“Notas”- 28/04/2018

Por que não sou intervencionista?

Por que não sou a favor da intervenção militar? Esta pergunta ouvi algumas vezes de colegas que acessam o blog.

Acaso esperaria algo do que responde, no Brasil, por classe política? Depositaria confiança absoluta nas decisões (cada vez mais imprevisíveis) do nosso Poder Judiciário? Seria um crente na capacidade de escolha da massa mal formada por imprensa desinteressada em formar leitores (e cidadãos)? Estaria confiante na capacidade de qualquer eleito em 2018 de governar o país dominado por frentes de pressão organizadas e agressivas?

Não, minha resposta é “NÃO” a todas as questões do parágrafo acima.

Isto, porém, não me coloca como refém da alternativa de hipotética intervenção militar; não consigo ver saída deste labirinto no médio prazo.

A Política no Brasil de hoje é exercício de paciência e determinação, e tal exercício impõe prazos dilatados; tudo se projeta para anos, décadas. Séculos, às vezes. Conheci militante petista que militara no MDB, ali por 1977,1978. A Esquerda, como movimento, não tem a pressa exibida por seus militantes. O que assistimos por estes dias são explosões calculadas que provocam nos direitistas (estes sim, apressados) confusão, medo e raiva. Esquerdistas experimentados não sentem estes humores, como sua militância juvenil.

Esquerda sabe ocupar espaços porque sabe passar por cima de pormenores teóricos quando estes se colocam no caminho ao Poder; a Direita mede cada cisco, não raro com auxílio de lupa, e seus grupetos viram microgrupetos que vão se anulando. Esquerda também tem seus grupetos, mas que funcionam como células. Compreendem a diferença?

Como venho insistindo, não se chegou ao domínio total da casta acadêmica através de sua militância em um final de semana; acontecimentos recentes como agressões e “escrachos” sob pretextos de ação “antifascista” são resultado de anos de omissão pela imprensa (autoridades agem sob pressões, sobretudo políticas). Omissão por desejo de aparentar indiferença superior ou por simpatia, que diferença faz?
Quando se tem a casa pichada, ou se é agredido com pauladas em um campus, a razão do silêncio de quem deveria denunciar o avanço do totalitarismo não importa. Importa?

E aí vem o desespero, a pressa em escapar do pesadelo; sacode-se o corpo e os olhos não abrem. E a vítima do tormento debate-se ainda mais…

“Que venham os militares de uma vez! Política provou, mas provou, que não expulsa esta comitiva demoníaca.”

Imaginam, estes desesperados, que militares são alguma espécie de corpo compacto, de unidade ideológica. Algo como um coletivo de super heróis. Nota-se que visualizam os generais presidentes ao clamar por intervenção.

Sempre pergunto:

“Acredita que 1964 começou em 1964? Leu algo sobre o ‘Tenentismo’ da década de ‘20? Acaso sabe que destes ‘Tenentes’ saiu parte considerável dos interventores de Getúlio Vargas? Acompanhou a trajetória destes homens pelos acontecimentos de ‘32, ’34, ’37, ’38, ‘42, ’45? Sabe da associação destes líderes militares com o que seria a UDN já no imediato Pós- Getúlio Vargas? Sabe como foi a ação deles nos acontecimentos de 1954?”

A maioria com a qual converso sabe disto (quando sabe) pouca coisa. E portanto não conhecem os personagens que ocupariam no Pós-1964 a galeria de retratos de Presidentes.

Recomendo sempre os livros de Hélio Silva, da série “O Ciclo de Vargas”.

Carlos Lacerda (na entrevista que seria sua última, posterior mesmo às do “Depoimento”, para a revista “Status”) criticou muito os livros “O Ciclo…”, pois neles via muita reprodução de documentos e pouca narrativa que costurasse estes documentos. Em alguns (dos que li) esta crítica procede. Mas ainda assim é leitura que interessados em História do Brasil não podem negligenciar. Os livros, publicados quando do lançamento pela “Ed.Civilização Brasileira”, foram relançados pela “L& PM” por ocasião dos 50 anos do suicídio de Vargas. Acredito, portanto, que nas livrarias e nos sebos, não sejam difíceis de encontrar. Um deles, o primeiro da série, recomendo muito: “Sangue na areia de Copacabana”. Nomes como Eduardo Gomes (herói da travessia dos “18 do Forte”) e Juarez Távora que aparecerão nos volumes seguintes, e na História do Brasil, aparecem já participando de revoltas. A reconstituição, no livro, das revoltas do Forte de Copacabana e da Escola Militar de Realengo emocionam, e causam indignação por não terem rendido (excelentes) filmes.

