“Notas”- 10/10/2018

“Edição 400” – notas soltas sobre as eleições presidenciais

Quis que esta edição “400” do “Cadernos” fosse dedicada às eleições mais importantes no Brasil em muito tempo. Não se completa um número como este todos os dias. Estas eleições convocaram os brasileiros a dizer o Brasil que não querem de jeito algum, muito mais que o Brasil que desejam. Este, o Brasil desejado, será fruto das lutas de gerações a partir do momento em que se colocar de forma nítida que Brasil se trata de recusar.

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Minha avó materna dizia que era na guerra que se sabia quem era quem. Assistira sua Polônia invadida pelos nazistas, e depois dada de presente aos soviéticos. Presenciara assassinatos, saques, roubos, gestos de covardia. E gestos de gratidão e grandeza, estes não raro de quem menos se esperava. As máscaras não se fixam nos rostos em tempos severos, parece.

Dante Alighieri alude, na “Divina Comédia”, aos círculos do Inferno que esperam pelos “neutros em tempos de grave crise moral”, não? Cito errado?

Um candidato esfaqueado não comoveu as celebridades que aderiram apressadas (umas acotovelando as outras na pressa de aderir) à campanha #EleNão; Jair Bolsonaro hospitalizado sendo imagem demasiado suave aos que temem perder prestígio, oportunidades de trabalho, amizades.

Formadores de opinião decretam e celebridades acatam, indiferentes ou mesmo inconscientes à equação #EleNão = # BolsonaroEsfaqueadoSim .

As biografias dos que permitiram o registro de suas figuras como membros de rebanhos não terão como omitir este capítulo.

Qual justificativa oferecerão aos que,passados alguns anos destes momentos miseráveis que suportamos, perguntarão:

“Para não ganhar cartazes colados às costas vale tudo, mesmo ajudar a massacrar no campo moral uma vítima de tentativa de homicídio?”

São dias de limpeza, se pensarmos sem emoção. Estes dias estão mostrando os amigos verdadeiros, os companheiros sob o sol; os convivas de ocasião, sempre prontos a saltar nos ombros do pirata quando este encontra-se no comando dos mares, afastam-se.

“Vai mesmo declarar voto no Jair Bolsonaro? Olha, se perguntarem se somos amigos, responda que nos conhecemos apenas, tá?”

“Não suporto esta gente do PT, mas votar no ‘Bolso’ é demais pra mim, entendeu? Eu fosse você evitaria pagar este mico. Você não sabe o dia de amanhã, vai que esta gente do PT volte com força total…”

Cada um que arraste sua covardia como julga de acordo com o que necessita, sim? Não penso em dar lição de moral a quem deveria tomar lições de História para aprender como os totalitários percebem e lidam com os covardes.

Sei que esta eleição foi palco de muita abjeção, de muito espetáculo de sordidez, muitos corpos disformes protagonizando strip teases…mas também de muita demonstração de coragem e independência. Para cada seguidor de ordens de publicitários do #Ele Não, um se expunha dizendo #EleSim.

“Sou gay, mas não sigo ordens de pretensos líderes dos gays. Voto Bolsonaro”.

“Sou negro, e Bolsonaro pode contar com meu voto.”

“Sou mulher e voto Bolsonaro. Por que não votaria? Pela opinião de patricinhas?”

Youtubers que eu não conhecia, populares que fundaram canais apenas para declarar o voto no inimigo das celebridades-soldado; gente que acredito sem maiores proteções, e portanto, mais corajosa.

Mas também gente com muito a perder, mas de coragem indiscutível, como Antonia Fontenelle, sem qualquer medo de declarar o voto e defender sua escolha mesmo entrevistando, como na entrevista com Leo Dias. Como Alexandre Frota, cuja coragem e constância foram reconhecidas pelo povo do estado de São Paulo (estado que correu nos últimos anos, mesmo enfrentando o ataque de covardes pela internet, fakes operando sem descanso com o único argumento : “ator pornô”) com votação expressiva.

Pessoas que se expuseram ao deboche e ao estigma dedicados aos que atrevem-se enfrentar a casta acadêmica e seus braços na Imprensa e no mundo dos espetáculos.

Aos famosos e não famosos que se uniram nesta caminhada, meu respeito, meu carinho.

Tenho certeza que as gerações por vir saberão quem respeitar quando as biografias dos membros do #EleNão e do #EleSim forem objeto de apreciação.

Se numa guerra se vê quem é quem, a paz depois da guerra traz a balança das almas.

