“Notas” – 19/08/2018

Sobre “Seis Alqueires e Uma Vaca” de Eduardo Almeida Reis

“Seis Alqueires e Uma Vaca” de Eduardo Almeida Reis não foi, segundo o autor, planejado para ser um livro de memórias. O gênero memorialístico, também segundo o autor, exige boa memória e biografia justificável, e sua memória seria falha e sua biografia, “plana, chã, rasteira”. Não sei da memória de Almeida Reis o bastante para confirmar ou contestar seu juízo sobre, e sua biografia…bem…

Eduardo Almeida Reis é cronista e autor de livros que superaram há décadas o limite setorial provável (assuntos agropecuários) pelo alcance obtido por seu texto com muito estilo e humor; dos últimos grandes, contemporâneo de outros grandes que o reconheceram, como David Nasser, que qualificou-o como “Gênio rural”. Uma carreira que justifica, sim, livro (s) de memórias.

As reminiscências do período (que vai do final da década de ‘60 até início dos anos ‘80) em que Almeida Reis viveu na região rural (e serrana) fluminense resultaram em um volume (lançado em 2011) denso e terno.

Que motiva um jornalista d’ “O Globo” e funcionário já com quinze anos de carreira do Banco do Brasil a trocar esta condição invejável por uma aventura – viver em uma fazenda sem luz e telefone – quando a cidade ainda não estava subjugada pelos criminosos e não era tão distante da propriedade rural? Almeida Reis conta que a cúpula d’ “O Globo” tentou dissuadi-lo da mudança (e abandono do jornal) citando o caso de David Nasser, dono de fazendas e morador do Rio de Janeiro.

Almeida Reis responde: o desejo de “queimar os navios”, remover pela raiz qualquer tentação de desistir. Mas por que queimar navios? Pelas filhas? Por estes dias, Almeida Reis só tinha uma…as outras duas vieram-lhe já nas fazendas (a fazenda inicial foi trocada, depois de alguns anos, pela fazenda vizinha).

Não sei se haverá um dia alguma resposta conclusiva, talvez o Destino…

As filhas são muito do que diverte no livro: bisnetas de Helena Morley aparecem ora lidando com filhotes de cão fila, uma anunciando deserção da casa com trouxinha atada a cabo de vassoura, outra desaparecendo para ser encontrada tempo depois chupando frutas no alto da árvore e abraçada adormecida aos bezerros no curral. Lembranças alegres (com o preço da saudade) de uma vida que serviu de alicerce biográfico a três adultas felizes e realizadas. E isto justifica e paga qualquer sacrifício.

Pois a vida rural exige sacrifícios: o ambiente a ser domado e a adaptação a um estilo de vida; uma outra vida, não mais um diletantismo.

Quando li “A Dieta Inteligente” imaginei a fazenda descrita por Almeida Reis como o que ela era por ocasião do livro: confortável, aconchegante, pois já “pronta”, terminada; mesmo quando em uma passagem o autor alude aos “buracos da estrada infame”, a fazenda me pareceu deliciosa. Impressão reforçada n “A Arte de Amolar o Boi” na passagem em que, ao final de um capítulo, Almeida Reis contempla a fazenda após um temporal vespertino – com o cheiro e a visão da flora e a fauna banhadas – e se pergunta o que seria das cidades se o campo fosse, além de tudo o que contemplava, lucrativo.

“Seis Alqueires e Uma Vaca” é , pois, o making of desta fazenda (falo do conjunto das fazendas adquiridas uma depois da outra, sim?) como retratada nos livros e crônicas: a lida com a “estrada infame”, as melhorias (depois de período de improvisações sobre as deficiências), o trato com os empregados rurais, os ditos “compadres”.

Os “compadres” são retratados nos livros sem paternalismo ou como instrumentos para efeito pitoresco; o domínio mínimo da linguagem necessária para a comunicação sendo um desafio a mais para o convertido à vida campestre: o português repleto de arcaísmos e corruptelas.

Almeida Reis é um combatente contra o “politicamente correto” e suas lembranças destes funcionários podem soar como cruéis, mas são sinceras e respeitosas. Como escrevi acima, não notei qualquer tentativa de diminuição das figuras humanas destes trabalhadores rurais para fins de humorismo fácil. Suas fraquezas e falhas são apresentadas no mesmo nível dos seus méritos de trabalhadores e seres de convívio íntimo, ainda que intimidade compulsória no período brabo da adaptação do autor e sua família às sedes das fazendas por reparar.

O livro me lembra o “São Bernardo” de Graciliano Ramos; A “Pau D’Alho” e a “Cantagalo” erguidas no esforço que mescla o conhecimento dos tratados agropecuários com o empirismo mais duro (nascido das emergências, quando as surpresas desagradáveis impõem soluções de imediato), o meio adverso, o diálogo com os circunstantes tendo que ser inventado- tudo narrado por um autor que conversa com o leitor sem reservas, numa carta extensa e sem concessões; o leitor escolhe ler ou não.

E é o Eduardo Almeida Reis já conhecido: as digressões, as lições sobre etimologia, as descrições de pormenores técnicos (o leitor que decida se lerá o texto sem compreender estes assuntos de saber especializado, ou apesar de não compreender, ou que se inteire do que o autor descreve). Confesso que leio estes trechos mais técnicos do texto de Almeida Reis driblando minha ignorância, tratando de desfrutar do seu feitio de conversa com o leitor. Desde as crônicas aos livros, tudo que li dele foi assim. E assim li e reli este volume.

O autor, como o Paulo Honório de Graciliano, é de franqueza que eu não me imagino; azar dos que se escandalizam nestes dias de leitores contaminados pelo policiamento mental, parece dizer o autor.

