho que admitir alguma (quando não muita) razão no que escreve os jornalistas que desprezo; quando lembro que “formadores de opinião” que empurraram o Brasil para os braços revigorados do PT (ou do “Pós-PT” tanto faz) pelo erro do impeachment de uma Presidente já impopular, continuam sendo reverenciados. Perceber que a Direita apresenta como “novos nomes” medíocres que escrevem em Português de rede social é também perceber que a Esquerda não se recuperou tão depressa à toa; o nivelamento por baixo por parte dos desafiantes rejuvenesce o desafiado (este sim pode contar com tuiteiros de vocabulário limitado como as ideias) que verifica não estar sendo ameaçado para valer.

E querem textos diferentes, que eu “mude o disco”?

Passarei doravante a publicar alguns poemas e contos que acumulo na gaveta, pois apenas a ficção permite respostas diferentes às mesmas perguntas.

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