“Notas”- 26/05/2018

Sobre a “Greve dos Caminhoneiros”

“Dinheiro não tolera desaforo”.

Advertência antiga, quem não atenta a ela não raro assiste dinheiro fugir, escapulir, bater asas. O Dinheiro é caprichoso, ofende-se com pouca coisa.

E o Poder, tolera desaforo? O Poder obtém o que é inalcançável pelo dinheiro, muitas vezes. O endinheirado sem Poder uma hora tem a porta fechada para si, o poderoso quase nunca dá com o nariz roçando a porta. Endinheirados podem esperar horas na ante sala de algum poderoso, o contrário não se dá, ou o sujeito não é poderoso. Simples.

Mas no Brasil pratica-se desaforo com o Poder. Não é raro assistir casos de oportunidades desperdiçadas por capricho, ou por algum desleixo no cálculo.

“Quem conseguiu chegar até aqui….”

E o Poder ri, rancoroso; ofende-se com ameaças apenas imaginadas, não espera ouvir insultos. Não admite esbanjamentos de seu capital.

Apoiar um movimento justo, ou que aparente ser justo, mesmo que este seja impopular pelos problemas que causa não é esbanjar Poder? E persistir no apoio quando o movimento já está sendo visto por muitos como a pior catástrofe do ano (até agora) no Brasil ?

Caminhoneiros sofrem há décadas com impostos, combustíveis caros, violência nas viagens. Não é, nem de longe, vida fácil. O clichê “carregam o Brasil nas costas” é, em país que depende das rodovias para tudo, verdade condensada. E é natural que se manifestem, que tentem algum apelo com possibilidade dramática. Mas há quem veja neste desabafo arca de oportunidades. Apontam alguns jornalistas e autoridades para provável “locaute”. Botijões de gás estão sendo vendidos ao gosto do comerciante, por exemplo.

Ouço relatos que há linhas de ônibus que, na sexta-feira, em Belo Horizonte, fizeram o chamado “Horário de Domingo”, no qual algumas linhas de ônibus vão até certo ponto e dele, o passageiro deve buscar outro ônibus. Aos domingos, ônibus que adota este sistema cobra cerca de metade da passagem. Me dizem que na Sexta-Feira cobraram o preço “de semana”. Teria se pretextado a escassez de combustível para esta malandragem.

Não sei se aconteceu mesmo, mas como há alguns anos linhas de ônibus promoveram locaute, no qual passageiros pagavam passagem e eram convidados a descer no meio da viagem (sem qualquer restituição do pagamento, claro), tendo a acreditar. Lembro deste episódio acontecido no início dos anos 2000 por ter sido uma das vítimas e ter assistido passageiros que protestavam contra este roubo com pedradas serem detidos pela Polícia Militar. Algum leitor de BH pode me confirmar.

Há um caos em andamento e setores da Direita, sobretudo apoiadores de Jair Bolsonaro, veem nele um fato político. Onde observadores de bom senso percebem um erro e um castigo à população, estes direitistas encontram palanque. Fazem “lives”, tiram “selfies”, postam mensagens nas redes sociais onde o simplismo encontra tradução gráfica nos erros mais primários do idioma. Parecem mesmo acreditar que esta crise arrebentará de vez a bolha de pus da crise política. Talvez arrebente mesmo, antes arrasando o Brasil.

As pessoas já se perguntam: “este Bolsonaro, além do discurso da segurança, traz o que sobre o Brasil? Não vê o país paralisado? Não foi avisado da falta de combustíveis em setores onde ele é nada menos que vital?”

Acredito que sua candidatura sairá debilitada deste episodio, mas pelo que noto entre o que acompanho das redes sociais seus apoiadores pensam o contrário. Deste descompasso entre bolsonaristas alucinados e a gente comum, surgirá o fosso que servirá à Esquerda que não hesitará em adotar alguns itens do discurso contra a criminalidade, quando enfim perceber que esta é a demanda número 1 do Brasil hoje.

Mas suspeito que a Esquerda nem precisará deste malabarismo. Com esta paralisação dos caminhoneiros (ou das empresas de transporte, tanto faz), a demanda Número 1 passou a ser o abastecimento. Segurança, neste caos, voltou a ser apenas uma preocupação entre outras.