“Noite fechada, chuviscando, frio de zero grau – e o filho do retireiro pastoreando o gado (…) enrolado em três cobertores, eu acordava com os gritos, sentia um tiquinho de remorso e voltava a dormir, pensando que a vida é assim mesmo.”

As constatações tardias:

“Perdi anos e anos trabalhando em profissões que não me falavam à alma.”

Como não trabalhar em profissões que não falam à alma em país onde intelectuais que não pertençam às curriolas veem-se às voltas com a falta de dinheiro que os obriga a buscar sustento em áreas alheias às suas inclinações?

“No final da década de 60 prejudicou-me, e muito mais que o leitor possa imaginar, o fato de já não ser comunista. Quando rapazola, descontei 10% do salário do BB para o Partidão (…) ressalvados alguns idealistas (…) a comunada era constituída de um bando de racalcados, invejosos e alguns ladrões, como constatei no próprio BB. Em suma: gentinha da pior espécie, igualzinha ao que há de pior no capitalismo (…) durante o regime militar, nossas redações andavam inçadas de comunistas, que se protegiam e torpedeavam todos os que não rezavam por sua cartilha. Tal e qual acontecia na década de 90 e continua acontecendo com o patrulhamento comuno-petista. A mesma inveja, o mesmíssimo recalque (…)”

E o negócio acabou sendo a luta pela sobrevivência financeira como fazendeiro e dono de churrascaria (e posto de gasolina) de beira de estrada, lidando com freguesia que não raro comportava-se na linha de conduta que oscila entre a brutalidade e a delinquência.

Artigos pagos com permuta de anúncios em revistas agropecuárias e livros que receberam (quando receberam, o livro menciona caso em que a editora não podia mesmo pagar) alguns trocados, foram a realidade financeira, naqueles dias, de um autor já conhecido, pelo que nos conta Almeida Reis.

A vida é mesmo dura, trabalho em cima de trabalho, não importa o ofício, quando se toma a vida a sério:

“Produtor de leite e escritor não sabem o que é um período de férias. Mesmo quando estou sentado, olhando para ontem, não paro de trabalhar.”

As observações sobre ofícios dos mais variados preenchem o livro com constatações semelhantes: o que há, feitas as contas, é trabalho, trabalho e trabalho. E o autor na sua prosa onde o humor e a resignação aparecem próximos, pois frutos da mesma máquina de pensar. As pausas nos capítulos parecem obedecer ao ritmo de uma conversa que começou há décadas, nos primeiros livros (pois em livros anteriores estas pausas surgem) e artigos para a imprensa:

“Sinto que falta algo para concluir esse capítulo, mas não sei o que é. Vou dormir e volto amanhã de cuca fresca. Pronto; dormi e voltei (…)”

O final do livro, ao contrário do “São Bernardo” não deu em mortes: as filhas cresceram, seguiram a vida, o autor deixou para trás as fazendas que eram da sua mulher, após o fim do casamento; casamento é para o autor assunto que rende palavras como:

“(…) desquite cordial, pior forma de separação. Desquites e divórcios devem terminar em bordoada e acusações mútuas, ainda que não correspondam à verdade (…) quando o negócio termina cordialmente, fica parecendo filme iraniano, do qual a gente sai sem entender direito como terminou. O certo é que terminou , como também terminaram os Impérios Romano, Otomano e Inglês (…)

“Não vou dizer que tenha sido bom marido: todo marido é um canalha, em maior ou menor grau.”

Sobre escritores, Eduardo Almeida Reis escreve:

“ (..) sofro do mal de todo escritor: onfalocentrismo.Vivemos trancados em nossos mundos e temos nosso umbigo como centro do universo. (…) Se chego a comentar o egoísmo alheio é porque não há nada que mais nos aborreça do que encontrar nossos defeitos nos outros. O fanho goza o fanho, o agiota verbera o usuário, o larápio tem raiva do gatuno, o assassino critica o homicida (…)”

“O escritor é um cabotino vocacional.”

“ O autor é sempre o pior revisor dos seus livros.”

Eduardo Almeida Reis, neste “Seis Alqueires e Uma Vaca” deu aos seus leitores uma amostra do que poderá oferecer caso resolva escrever um ciclo memorialístico; livros que cubram o período de infância em um lar de gente culta no Rio de Janeiro dos anos ‘40, juventude (e das primeiras experiências com fazendas e no jornalismo), e do período da maturidade onde retornou ao espaço urbano (o Eduardo Almeida Reis das crônicas para jornais de Belo Horizonte, fase dos escritos reunidos na coletânea – deliciosa – “Burrice Emocional”), quando eu e muitos outros leitores fomos apresentados ao seu trabalho e à sua figura. Como “Seis Alqueires e Uma Vaca” cobriu bem sua fase rural (que vem a ser a de sua consolidação como autor e figura pública).

O jornalismo e a literatura ganhariam muito com estes livros, pois Eduardo Almeida Reis é um dos últimos gigantes.

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2 respostas para “Notas” – 19/08/2018

  1. Excelente resenha. Acompanho os escritos de Eduardo de Almeida Reis desde o início dos anos 80, e é certo que ele tem uma obra sólida, erudita sem ser pedante, e bem escrita, a ser divulgada e melhor entendida.

    • fernandopawlow disse:

      Muito obrigado.Leio-o desde fins da década de ’90 e não parei mais.É dos grandes do humor, pois não apenas “engraçadinho”, mas reflexivo, provocador, não-conformado.

      Que ele escreva mais uns tantos livros,espero.

      Abraço do Pawwlow

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