“Notas”- 26/08/2018

Reprise de uma nota

Não tenho o hábito de reprisar postagens do blog; mas há uma nota que publiquei em 16/09/2017 que passou sem maior atenção dos meus leitores, mesmo por ser uma segunda nota em uma postagem cuja nota primeira era um assunto que era então o tema de uns tantos blogueiros: a “mostra do Santander”.

Tenho conversado muito sobre este pequeno texto esquecido, e esquecido, repito, por meu erro em colocá-lo como o segundo. Na verdade, é uma lembrança recorrente, que me diz muito sobre a Política e suas vítimas; as pessoas da massa que são algarismos sem significado maior aos estrategistas da casta acadêmica. Milhões de vítimas das soluções para os males do Mundo nada dizem aos que sabem escalar a gigantesca montanha social negando virtudes que não possuem: conhecimento que custa muito conseguir, sentido de responsabilidade que seria acusador temível, etc, etc, etc

Minha avó materna não tinha paciência para discutir o que parecia-lhe dispensar discussões: vira com os próprios olhos o preço cobrado pelos “libertadores soviéticos da Polônia.” E tudo o que contivesse qualquer traço de esquerdismo era refutado com o gesto de estapear o vento, o gesto consagrado como a síntese gestual dos que não se permitem desperdiçar bocados de tempo com discussões.

Sob o efeito dos dias acumulados em anos, venho assimilando a mesma impaciência e o mesmo cacoete. Para esquerdistas fabricados pela casta acadêmica e direitistas que dispensam ler o mais mínimo indispensável para as batalhas políticas, estapeio o vento.

Aos que me procuram propondo discussões estúpidas, ou apenas ociosas, tapinha no vento é a resposta cada vez mais utilizada.

Podem rir, qualificar o gesto como “gesto de velho”.

Para explicar o que não precisa ser explicado, para legitimar discussões estúpidas, estou mesmo cada dia mais velho.

Quando o assunto é Polônia e seu período sob a União Soviética, o tapa no vento vem acompanhado de sugestão de leitura deste texto, desta nota publicada no 16/09/2017.

Mas decidi poupar estes interlocutores do trabalho de procurar o texto, sim? Abaixo vai a reprise da nota:

Um parêntese biográfico ideológico

Rua Guarani, centro de Belo Horizonte. Um dia de um ano do fim do Séc XX.

Minha avó materna, no Brasil desde 1949, me levava como auxiliar de compras pela vizinhança de seu apartamento na Av.Paraná. Quem conhece BH sabe o que esta vizinhança ainda tem (e naquele final de década de ‘90 tinha ainda mais) de fedorenta, atulhada de comércio de rua e calçadas deterioradas. Não é local para turismo, ou indicado para almas deprimidas; todo o conjunto de imagens que surge quando se menciona centro de cidade grande “necessitado de revitalização”.

E minhas queixas e lamentações sobre o Brasil compareceram à conversa entre avó e neto entre compra e outra; aqui uma extensão de fio elétrico, ali um tempero…

“O Brasil é atrasado, olha a brutalidade desta gente vinda do campo sem saber o que é uma cidade grande.”

“A tristeza do Brasil é sua herança colonial miserável”,

e outros tantos clichês que não se acanham da condição de clichês quando se contempla a feiura e a pobreza e não se consegue conter, fala-se e fala-se…

“Que você conhece de outros países? Só conhece o Brasil.”

“Sim, vó, mas você conhece a Polônia (sua terra natal), e outros países da Europa de passagem. Duvido que viver na Polônia do Pós-Guerra era tão ruim como se arrastar na miséria e atraso aqui do Brasil.”

“Você sabe o que é viver, de uma hora para a outra sob as leis de um país que não é o teu? A Polônia, no lugar dela onde eu vivia, passou a pertencer à União Soviética. Soldados russos entravam na minha casa procurando o que levar.”

Tentei argumentar sobre este ser um momento passageiro, de confusão histórica e mostrar o cenário que nos cercava ali, naquele momento de discussão entre a Paraná e a Guarani, com sacolas nas mãos.

Minha vó ensaiou narrar algo do que viu de muito perto, não de leituras de livros escritos por quem não passou nem do outro lado de uma fronteira, mas desistiu da discussão com jovem presunçoso, comunicando, com um gesto de estapear o vento, que a discussão acabava ali. O que não disse, a expressão vincada das lembranças deprimentes disse, e de sobra.

Voltamos ao apartamento minúsculo, em um edifício velho de décadas, calados, portando sacolas com as compras da tarde. Minha avó poderia transmitir em seu andar curvado e em seu rosto de expressão firme tudo, menos saudade da Polônia e da Europa. Ou qualquer fantasia sobre as promessas do Primeiro Mundo.

O que aprendi sobre remédios para males complexos não veio de leituras, mas deste trajeto entre rua Guarani e Av.Paraná.

O capitalismo é um mal cujos remédios apresentados até hoje fazem-no parecer benévolo.

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