“Notas”- 16/09/2018

Sobre conselhos que eu não daria

Penso em iniciar carreira de autor de livros de auto-ajuda; há temas que já contemplo com os títulos respectivos. Há uma lista que venho anotando e talvez divida-a com os leitores do blog; acaso algum leitor furte a ideia, tanto melhor: quantos livros não há, de auto-ajuda que vendem ao que parece por repetir temas com títulos quase idênticos?

Para cada problema humano, uma biblioteca de soluções. Há livros a ser escritos que serviriam a jovens aprisionados nas “friendzones”, para dar um exemplo. Ou para usuários compulsivos de salas de bate-papo. Apenas dois exemplos dos temas que pretendo “desenvolver” para, ou escrever eu mesmo, ou vender para algum PhD; títulos acadêmicos são obrigatórios nas capas destes produtos. Na verdade, já estou tomando notas para um livrinho que teria o título “Peça meu conselho…e morra esperando”.

Trataria de libertar o leitor da mania de fornecer conselhos não solicitados, ou solicitados por impulso. Quem já não colocou amizades a perder por tomar como honestas perguntas como “O que devo fazer?”, “Que achou da minha namorada?”, “Esta minha tese de doutorado não é interessante?”

Estas perguntas não são pedidos sinceros de conselho ou de avaliação, e o ansioso por ajudar não desconfia (talvez por generosidade, talvez por vaidade) que estas perguntas são ,quase sempre, o que se conhece por “perguntas retóricas”. O interlocutor deseja elogios e incentivos, ainda que mecânicos e postiços, ambos. Não sou bom conselheiro nem para mim mesmo. Querem ver?

 

Sou um homem de hábitos de leituras de internet que não variam; uma olhada rápida no Reinaldo Azevedo todos os dias; de Segunda a Quinta, Helio Fernandes; na madrugada de Sábado para Domingo, colunistas da “Folha de S.Paulo”: começo pelo Elio Gaspari (o qual já leio também na Quarta), dele até o Mario Sergio Conti para terminar na leitura dos textos do Ruy Castro publicados durante a semana. Algo previsível, rotina que cumpro como um funcionário na repartição. Mas…cada vez com menos prazer em todas essas leituras.

Escrevi logo acima sobre a rotina de um funcionário na repartição, sim? Pois é o que venho experimentando. Me aconselho, pois, a diminuir estas leituras, ler por alto, no máximo. O que me aconselho mais, porém, é desertar destes espaços. E reincido, dia depois de dia, no Helio Fernandes, madrugada de Domingo depois de madrugada de Domingo nos colunistas da “Folha”.

A vontade que tenho é de reincidir em hábito do qual custei a me livrar, a ouvir os meus próprios conselhos: comentar. Aconselhar, sobretudo jornalistas experimentados (e profissionais não ouvem conselhos de “amadores”), é ridículo. Tentar alertar do descrédito ao qual se lançam em utilizar seus espaços para o jornalismo de campanha, sobretudo em um ano eleitoral, seria uma idiotice, pois.

A campanha anti-Jair Bolsonaro grita ao leitor nos textos destes jornalistas que parecem acreditar no nome no público que conquistaram mais do que deveriam acreditar; credibilidade também se desperdiça. Leitores podem desertar; sobretudo os de internet, sobretudo os de admiração recente (o que não é o meu caso para nenhum dos jornalistas citados. Leio-os há mais de vinte anos).

Helio Fernandes vem desde o atentado contra Jair Bolsonaro, relativizando o crime. No início, manifestou estranheza pela “ausência” de sangue na faca. Fez questão de escrever que era um “atentado” “atentado entre aspas” nos primeiros dias da semana seguinte ao atentado. Que conselho eu daria a um jornalista veterano de décadas, talvez o mais antigo jornalista em atividade no Mundo? Que está ficando feio este forçar de barra? Que ele deveria se informar antes de escrever? Que devesse ouvir gente fora do que parece ser o seu círculo usual dos últimos anos? Me vi escrevendo estes conselhos,e logo me contive; que tenho de proximidade com o grande jornalista? Sou um seu amigo? Sou seu editor ou auxiliar?