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Mario Sergio Conti em crônica recente na “Folha de S.Paulo “ observou que as fakenews propagam-se por servirem de veículo ao coletivo geral, que acredita no que deseja acreditar. Não faço citação textual, mas o espírito é este.

Os eleitores de Bolsonaro, desprezam os homens de cultura e os profissionais sérios do jornalismo por não verem atendidos nestes seus desejos primitivos. Entendi o texto, jornalista Conti? Não é este o resumo da argumentação?

Mas, oh não!, para o final do mesmo texto Conti atribui ao Bolsonaro a ideia de eliminar o Décimo Terceiro salário, defendida na verdade pelo candidato a Vice, Gal.Mourão.

Isto não é fakenews, jornalista Conti? O filtro que separa profissionais sérios de palpiteiros de internet falhando justo no texto que tenta ensinar aos ignorantes a razão pela qual deve a massa respeitar jornalistas?

Má fé, ou um cochilo, não importa.

Ato falho sempre diz algo.

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Eu tivesse postado antes do Primeiro Turno dedicaria linhas aos direitistas que sabem protagonizar espetáculos circenses no hall do Palácio das Artes, mas que são incapazes de organizar uma derrota eleitoral em um estado, em dias de redes sociais e de internet. Dias de grupos de WhatsApp não impedem a vitória de uma candidata que as pesquisas apontam como destinatária de menos de trinta por cento dos votos?

Pessoa que estimo e respeito me impediu de postar uma temeridade; esta pessoa um minuto sequer acreditou no que as pesquisas diziam sobre a disputa pelo Senado em Minas Gerais, e me recomendou esperar pela votação do Primeiro Turno para depois escrever.. Fui adiando, adiando, adiando … e me livrei de um vexame; Dilma Rousseff ficou em terceiro lugar, com menos votos do que se esperava. A “maioria silenciosa” soube trabalhar na internet e divulgar em um estado grande a informação de que havia uma candidatura a derrotar, e quais candidaturas pudessem concretizar este objetivo, nestas se deveriam concentrar os votos, mesmo que as candidaturas não fossem as candidaturas dos sonhos.

Grande jornalista falecido me dizia ter esperança neste conceito, o da “maioria silenciosa” nos dias amargos que atravessamos. Nada de gritos, nada de aceitar provocações. Pessoas discretas e determinadas derrubando um esquema de Poder, era no que este jornalista experimentado acreditava. De onde está, sei que ele deve ter me sorrido quando tive a alegria de falhar nesta previsão.

As expressões e ditos na segunda-feira no centro de Belo Horizonte me diziam que Minas Gerais foi dormir no Domingo com um juízo melhor sobre si; um auto-respeito que tratou de derrotar quem julgava-se, sem qualquer razão para isto, como senhor de vasto curral.

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Muitos vídeos assisti com supostas (para não escrever prováveis) fraudes nestas eleições. Os números impressionam mesmo os mais céticos.

Lembrei de texto do Elio Gaspari publicado em 19/09/2018. Nele o jornalista adverte sobre “urubus golpistas que pretendem deslegitimar uma eventual vitória da chapa petista”.

O PT não venceu, e as queixas ainda assim surgiram; seriam todos os eleitores que se queixam de problemas nas urnas “urubus golpistas?”

Observadores internacionais deveriam ser convidados a se manifestar sobre as denúncias de urnas suspeitas e de casos onde eleitores não conseguiram votar. “Urubus golpistas” se combatem com investigações independentes, não?

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Os bolsonaristas mais exaltados que atacam críticos do seu candidato e agem com primitivismo personificam a faixa de eleitores de Jair Bolsonaro à qual muitos eleitores dele não desejam se ver associados; meu texto no qual escrevi que votaria em Bolsonaro sem vestir a camisa referia-se a isto: todo cuidado com gente que serve apenas para fornecer munição aos inimigos, a confirmar caricaturas.

Claro que se deve exigir filtragem de fakenews e nunca se permitir o esquecimento sobre qual candidato foi esfaqueado, e quais vozes fizeram graça deste atentado. Que louvaram a “justiça aplicada a um fascista”.

Caso Bolsonaro ganhe mesmo estas eleições, este tipo de arruaceiro primitivo será seu maior problema, seu maior inimigo. E o cabo eleitoral mais eficaz das futuras candidaturas do PT do “Pós-PT”.

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Até o Segundo Turno!

Que outras 400 edições deste blog venham!

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