“Notas” – 05/05/2018

Sobre “decisões certas” e seus resultados

“Prestar bastante atenção nas decisões certas que dão resultados errados”. (José Luiz Magalhães Lins)

Decisões acertadas podem, quando isoladas de um conjunto de outras decisões e possibilidades, resultar em desastres.

Posso ouvir de onde escrevo o leitor:

“Decisões certas, nunca. Decisões que pareçam certas, talvez”.

O autor da frase, conhecedor do mundo dos negócios e da Política, decerto assistiu tomadas de decisão que seguiram todos os pressupostos da lógica convencional e resultaram no contrário do que intencionavam.

Há a presença do que se entende como imponderável, e mesmo o ponderável pode compreender fatores inexplorados no universo das hipóteses.

Um processo de impeachment mal planejado, por exemplo. Há que se considerar o que vem após a remoção do ocupante do cargo; a vida continua e as coisas podem não tomar o rumo imaginado por estrategistas improvisados. Foi assim com o impeachment da presidente Dilma Rousseff; quem imaginaria que se “fatiasse” sua punição? Dilma retirada da Presidência, sim, mas com direitos políticos intocados?

Era possível prever este desdobramento? Penso que não, mas era possível prever que algo se tentaria no sentido de atenuar a punição, uma vez que o processo de impeachment sofrera diversas manobras da bancada do então governo no sentido de retardar o julgamento.

A classe política preferiu não imaginar todas as hipóteses.

Mais do que a classe política (o que responde no Brasil por classe política, bem entendido) a classe jornalística também não deu trabalhos à imaginação.

A “decisão certa” bastaria. O resto, viria. O resto seria o resto.

O processo de afastamento não era decisão certa, me parece. Prolongar o processo até o limite máximo, sim. A situação, talvez inédita em países como o Brasil, de populares discutindo votos do Supremo Tribunal Federal como antes se discutia futebol, era algo a ser dilatado até as eleições.

Houve pressa, estimulada por analistas políticos improvisados, e pronto! o PT liderando pesquisas eleitorais. Acreditou-se na fantasia da “consequência lógica”:

“Dilma mandada de volta ao convívio familiar, e o Brasil por si encontra o rumo do crescimento. Não será possível a população aceitar demagogias depois dessa, ha! ha!”

A escolha de alguns eleitores é tomada quase sempre em leituras e discussões; mesmo os eleitores que são acusados de terem trocado o voto no PT por participação nos programas sociais discutem entre seus colegas de classe o voto, preconceito raso acreditar no contrário.

As pessoas votam querendo o melhor, e decidem esse “melhor” com base nas informações que recebem. Caso a imprensa dita de Oposição ao PT tivesse realizado reportagens desmontando a “narrativa” da “eliminação da pobreza”, apostando menos nos escândalos que acreditavam que derrubariam os presidentes do PT na semana seguinte, talvez muito voto tivesse migrado deste eleitorado rumo a candidaturas que oferecessem melhora real dos índices sócio – econômicos. O voto no PT foi, portanto, “decisão certa” por parte do seu eleitorado cativo.

Os membros da “casta acadêmica” decerto também acreditaram tomar a “decisão certa” ao votar nas candidaturas que sempre caminharam junto aos sindicatos que defenderam-na ao longo dos anos. Há espaços de Poder, e o PT não pode ser acusado de negligente neste particular. Ao contrário da Direita (ou ao que responde por Direita, sobretudo quando este rótulo vem como acusação), os integrantes do mecanismo do Poder do PT e associados são unidos e sabem que sem reuniões frequentes e apoio mútuo, o Poder tende a escapulir para mãos menos preguiçosas e soberbas. Constrói-se redes de apoio, de convívio. promove-se a fusão entre prazer e trabalho, militância e vida social, e mesmo sexual.

Sabem, os integrantes da “casta acadêmica” mais que quaisquer outros cidadãos, o que têm a perder caso um dia o Poder mude de mãos de forma irreversível. É a casta dominante no Brasil de hoje e este status justifica qualquer agressão a quem o ameaça. Fico assustado com a falta de cuidado de muitos que cutucam esta onça sem consciência do perigo. Gente que acredita participar de uma brincadeira ao lidar com material inflamável deveria ser impedida por alguma força maior de agir. Mas o que não falta nesta Direita de internet é gente estupida sendo promovida, e assim catástrofes são hipóteses prováveis no médio prazo.

Os simpatizantes de Jair Bolsonaro também acreditam tomar a “decisão certa”; eleitores ocasionais também. Bom, no meu caso farei o que me é possível. Tomarei a decisão menos violentadora sem ilusões, sem muito esperar dela. Não me acovardo, mas não visto a camiseta, compreendem?

Conheço a distância do que acredito e do que acredita a porção dominante do eleitorado de Jair Bolsonaro. Há valores diversos entre os eleitores ocasionais (como eu) e os valores de muitos dos que militam. Há inimizades comuns, certo, mas isto sustenta aliança? Há na “afinidade negativa” (como dizia Ortega Y Gasset, “afinidade negativa há entre dois homens que não se chamam João”) combustível para viagens curtas apenas. É o que penso, e o que a História demonstra diversas vezes.

A “decisão certa” pelos que votam em Bolsonaro pode dar no resultado pior possível; Bolsonaro eleito e empossado descobrirá que precisará contar com elementos de força ao seu lado para enfrentar os que tomam a simples possibilidade de alguém como ele ser eleito um insulto pessoal. Agora na candidatura já se percebe ser este o sentimento que trabalha sem pausa em muitos.

A “decisão certa” dá em resultados errados quando subestima-se a instabilidade do solo histórico. Mesmo no mundo dos negócios (território natural de quem formulou a reflexão tema deste texto), os elementos são por vezes menos nítidos e sólidos que parecem. Há que contabilizar, sempre, as perdas que virão mesmo com alguma vitória parcial. Há micro “decisões certas”, me parece, e cada uma traz em si o germe de alguma perda. O ponderável não pondera tudo, em suma. E o imponderável vem para derrubar.

Não se deve decidir então? Deixa-se a vida ditar-se a si, ao sabor dos ventos?

Não, a frase de Magalhães Lins não o recomenda. Recomenda “prestar bastante atenção”.

Mas prestar bastante atenção, seja no que for, é cuidado excessivo para muitos dos que tomam decisões no Brasil.

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