“Mestre Helio, concentre suas forças na sua autobiografia, em um livro-depoimento como o ‘Depoimento’ do Carlos Lacerda. Deixe as coisas recentes para quem tem se informado mais, até por ter meios de o fazer. O que o senhor já fez na Imprensa brasileira faz merecer este fim de vida -e carreira- apenas memorialístico. Este apenas grafado com todas as aspas, sim?”

Que escrevera ao Elio Gaspari após o texto da madrugada de Domingo?

“Elio, o paralelo que o sr. tenta traçar entre a candidatura de um militar com as diversas revoltas e revoluções envolvendo militares é pouco honesto. A comparação honesta seria a das candidaturas militares que malograram, não ? E pouquíssimo honesto é vender ao leitor não tanto lido de História do Brasil como o sr. a ideia de que os militares ‘produziram anarquia’ nos episódios citados no texto. Foram por lidar com armas na profissão os que tiveram que arcar com ‘desordens’ causadas por ricaços, políticos mesquinhos e formadores de opinião colonizados. Estes setores causam mais estragos que qualquer fardado. O ricaço que não admite ceder em um mínimo, o político profissional empenhado em sugar o máximo das situações de instabilidade (que acontecem pela natureza própria da vida) e o jornalista e /ou escritor maravilhado com modelos culturais e políticos de países ricos dispensam auxílio de qualquer tropa, mesmo estrangeira, no trabalho de destruir um país.”

Mas não darei este conselho, nem sob a forma de comentário, Elio Gaspari não me conhece, e mesmo se conhecesse não aceitaria conselhos de “amadores” nesta altura da carreira. Talvez eu próprio no lugar dele não aceitaria conselhos de quem nunca tivesse ouvido falar.

Que diria ao Mario Sergio Conti sobre seu texto tratando do roteiro (publicado em livro) de Joaquim Pedro de Andrade para filme que não teve tempo de filmar? Que ele deveria ter tratado mais do roteiro em si e da obra de Joaquim Pedro do que tentar ensaísmo político ligeiro, para consumo de público já conhecido (o barbichinha de óculos de amação colorida, leitor de “piauí” de revistas culturais eletrônicas “de Esquerda”) com piadas sobre o “Vampirão” e ao “Bolsonaro Rex” (o estado crítico de Bolsonaro não deve conter este tipo de humorismo fácil, claro).

Tão previsível, tão domesticado.

Paralelos mais aprofundados entre o roteiro publicado e filmes como “A Guerra Conjugal” e “ O Homem do Pau Brasil” dariam ao leitor o melhor Conti, o descritivo de certas passagens de “Notícias do Planalto” e o erudito sem medo de afugentar leitores apressados do ensaio que fez sobre Marcel Proust (um dos últimos, na “piauí”). Ou um texto onde reminiscências pessoais ferissem a mediocridade, hoje reinando à Esquerda e à Direita.

Quando Conti produz textos onde escreve sobre si, escreve ao mesmo tempo,por contraste, sobre colegas medíocres e acovardados . Isto seria mais proveitoso que textos ligeiros para satisfazer leitores exigentes das piadinhas de salão chique. Ou os micro ensaios de obviedades marxistas que são a porção mais encontradiça no seu menu atual. O que dele dá para recortar e guardar da produção pós-“piauí”?

“Conti, saia do círculo da sua juventude em São Paulo, esta nostalgia te torna um esquerdista rotineiro, destes que não estimulam qualquer reflexão crítica. Um animador de rodinhas de veteranos da USP é um fim de carreira muito melancólico para quem produziu ao menos um clássico,’Notícias do Planalto’, e um volume de correspondência eletrônica com Ivan Lessa que também se pode qualificar como tal. Que tal um outro livro, volumoso, sobre sua carreira pós-‘Notícias’, contendo suas passagens pelo ‘Jornal do Brasil’ e pela ‘piauí’?”

Mas Mario Sergio Conti não me conhece, ou a este blog, e guardo este conselho para mim.