Neles, nos livros e acontecimentos, a oficialidade jovem era a renovação contra oficialidade acomodada. Hoje em dia haverá jovens oficiais dispostos a romper com coronéis e generais?

Oficialidade jovem poderá, acredito, ser cooptada por agentes hábeis que saberão vender a ela  ideologia socialista disfarçada de nacionalista. A China apresentada como modelo, assim como a Rússia. Civilizações de terra contra o “Atlantismo”; Aleksandr Dugin bem ministrado por gente acostumada a divulgar ideias. Escrevi (texto publicado em 30/06/2017) sobre vídeo do Paulo Henrique Amorim dirigido aos militares com mensagem do tipo. Como Augusto Nunes observou certa vez, Hugo Chávez era militar, da jovem oficialidade.

Do Hélio Silva é também necessário (sobretudo para quem pede intervenção) o volume “1964-Golpe ou Contragolpe”. Alguns dos personagens do “Ciclo de Vargas” estão lá, e a variedade de tipos e modos de pensar que povoavam a cúpula dos militares quando dos acontecimentos que vão da renúncia de Jânio Quadros à deposição de João Goulart.

Outra leitura que julgo “obrigatória” são os volumes “Os Militares no Poder “ do Carlos Castello Branco. Suas colunas diárias no “Jornal do Brasil” reunidas em livros, que cobrem o período militar, lançados pela “Ed. Nova Fronteira” nos anos ‘70, e relançados pela mesma editora nos anos recentes.

Há, claro, a série de livros do Elio Gaspari. Neles, qualquer ilusão sobre unidade do pensamento militar e previsibilidade destes movimentos não sobrevive; documentos, cartas, entrevistas. A biografia dos personagens mais importantes do período; o Mundo e o Brasil como palcos dos acontecimentos que nascem de iniciativas diversas e terminam também através de iniciativas diversas.

Livros, portanto, para embasar discussões, não faltam.

Mas há disposição para leitura e estudo entre os que sabem desfilar e berrar por avenidas desejando soluções instantâneas para problemas? Café instantâneo é difícil de apreciar.

Acredito na iniciativa dos que montam grupos de estudo, promovem lives na internet e constroem laços quando tudo adverte contra. Militam em movimentos sabendo que a jornada poderá se prolongar para tempo maior que o de suas vidas. Combatentes como Steh Papaiano (que me honrou com a publicação de meu último texto em sua página do Facebook) que combate nos fronts possíveis contra gente poderosa que milita nas escolas e na internet.

Pessoas que sabem que 2018 não é nem o começo.

Penso que as recomendações de leitura mais o que penso sobre “jovens oficiais nacionalistas” respondem à pergunta do título, não?

Agildo Ribeiro

Na madrugada de ontem para hoje, me perdi no “YouTube”; vídeos com trilhas sonoras de programas humorísticos (como “Linguinha”, com Chico Anysio). Trechos de alguns.

A Rede Globo produzia ótimos programas humorísticos, e novelas memoráveis, com o luxo de trilhas sonoras compostas para as produções. Hoje…nem comparo porque dói.

Lembrei do que escrevi por ocasião da morte do Chico Anysio, o crescimento voraz do deserto cultural brasileiro, o nivelamento por baixo se perpetuando por falta de paradigma por parte das vítimas deste processo (gerações presente e futuras).

Fui dormir sombrio, me recriminando por discutir às vezes contra quem critica saudosismo; desperdício de saliva e tempo.

Acordei com a notícia do morte do Agildo Ribeiro.

Caso você não consiga ver a ligação desta notícia com o resto desta nota, saiba que você é também vítima deste estrago todo.

Os que fomos crescendo gargalhando de suas participações em programas e nas entrevistas sabemos o que aconteceu ao Brasil hoje.

Não consigo nem rever, por hora, os vídeos do Agildo no “YouTube”.

Deserto voraz, avança sem descanso nem dó sobre um país miserável.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s