“Notas” – 07/04/2018

Sobre a prisão de Lula

Não há nada a comemorar; houve um cumprimento de um mandato ao fim de alguns anos, apenas. Mas a Direita solta foguetes, brinda com champanhe, promove concursos de piadas na internet. Nada aprenderam, e aprenderão algum dia?

O que foi entendido como um desafio (Lula se refugiar no sindicato, cercado de correligionários, acenando pela janela, sob um mandato de prisão), entendo como uma demonstração de Poder; cumpre-se determinação da Justiça como e quando se entender que deve, sustentado pela autoridade do cargo que se ocupou e na rede de apoiadores no Congresso, na Imprensa e na Academia.

“Que ele venha me prender aqui!”

Não se chegou a esta desmoralização em espaço de tempo que descuidados imaginam. Há a compreensão clara, por parte dos que militam neste esquema de Poder, do que é o mecanismo de forças na luta política: o Poder se alimenta de afirmações simbólicas de Poder. Prisões e outros contratempos são isto: contratempos. Havendo um processo, que se desmoralize os acusadores e se constranja os juízes. Havendo condenação, que se esvazie sua punição através da desmoralização do cumprimento do mandato. A cadeia será a mesma (sim, pode haver prejuízos na apreciação das penas por conta da desobediência, mas nada que apavore tanto) ao condenado dócil e ao condenado “que se rebela”, quando o condenado dispõe de Poder. Não aproveitar a oportunidade para mais um comício é, sob esta maneira de compreender o Mundo, um desperdício.

Houve ataques ao prédio onde mora a Chefe de um dos Três Poderes, e a gravidade disto é percebida como uma surpresa; “como chegou-se a isto?”. Mas não é surpresa: há uma militância pronta a promover “escrachos”, incentivada por sites ligados ao esquema de Poder do PT (e do “Pós-PT”), agindo há alguns anos sem que isto seja visto como escalada de um processo que levará a uma ditadura como a da Venezuela. Sites e blogs que incentivam estas violências são, quando processados, beneficiados por interpretação do direito da liberdade de expressão. A Ministra Carmen Lúcia tem sido alvos de violências verbais que antecederam o ataque ao seu prédio.

Por que mudar? Por que recuar?

Militantes empurram um adversário contra um caminhão despreocupados com a filmagem do ato. Por que se preocupariam, afinal? Quanto já não se filmou e fotografou das violências desta militância? O resultado desta vez chocou (como não chocaria a imagem de uma pessoa caída no asfalto com sangue vertendo de sua cabeça?), mas não foi a primeira vez que militantes confirmam o chamado de José Dirceu –  “Eles apanharão nas urnas e nas ruas”, lembram? – e exercitam assim o que entendem por Democracia.

A verdade é que se decretou esta prisão de Lula sem mecanismos de contenção de algo que se anunciava. Julgou-se desnecessário, ou (acredito ser o mais provável) não se pensou sobre isto. Há sempre jornalistas tomando ameaças (ainda que acompanhadas de atos de violência) como blefes. Há meses (ou anos?) Lula vinha ameaçando seus “inimigos” com o “Exército do Stédile” e sendo tomado como um boquirroto, um bravateador de botequim. Augusto Nunes, por exemplo, advertia para o perigo deste exército matar, mas pelo riso. Lembram?

Pois o exército de comediantes involuntários tem se mostrado, neste sábado em que escrevo, como escudo humano eficaz. Os “ursos ciclistas” (como Augusto Nunes definiu a militância de Esquerda quando esta agrediu Mário Covas, já doente, em um artigo antológico, na ocasião) estão se mostrando dispostos a promover banho de sangue caso desafiados no habitat. Não se ri, teme-se pelo que pode vir a acontecer caso resolvam recolher Lula preso de lá. Uma extração de dente de siso problemática é o que o Mundo assiste.

Mas este siso vinha apresentando suas dores não era de hoje.

Quando Lula no depoimento ao juiz Sérgio Moro insinuou que a Polícia Federal plantara provas em sua casa o siso já dava sinais de que sua extração demandaria tempo e paciência.
Quando no mesmo depoimento Moro perguntou se Lula insistiria em desafiar o Judiciário em seus pronunciamentos aos militantes, Lula sorriu em resposta: “Não sei…”

Ambas ações tiveram resposta tímida (parece que policiais federais anunciaram processo a Lula, mas não se gritou o necessário, penso), e Lula percebeu que poderia continuar desafiando. Escrevi “poderia continuar?” Deveria continuar, na verdade. A militância precisava deste combustível e Lula e seus amigos jornalistas trataram de manter o fornecimento. E Poder se alimenta de Poder, e risadinhas de desprezo afetado não demovem militância quando seus líderes promovem o espetáculo da “resistência”, da “desobediência civil”. “Ele prega para convertidos, he he”, escrevem e falam os que desejam se convencer de que são ameaçados por seres inofensivos.

Sexta-Feira foi dia de protestos promovidos pelos apoiadores de Lula e BH não ficou de fora do circuito; o trânsito parado (em dia difícil, de hábito), e a Pça Sete tomada por caminhão de som e comitivas de manifestantes (muitos importados de outras regiões do estado). Berros de “Golpiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiistaaaaaaaas!” “Fasciiiiiiiiiiiistas!” pontuavam discurso nos quais se repetiam todas as acusações à “Operação Lava-Jato” e ao juiz Sérgio Moro (a mais repetida era de que o juiz é “um instrumento dos Estados Unidos”, “preparado pela CIA”) encontradiças nos sites e blogs ligados ao PT e ao “Pós-PT”. As multidões nem olhavam para a Pça, buscando chegar aos pontos de ônibus. Isto, a indiferença dos populares, não desanimava estes combatentes, ao contrário. Parece que mais percebiam desprezo ou olhar de irritação, com mais vontade berravam.

Mas percebi também que havia os que, insatisfeitos com o atual Governo, demonstravam concordar com os ocupantes da Pça Sete. O discurso berrado pelos militantes vem encontrando brechas onde havia, nos dias anteriores ao impeachment, muralha intransponível.
No ônibus em que me encontrava, ouvi o cobrador narrar discussão que tivera na véspera: “Virei pro caboclo e disse: Você está estudando de graça e falando mal do Lula? Toma vergonha na cara, pobre antes dele e bosta eram a mesma coisa.” O motorista concordava com o colega e acrescentava: “O advogado do Lula vai recorrer na ONU”.

Lula quando diz (em atos ou palavras, não importa) “Me prende aqui no meio do Povo, vem!”, sabe que fala para multidão que acredita ter sido ele um estadista. A imprensa foi incompetente (e desinteressada) em demonstrar que o PT é mistificação apenas, e que os pobres foram condenados a se perpetuar na pobreza, pelo nivelamento por baixo, pela destruição definitiva do ensino de qualidade, pela celebração do caciquismo definitivo.

Para esta multidão, Lula encena seu “Ato de Resistência” no ABC, e o prédio do Sindicato é hoje uma ilha de Poder, o Poder verdadeiro do dia.

Anunciam-se protestos violentos (estradas já tomadas pelo MST, falando nisso) e sabe-se lá o que pesará sobre o País nos próximos dias.

A cidadela foi tomada sem um tiro, graças ao sono tranquilo dos que hoje estouram champanhe e promovem concurso de piada na internet.

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