Que dizer ao Ruy Castro? Escreveu um texto sobre a declaração recente de Paul McCartney sobre ter avistado Deus no final dos anos ‘60. A forma de Deus segundo o beatle seria uma parede. Ruy Castro traça então um paralelo entre figuras que disseram em entrevistas terem visto discos voadores ou Deus (para Ruy Castro,parece tudo ser a mesma coisa); figuras como cantores e compositores, talvez atores. E estranha este tipo de visão não ter ocorrido a gente como Millôr Fernandes e D.Paulo Evaristo Arns.

Bom, não sei sobre D.Arns, mas não confio em autoridades religiosas que jamais tenham visto Deus, ainda que como uma parede ou um disco voador. Não sei se D.Arns viu ou não, repito. Uma autoridade religiosa invocada como exemplo de intelectual cético não me parece acertado, mas quem sou? Quanto ao Millôr, é citado para reforçar o contraste entre um “homem que sabe das coisas”, um intelectual e a ralé que acredita em Deus, discos voadores e almas d’outro mundo. O ateísmo já teve advogados melhores.

Ruy termina este texto sugerindo que McCartney escolhera a data certa para falar de visões; ocasião de lançamento de um novo disco. Sim, McCartney precisaria deste expediente.

“Ruy, trate de Bossa Nova ou Frank Sinatra, territórios familiares a você. Ou mitologias de Ipanema. Mas não sugira que um beatle com público consolidado em todo o planeta precise de apelar. Fica feio pra você. Você fica parecendo um provinciano que compara o chafariz da praça da igrejinha com o Arco do Triunfo. O disco vem sendo saudado mesmo pela crítica mais ranheta e desejosa de destroçar McCartney como um disco digno dentro da sua discografia. Reconheça que Beatles, Paul McCartney e rock em geral não habitam seu universo de interesses.”

Na mesma semana,Ruy Castro faz texto sobre o hábito gravíssimo de Bolsonaro gesticular com os dedos sugerindo atirar. Nem mesmo no leito de hospital este péssimo exemplo foi abandonado. Isto, esta belicosidade, explica o que Bolsonaro sofreu. Ruy Castro se inquieta com a dificuldade de Bolsonaro em conseguir votos entre “mulheres negros, gays, índios,etc, etc, etc”. Estas “minorias que não são minorias” rejeitam em peso o candidato, segundo muita gente acredita, sobretudo Ruy Castro.

Fosse eu um membro do círculo de Ruy Castro aconselharia: “Saia do Rio de Janeiro de novela de Manoel Carlos e idas a recintos boêmio-culturais de subúrbio com freguesia de funcionários públicos esquerdistas e você encontrará muitos destes votos de negros,gays e mulheres dirigidos a Bolsonaro. Vá em alguma fila de posto de saúde e ouça relatos de assaltados nestas filas e você encontrará muitos destes votos que você não sabe onde Bolsonaro encontrará. Mercadões de subúrbio, filas de ônibus, e estações de trens. Talvez o mistério da compensação de votos da rejeição a Bolsonaro entre minorias da casta acadêmica (ou influenciados pela casta acadêmica) entre o chamado povão te seja explicado. Mas, caro Ruy, último conselho: deixe assuntos políticos, dos quais você próprio já declarou diversas vezes ter repulsa, pra quem deles não têm repulsa, entendeu? Por que não escreve mais (e falo aí de livro) sobre os bastidores das suas entrevistas para a ‘Playboy’ e suas reminiscências destes encontros? O mesmo para suas entrevistas da ‘Status’. Estes argumentos anti-Bolsonaro que você vem colhendo e expondo depõem contra o grande jornalista que você é. Não gosta dele, seu direito. Escrever sobre isso, direito seu também, embora quem deteste Política devesse se abster de escrever sobre o tema. Mas escreva utilizando argumentos que te confirmem como homem inteligente, não o contrário.”

Mas não o conheço, nem ele a mim, ou ao meu trabalho. Logo…. Dirijo meus conselhos ao Fernando Pawwlow: “Por que não deserta de vez da leitura destes autores? Sua decepção com eles só aumenta a cada vez que você reincide na consulta ao que eles vêm produzindo. Leia deles só os textos antigos, e aceite-os nas limitações deles. Deixe-os aos leitores de ocasião ou ao público recente que é ignorante desta decadência.” E ele me ouve? Dia depois de dia, semana depois de semana vai se haver com as admirações da juventude.

 

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