E a Esquerda, mais preparada, e portanto, mais ágil nas respostas, já empresta solidariedade aos caminhoneiros sem aplaudir a paralisação. A Esquerda, nos seus setores menos boçais e populistas, sabe que é possível ser simpático aos caminhoneiros e apontar este movimento como daninho à população, e vem orientando apoios pontuais ao movimento, não adesão.

Soube se retirar do palco antes de se desmoralizar, já a Direita…vejam os discursos, e as expressões faciais, e o berro de “Foda-se se este país quebrar, se isto mandar estes canalhas para longe”, alheio ao desespero de milhões…

A Esquerda nunca aposta no caos, mesmo (ou sobretudo) quando parece fazê-lo. Sabe que o caos costuma funcionar como um self service para as ratazanas, pois imprevisível e incontrolável. Junho de 2013 quando escapou das mãos da Esquerda tornou-se desinteressante, lembram?

A Direita embarca em aventuras sem mesmo imaginar o destino, essa a verdade. Foi assim com o impeachment e a entrega do Brasil a um governo fraco; terraplanando e asfaltando a via de retorno da Esquerda ao Poder. Ter escrito sobre isto na ocasião aqui no blog não me serve de consolo; previsão até fácil, e que eu preferiria falha.

Esta adesão ao movimento dos caminhoneiros por parte de Jair Bolsonaro e de seus apoiadores (não duvido que muitos destes primários de redes sociais e de movimentos sejam tomados como conselheiros) é um desaforo ao Poder.

Continuando o desabastecimento e a paralisação dos serviços, a conta deste desaforo será apresentada em Outubro.

Sobre Alberto Dines

Primeira vez que soube de Alberto Dines foi em uma participação do jornalista e escritor em uma edição do “Sem Censura”. Lançava ali, naquele início de década de ‘90, o livro “Vínculos de Fogo”.  Li sobre o livro e o autor em seguida, nas matérias dedicadas ao lançamento, e não o perdi mais de vista. Assisti a muitas edições do seu “Observatório da Imprensa”. Textos seus na revista “Status” (números comprados nos sebos) li e reli.

Seu livro sobre a imprensa é obra que recomendo, mesmo se não concordo com sua defesa da obrigatoriedade do diploma para jornalistas. É livro de alguém que conhece o ofício, e sabe expor o que conhece. Algo raro. Este livro tive a sorte de encontrar em uma biblioteca. Assim como encontrei em biblioteca o “Vínculos de Fogo”, mas não aproveitei a oportunidade, adiando a leitura de um livro que, pelas páginas iniciais, prometia ser valioso.

Comum este tipo de adiamento que se revela perda difícil de reverter; “Vínculos de Fogo” não mais me surgiu assim, fácil. O livro sobre Stefan Zweig também não li, mas dele não carrego remorso, nunca o tive à mão.

Tesouros de Dines, como as edições especiais do “Observatório”, com Millôr Fernandes e Ivan Lessa, estão disponíveis no “YouTube”, e aconselho aos leitores:vejam e revejam.

Falando em tesouro contido em programa de TV comandado pelo Alberto Dines: entrevista (da qual foi co-autor o jornalista Ancelmo Gois) com Helio Fernandes. Há no “YouTube” o que consta como parte apenas do material.

(Escrevi sobre a entrevista, por ocasião do lançamento, aqui no blog).

Helio Fernandes e Alberto Dines trocaram palavras amargas há alguns anos (algo fácil de encontrar na internet) e no entanto Dines cumpriu sua missão como historiador do jornalismo ao entrevistar o mais antigo jornalista em atividade no Brasil (talvez do Mundo), Helio Fernandes. Na falta de um livro de entrevistas como o “Depoimento” de Carlos Lacerda, Helio Fernandes tem nesta entrevista um registro histórico da maior importância, talvez o documento definitivo.

Depoimento? Alberto Dines em uma autobiografia foi um sonho que meu que publiquei no blog (24/03/2017); quanto ele teria a contar sobre suas décadas de jornalismo; quantos assassinatos de órgãos de comunicação por seus proprietários (ou herdeiros) presenciou.

Alberto Dines, por sua cultura, talento e senso histórico, parece ser insubstituível, ou difícil de ser nivelado, no médio prazo. Pelo que noto nos jornalistas atuais (portadores do diploma que ele tanto defendeu), talvez seja mesmo.

 

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s