“Notas”- 14/04/2018

Sobre improvisações

“E agora, a companheira Fulana, da ‘Agricultura Familiar’. Veio da cidade X para fortalecer aqui a nossa luta por ‘Lula Livre’. Com a palavra, companheira Fulana.”

“Boa noite! Boa nooooooooooite, gente! Que ânimo é este?”

Manifestantes na Pça.Afonso Arinos ensaiam coro de resposta; à distância de onde eu os assistia, não pareciam ser muitos estes vigilantes da militância.

“Para um acusado ser condenado precisa o quê? O quê, gente?

(……..)

“Provas! Prooovas!”

“Eu posso ter convicção de que S.Jorge mora na Lua, mas a verdade é que eu nunca vi.”

Esta gente não improvisa; treina seus militantes e eles farão a versão, segundo a qual Deltan Dallagnol acusou sem provas e sim com convicção (a suposta declaração de Dallagnol funde uma frase sua e a de outro procurador, como prova reportagem do portal G1, publicada em 15/09/2016) se imortalizar.

A “Lava-Jato” estava preparada para estas distorções de seus feitos? A imprensa reforçou a verdade como deveria?

Tudo, ou o mais importante, no Brasil, se improvisa.

A luta política tem na mídia e nas ruas suas locações e palcos, mas há que se preparar os movimentos de cena nos ensaios; bastidores são 80% do que se assiste.

E prender Lula sem leis mais rigorosas aos que “escracham” juízes não teria sido uma improvisação? Freios legais aos movimentos ditos sociais não seriam exigência lógica frente a uma situação com potencial dramático, como a prisão de um ex-Presidente? Tudo que poderia acontecer de desastroso aconteceu. O que não aconteceu foi por precaução (tardia) dos que foram incumbidos da tarefa. Há meses alertava-se para contratempos que ocorreriam na prisão de Lula, e as previsões, surpresa! cumpriram-se.

Como levar a sério cursos de sedução que soltam seus alunos nas festas e boates, na “balada” para que eles abordem mulheres sem treinamento que inclua preparo físico e emocional para o desafio? Aulas de minicursos não eliminarão timidez e falhas de comunicação nos candidatos a sedutores. Não se trata de falhas de comunicação apenas, como muitos cursos “ensinam”. Há biografias, e estas exigem trabalho duro para conseguirem adaptação a determinadas situações. Mas não deixam de surgir (e prosperar) na internet estes cursos e instrutores. O desejo da saída mágica do labirinto é mais forte que a lógica, sempre.

Muitos já não levam a sério estes “sedutólogos”, mas ainda se leva sério cientistas políticos e jornalistas que não se mostram capazes de interpretar, e ainda mais, prever, situações concretas na Política. Para mim, não levar a sério aqueles e levar a sério estes é cisão mental.

Assim vejo muitos aspirantes a líderes e “formadores de opinião” no Brasil; para problemas construídos e fortificados em décadas, propõe-se alguma saída de improviso. Assim foi o impeachment, antes dele candidaturas mal -cozidas para enfrentar o PT. Tudo na base do “vamos expulsar estes caras, e o resto virá por si”. Subestimaram, estes profetas do jornalismo, todas as dificuldades previsíveis no enfrentamento a um Poder construído desde a base em militância nas mais diversas categorias profissionais e movimentos sociais. Tiveram pressa, e o que se conseguiu foi a permanência no Poder de quem perdeu os cargos institucionais. Não se examinou hipóteses, e eles, os militantes deste Poder, sempre contam com muitas hipóteses. Desde que mencionou a possibilidade de não existir a candidatura Lula, eles contam com outras hipóteses, embora sigam o script da “resistência”.

Eles, a turma do PT e siglas associadas, pensam em todas as alternativas, e seus adversários contam com qual alternativa caso a candidatura Jair Bolsonaro perca substância?

Perguntam-se como Bolsonaro conseguirá cumprir o que propõe agora como candidato?

Penso que, se ele não consegue (ou não tentou, ou não pensou nisso) criar grupos de pressão como líder político, como deputado, pouco poderá fazer quando amarrado pela faixa presidencial; o cargo de Presidente deixa pouco espaço para quem não tem Poder antes dele.

“Não se aprende pôquer em cassino”, frase do tipo foi dita por Frank Rosenthal em site no qual o falecido homem do jogo (personagem de Robert De Niro em “Cassino” de Martin Scorsese) respondia às perguntas de internautas (a maioria girava em torno das situações do filme; se eram verídicas, quem era quem, etc). A seção do cassino dedicada ao pôquer era, segundo Rosenthal, equivalente ao corredor da morte nas prisões: apenas os mais aptos sobreviviam. Não se aprende a jogar enfrentando, ali no ato, estas feras das mesas de pôquer. O aprendizado em outras instâncias é necessário, imprescindível.

A Política não é diferente do universo das pistas de dança para amadores da sedução e mesas de pôquer para aspirantes a jogadores profissionais; há que se criar militantes com paciência, sem qualquer pressa. Muita leitura, muita reunião, muita discussão teórica. A certeza de que o resultado independe das ações imediatas como companheira constante.

Nada de improvisações.

Foi assim que o Poder atual se criou, e considero loucura tentar enfrentá-lo sem estes predicados. E por isto também considero loucura depositar esperança demasiada em 2018.

2018 é uma data apenas, uma trincheira de tempo a cumprir. Tenho certeza que o Poder atual pensa assim, e a quase certeza, resultante desta, de que eles ganharão esta batalha, ainda que as urnas digam o contrário.

“Não se aprende pôquer em cassino”.

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