“Notas”- 12/05/2018

Sobre votar sem vestir a camiseta

“Pawwlow”, li seu texto; você não estaria tentando bancar o “isentão” quando escreve ‘não me acovardo, mas não visto a camiseta’ “? Um colega que lê este blog me perguntou por email (por que estes leitores que me conhecem não comentam no blog e só fazem sugestões e /ou críticas por email ou em algum encontro casual? Preferiria que discutissem aqui).

Alguém preocupado com juízo alheio não declara voto em Bolsonaro. Mais seguro distribuir piadas com simplificações idiotas dirigidas à Direita e à Esquerda, tomando o cuidado de concentrar a bateria mais naquela que nesta. Como muita gente faz no twitter: piadinhas sobre Lula e alguns militantes petistas e parapetistas mais grotescos e dezenas de posts desqualificando Jair Bolsonaro e seus eleitores. Bater no Donald Trump também é obrigatório. O sujeito se acredita inteligente, repetindo chavões, replicando twitteiros ilustres, todos com o devido uniforme- barbinha, óculos de armação colorida, talvez um piercing, quase certo uma tatuagem…

Não é meu caso. Não sou “isentão” ou cool.

Quem segue este blog pode mesmo reclamar de certa repetição temática: críticas aos formadores de opinião; considerações sobre a destruição dos espaços públicos em nome de políticas de higienização urbana; aversão declarada à casta acadêmica e seu domínio (no que costumo culpar os formadores de opinião não-alinhados com esta casta, pela preguiça em combatê-la, e à ausência de uma classe política digna do título) sobre a sociedade. E, em alguns textos minha fixação pelo massacre realizado pela criminalidade, com o auxílio de leis falhas e de casta acadêmica (sobretudo através de jornalistas formados) simpática aos delinquentes. Este blogue fez a escolha pela defesa das vítimas, em resumo.

O candidato que me parece o mais próximo do que venho escrevendo já há quase dez anos entre os candidatos competitivos em 2018 é Jair Bolsonaro. Os demais candidatos competitivos falam do Brasil como país que carece de reparos pontuais, apenas. Recriminam este ou aquele ponto que pareça a eles necessitado de cuidados na Economia ou da relação dos estados com a União. Tratam também do meio-ambiente e do papel do Brasil no contexto internacional. Talvez um comentário sobre o que pode ser aplicado em política educacional, parecendo considerar que a Educação no Brasil não seja, do nível básico ao universitário, um desastre só. E nenhuma palavra mais forte sobre a criminalidade.

O massacre de dezenas de milhares de pessoas por ano parece ser pormenor a ser tratado por algum especialista, algum destes “doutores em causas da violência” que dão expediente nos canais de TV por assinatura, sentadinhos em poltronas de vovó e declamando clichês sobre a “relação escolaridade-criminalidade”.

Como não percebem que Economia alguma pode sobreviver em país onde o comércio fecha suas portas cada vez mais cedo por temor de assaltos? Um mero carrinho de cachorro quente é investimento temerário; assaltantes recolhendo o faturamento de horas sentado em uma esquina desestimulam os mais corajosos. Bares encerram atividades pelo mesmo motivo.

Poderia escrever páginas e mais páginas de exemplos de atividade econômica que sucumbem, se rendem à realidade e desistem de pagar o imposto ao crime. Quase todos os dias ouço no ponto de ônibus narrativas de assaltos a trabalhadores no fim de um dia ingrato, de transporte coletivo lotado e jornada severa de trabalho. E o noticiário não permite que ninguém possa declarar-se ignorante: gente assaltada ao sair para o trabalho, ou nas filas de postos de saúde. Pais de família executados na frente dos filhos, professoras surradas por alunos, adolescentes assassinados nas salas de aula (e ainda falam em “políticas educacionais”, como se esta realidade permitisse política que não a polícia na escola).

Culpados? Armas de fogo e munição. Nunca delinquentes e leis feitas sob medida para a categoria profissional. Um único candidato defende propostas sobre isto, acertadas ou não, pouco importa. Bolsonaro demonstra empatia para com o sofrimento de milhões e isto basta.

A Esquerda não toma as dores das vítimas por razão que me parece óbvia: a casta acadêmica é pouco vítima neste processo. Não padece o que milhões padecem. Quando mencionam-se estes dados, militantes (professores sobretudo), berram, acusando quem menciona este flagelo de “apelar”. E não entende a razão da massa se fascinar por Jair Bolsonaro. A Esquerda conta hoje com analistas políticos defeituosos, nada aparelhados para captar as pulsões da massa. Falam para iguais, restando-lhes o consolo de contar com o Poder. Ainda.

Não declarar o voto nele seria covardia, sim. E covardia inútil. Bobagem acreditar que o silêncio e a postura fetal livram alguém de ataques; não aplaudir o esquema de Poder do PT em todas as suas representações já basta para tornar uma pessoa rotulável como “coxinha”, “reaça”, “golpista”, e “fascista”.

Mas isto não me obriga a me associar com pessoas que tampouco desejam associação com gente como eu. Escrevo isto seguro, pois direitistas que entram neste blog pouco retornam. Não encontram o que esperavam e voltam para  páginas que repetem o que outras páginas de Direita oferecem: simplismo, citações colhidas em textos dos eruditos da Direita, apoio a Israel, conservadorismo comportamental, admoestações à vida boêmia, etc, etc, etc.

Não sou direitista como esperam, e sequer desconfiam que esquerdistas que conhecem o blog juram que sou um “reaça” como eles…

O que me deixa só, é o que me deixa livre, e não troco esta liberdade pelo conforto do bando. Que direitistas que escrevem “mimimi” e “chola mais” continuem liderando este segmento no Mercado. Mas não me cobrem, leitores de ocasião, coerência com o que não acredito e nunca escrevi. Que não exijam de mim o ingresso neste elenco de picadeiro, sim?

Combaterei o que combato no blog desde seus anos iniciais; aos interessados, o arquivo ao lado dos textos mostra quem sou.

Isto é que significa combater sem vestir a camiseta. Ou vestindo apenas a minha própria.

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