“Notas” – 09/09/2018

Notas sobre o fogo e a faca

O incêndio do Museu Nacional

Ruy Castro escreveu logo após o incêndio do Museu Nacional, em sua coluna na “Folha de S.Paulo”, que Presidentes da República não tinham o hábito de visitar o Museu; em décadas nenhum Presidente teria visitado-o. Nem o “intelectual” da categoria, Fernando Henrique Cardoso. Que esta “informação” (não sei se a ausência presidencial ao Museu procede) diz sobre o incêndio? Nada, no meu entendimento.

Há Ministros da Cultura, não? Ou reconhece-se que este ministério é mesmo dispensável.

“O Museu estava sob os cuidados da UFRJ”.

Não haveria meios oficiais de se pedir à Universidade notícias do Museu?

Elio Gaspari, em sua coluna na “Folha de S.Paulo” logo após o incêndio, sugeriu que funcionários fizessem greves caso não lhes fossem mostrados alvarás. Como se funcionários pudessem enfrentar os sindicatos ligados, de maneira ou de outra, aos partidos de Esquerda donos do que se chama “Cultura” no Brasil. Do Elio confesso que esperava texto similar ao que fizera como editor no “Jornal do Brasil” quando do incêndio do MAM (Museu de Arte Moderna), louvado por autor de um perfil seu para a revista “Imprensa”, Zuenir Ventura. Talvez meu azedume com a sugestão de greve e o que me pareceu suave à administração deste patrimônio venha deste desapontamento. Esperava, este blogueiro, um texto “histórico”, “clássico”, “antológico”; texto que merecesse ser qualificado por estes clichês redacionais. Em outros dias, isto não teria acontecido?

Acontece que vivemos dias nos quais escândalo saiu de moda, ninguém mais se escandaliza ou julga adequado se escandalizar ou se declarar escandalizado. A dramaticidade é tida, dia depois de dia, como um recurso de mau gosto. Um incêndio destruindo duzentos anos em poucas horas não merece mais que textinhos cuidadosos em não ofender e, sobretudo, não afugentar mentes sensíveis às “breguices” da vida.

Não se socorre um paciente terminal com analgésico, e a Cultura no Brasil é este paciente exigindo intervenções enérgicas. Intervenções enérgicas que seriam consideradas indispensáveis e inadiáveis fossem os donos da “Cultura” homens e instituições tidas como de Direita. Ah! fosse este Museu algo sob a guarda do PSDB ou de outro inimigo do sistema de Poder do PT e associados…não deixariam as cinzas esfriarem.

Reuniões no apartamento de Caetano Veloso, saraus nos bares chiques da Lapa, vigílias no saguão do Ministério da Cultura no Rio de Janeiro, manifestações registradas por Ana Carolina Fernandes para exposições e livros; a hashstag #NãoesqueceremosoMuseu estampando camisetas como palavra de ordem.

E fariam muito bem, estas cinzas não devem mesmo esfriar, este incêndio merece uma CPI.

Onde os recursos; que se fez do que era destinado à manutenção do Museu; quem deve responder por hidrantes sem funcionar (se esta informação procede); tantos outros etc.que este episódio levanta exigem sim uma Comissão Parlamentar de Inquérito.

Quem gritará por isto?

O atentado contra Jair Bolsonaro

Esfaqueia-se o primeiro colocado (na ausência provável do ex-Presidente Lula, que liderava até há pouco) nas pesquisas de intenção de votos para a próxima eleição presidencial e este episódio não parece merecer cobertura maior que um empurrão e alguns pontapés dados em um líder de uma das facções políticas em luta.

“Triste esta violência em uma campanha, isto não deveria acontecer, a Democracia sofre, o diálogo com os diferentes deveria ser a regra, etc, etc, etc”

Olavo de Carvalho observou, em vídeo logo após o atentado, que a casta acadêmica se manifestou neste atentado, e não apenas pelas mãos do esfaqueador, mas pelo apoio que este vem recebendo de professores universitários e de universitários. E de mensagens incitando ataques, alguns destes postados nas redes sociais pouco antes da facada em Juiz de Fora.

Não coloco reparo no que Olavo disse, assino embaixo.

Mas acrescento que caixas de comentários e redes sociais vêm sendo um esgoto que anuncia e antecipa a violência física há anos. Há anos violências verbais e exteriorizações de taras e recalques são expostas na internet. Escreve-se sem qualquer temor de represálias; sejam sociais, sejam penais. Ao contrário, autores de baixezas são mesmo incentivados por seus iguais e animados a permanecer neste tipo de conduta por titulares dos espaços que qualificam como “CENSURA” qualquer apelo quanto à moderação prévia do que se publica.

Há alguns anos escrevi um texto aqui no blog intitulado “Caixa de comentário ou caixa de esgoto?”; republicado no 247 e na “Tribuna da Internet” foi alvo de comentaristas que confirmaram com suas intervenções o que o texto dizia. Mais que estes comentaristas, a conivência da direção de ambos os sites me confirmou.

(Logo depois do atentado, comentários debochando da situação de Bolsonaro foram postados na “Tribuna da Internet” sem qualquer admoestação do diretor, ao contrário).

Quando se pode escrever (e publicar) tudo, tudo é permitido. A linguagem não corre fora do Mundo, é um elemento do convívio que diz muito das leis de uma determinada sociedade. Quando o que há de mais mesquinho e asqueroso na condição humana exige mostrar-se, tudo, mas tudo, pode acontecer. E o senso de escândalo mencionado no início deste texto desaparece. E memes e piadas sobre ataque com faca a um candidato que lidera as pesquisas para Presidente são apenas consequências.

Há também a demora e a desunião dos partidários (ou mesmo apenas simpatizantes) de Bolsonaro frente aos agressores virtuais. Não se formou uma rede unida de denunciadores de práticas criminosas, e sem esta rede, uma vitória hipotética de Bolsonaro à Presidência poderá muito pouco. Vejam, por exemplo, o que passa Donald Trump.

Há também a falta de hábito de análise em muitos dos que se escandalizam tarde demais: muitos dos que se levantaram contra o que escrevi sobre comentários de internet na “Tribuna da Internet” agora reclamam dos comentaristas anônimos ou que se utilizam de perfis fake de redes sociais, o que deveria ser vetado pelos donos de sites e blogs, pois contrário ao que diz a Constituição sobre liberdade de expressão não contemplar anonimato. Agora que estes anônimos postam piadas sobre a facada no Bolsonaro cobram do moderador do site alguma providência. Muito, muito tarde.

Insultos, cusparadas, ovadas, distorções de declarações e todo o resto dos etc.realizados por comentaristas de internet (sobretudo da casta acadêmica) e jornalistas foram apenas os primeiros movimentos de afiar a faca. O que se lê por este dias de gargalhadas sobre o atentado ou relativizações que são mais insultuosas que as gargalhadas abertas (Elio Gaspari, na coluna de hoje na “Folha de S.Paulo”, traça paralelo em quem nota a afiliação ao PSOL do autor do atentado e os apocalípticos  da Guerra Fria, portanto nada de lembrar das simpatias do esfaqueador, sim?) é apenas o posfácio de um livro volumoso que vem sido escrito há anos. Ao que parece, sem leitores atentos.

Ou se toma este episódio como lição ou os piores pesadelos serão superados pela realidade.

Esta facada vinha sendo anunciada há muito tempo.

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