“Notas” – 21/04/2018

“Tá tudo dominado…mesmo!”

MST “ocupando” uma sede regional da Rede Globo e uma propriedade rural de Oscar Maroni (o empresário havia realizado performance durante prisão de Lula) e uma senadora  pronunciando-se “ao mundo árabe” sobre a suposta condição de “preso político” de Lula; estas coisas não começam em uma semana.

“Movimentos sociais” agem sem qualquer investigação como se existissem acima das instituições há algum tempo (ou desde sempre?) sem que sejam incomodados com investigações ou advertências sobre limites. E não têm, portanto, razão para mudarem a política do “Avançar, sempre avançar”. Política de intimidação quando funciona, continua até a rendição total do inimigo.

A senadora Gleisi Hoffmann dirigir-se ao “mundo árabe” pela Al-Jazeera (rede do Qatar) é apenas mais uma das ações do PT desmontando a autoridade das instituições, mais nada. Ou alguém imagina que estados árabes responderão ao seu convite?

Tudo no Brasil ganha gravidade com efeito retardado; ameaças se percebem como ameaças quando já não mais o são. O que escandalizaria qualquer país com limites, aqui toma-se por excentricidade, tema de piadistas de internet.

Quando logo após seu impeachment, Dilma Rousseff saiu pelo mundo denunciando o “golpe”, não teve contra si resposta dura das instituições que protagonizaram seu processo. Manifestantes constrangeram o presidente no estrangeiro em diversas ocasiões e isto não foi tomado como algo grave; a liberdade de expressão deve ter limites (limites que são sempre invocados quando o sistema do PT é atacado) e o ataque frontal às pessoas em geral e às autoridades em particular me parece ser um limite nítido entre manifestação de pensamento e desrespeito. Mas esta é questão que foi deixada para depois. Qual depois?

E por isto uma declaração de uma senadora ao estrangeiro atacando juízes e o Congresso do qual faz parte não é recebida como o que é:uma declaração de ruptura com instituições. No lugar disso, procura-se gravidade no fato do pronunciamento ser dirigido a uma abstração conhecida como “mundo árabe”. Toma-se o pronunciamento como um convite ao “Estado Islâmico”, e a Esquerda, claro, aproveita mais uma oportunidade de retratar a Direita como um acampamento de imbecis.

Houvesse interesse nas questões envolvendo o referido “mundo árabe” por parte desta Direita seria até fácil ridicularizar o “chamado” da senadora; há mundos árabes, esta é a verdade. Quem acompanha o trabalho do jornalista Pepe Escobar sabe que a fragmentação e as dissensões são a constante no grande jogo da geopolítica do Oriente Médio. Certa vez, citei Pepe Escobar aqui no blog e pessoa que respeito protestou comigo. Ora, a Direita pode apoiar Israel mas deve alicerçar este apoio em dados, não? Esta obrigatoriedade do apoio a Israel por parte dominante da Direita acaba rendendo confusões grosseiras, pois o simpatizante dos Estados Unidos e de Israel acaba por concluir que “no final, tudo ali é árabe, tudo ali é terrorista”. A internet está repleta de comentaristas deste nível.

Eu tomo a liberdade de imaginar que este pronunciamento já foi feito de caso pensado: “dirigimo-nos ao ‘mundo árabe’ e a Direita cairá na armadilha, e reagirá com a histeria de costume, e ainda tiraremos belo sarro com a cara dos coxinhas. De quebra, faremos mais propaganda contra o Golpe e a prisão do nosso líder.”

Loucura imaginar este cálculo?

Eles conhecem o gado deles. Fosse para tomar providências contra esta propaganda anti- instituições brasileiras no exterior, algo já teria sido feito no imediato pós-impeachment. E não o foi, logo…

O mesmo digo das “ocupações de protesto”; a coisa já passou de qualquer limite de diálogo faz alguns anos. E tudo é recebido com o usual riso de superioridade de quem não admite temor diante da ousadia do inimigo. A postura de defesa fetal tentando passar por olhar por cima dos ombros. Quem não o percebe? Mesmo os “indiferentes”, os “superiores” que dão expediente no twitter são percebidos pela cúpula da Esquerda – que entende, e muito, de Política – como covardes que tentam emular coragem “neutra”.

“Tá dominado! Tá tudo dominado! Quero ouvir vocês….”diz a canção.

Tá tudo dominado…mesmo!

Dominaram as universidades, a imprensa, a sociedade de espetáculos e parte do Poder Judiciário. Souberam utilizar meios de pressão e a paciência para construir muralha inexpugnável no médio prazo. Os que estão sob o jugo preferem negar o jugo, no mecanismo de negação que não engana sequer crianças.

A Esquerda superou duas ditaduras porque soube assimilar a derrota e desta assimilação extrair conhecimento. A Direita mal consegue um retalho de vitória e já encomenda banquete com champanhe e carregamento de foguetes. Considera estudo de teoria política algo a se deixar para um depois que se prorroga no Infinito. “Temos mais o que fazer”, o refrão destes apressados.

Quando se aprenderá que a “classe política” como descrita por Gaetano Mosca custa décadas ou mesmo séculos de maturação histórica para surgir? Basta ver o tanto de autores citados por ele que contribuíram para o que se considera ciência política e hoje são pouco ou nada lidos. Nomes fora do catálogo editorial há muitos anos. Pois é tudo um infinito de ideias e referências; uma caminhada que desanima os que nela se aventuram sem a noção de que ela é uma nova vida que se inicia. Não é possível entrar a sério na Política e alimentar outros interesses. Não há segundas prioridades, a Esquerda o sabe.

A Direita (ou os adversários desta Esquerda, catalogados como direitistas) só terá alguma possibilidade de combater (nem digo possibilidade de vitória) a Esquerda quando tornar-se algo diferente do que é. Algo mais próximo do combatente perpétuo que é todo esquerdista que se possa considerar como esquerdista.

Isto exige muito, e é sempre (quando se aceita esta necessidade, o que é também difícil) adiado para algum momento posterior a alguma vitória.E esta alguma vitória não virá sem o passo anterior. Há que haver a morte do que é vacilante e doentio nos que se consideram aptos a combater os que combatem há mais tempo.

Logo..”tá dominado, tá tudo dominado!”

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