“Notas”- 01/11/2018

Notas sobre a primeira semana de Jair Bolsonaro presidente eleito

Nunca os pombos da Av.Paraná me pareceram tão corvos sob um céu cinza como naquela tarde de um dia de final da década dos anos’80; ‘87? ‘88?

Quase no meio-fio da calçada da Paraná partindo da R.Tupis em direção à R.Tamóios, caminho que cumprido em reta vai dar na Rodoviária. Meus catorze, ou quinze, e não juro que não os dezesseis, me empurravam os oitenta e poucos quilos em direção ao prédio no qual morava, no mesmo quarteirão.

Meu avanço era retardado por um senhor de aparentes setenta anos, com também aparentes 1,60m e com seus máximos 60kg. Poderia,por próximo dele, perceber-lhe as oscilações respiratórias.

À esquerda do senhor descrito acima, jovem de aparentes vinte e poucos anos, com também aparentes 1,90m e o mínimo de 90kg de músculo e covardia:

“Vai reclamar de mim pros hômi? Vai chamar os hômi?”

Berros que não abafavam o som dos dois socos no braço do senhor à direita. Este nem olhava para o agressor, não se atrevia a gemer.

Que fiz? Que disse? Que protestei?

Ora, voltem à descrição que fiz de minha figura no início deste texto e percebam a imoralidade deste questionamento; desnecessário escrever que não ensaiei um “Oh!”, antes procurei me esquivar da cena temendo ser percebido mesmo nesta fuga. Nada poderia fazer; a Paraná deserta de policiais (não é assim quase sempre?), parecendo comportar naquele trecho apenas os três personagens.

Muitos dos que engrossaram o #EleNão têm muito a perder e cobrar deles ao menos a abstenção na falta de coragem em declarar o voto em Jair Bolsonaro me parece tão indecente quanto cobrar de um garoto franzino intervenção em um assalto a um idoso. O papel que cabia ali à Polícia Militar cabe aqui aos colunistas bem sucedidos da imprensa mainstream que emitiram quando muito “Ohs!”quando milícias do projeto de Poder do PT e associados avançavam no assalto ao Brasil.

Não houve, em todos estes anos, qualquer promoção de vozes discordantes do projeto de Poder do PT e associados, enquanto o Poder sempre esteve atento no exercício da promoção sem descanso dos seus simpatizantes. Carreiras se firmaram neste sistema de louvação à casta acadêmica enquanto os discordantes não contam com qualquer apoio, mesmo dos pretensos adversários deste sistema. As pessoas veem quem controla os cargos e o mecanismo de promoção de carreiras e não pensam em desagradar, em discordar, em dissentir; desafiar seria o verbo síntese dos anteriores, e ninguém é louco para desafiar poderoso sem ter alguma garantia. Hoje o meio artístico mainstream é governado por gente que não cochila na vigilância das adesões e dos recuos que sejam interpretados como recusas. Pessoas que no íntimo talvez sintam asco ao linchamento de um recém-esfaqueado elaboram desculpas diante do espelho íntimo no temor de desagradar os que tomam as decisões no mundo artístico.

“Mas este Poder está caindo, os boicotes às carreiras das estrelas do # EleNão mostra que as coisas estão mudando.”

Acredita nisto quem quer, não?

Boicote em massa das marcas anunciadas por estas deusas da publicidade não tenho visto, e ainda que de fato estivesse ocorrendo, mais temível seria o boicote dos colegas de profissão; os nomes proscritos dos elencos de novelas, filmes, peças de teatro…

Os músculos que poderiam defender um candidato recém-esfaqueado deveriam ser buscados em outros meios, não? Guilherme Boulos convidando seus seguidores à invasão da casa de uma recém vítima de tentativa de homicídio não foi tratado por jornalistas bem colocados na Imprensa como o escândalo que é, e isto é mais grave que atrizes e cantoras ainda na fase de assentar a reputação cedendo às pressões e influências dos nomes já consagrados nas carreiras que seguem.

Na primeira semana após a eleição de Jair Bolsonaro, os campos opostos estão já nítidos o suficiente; desmoralização de boatos não constrangem seus autores: a suposta vítima da suástica desmentida pelas autoridades policiais (internautas notaram desde o início que a dita suástica estava bem desenhada demais em um corpo constrangido) e nenhum pedido de desculpa por parte dos formadores de opinião. Elio Gaspari dedicou artigo inteiro à suástica desenhada por supostos bolsonaristas. Decerto responderá, se cobrado, que seu artigo tratava mais da declaração do delegado sobre a suástica ser símbolo de paz, querem apostar?

Há que se reforçar a musculatura dos que dizem apoiar Bolsonaro; presidente recém-eleito, ainda padece das limitações impostas pelo atentado. Ameaças a ele e à sua residência devem ser tratadas como são: terrorismo. Contra ele e contra milhões de eleitores. Tuítes postados por aspirantes a celebridade e por celebridades no ocaso (gente que deseja escapar do ostracismo merecido falando grosso com um senhor que porta uma bolsa acoplada ao intestino) devem, segundo penso, ser alvos de interpelações; liberdade de expressão implica responsabilidade pelo que se escreve. A política de anonimato nas caixas de comentários deve, penso, também ser extinta. Até mesmo por ser contrária ao que prevê a Constituição. Escrevi texto aqui no blog, há alguns anos, sobre as caixas de esgoto que são as caixas de comentários, repletas de anônimos. Texto postado, na ocasião, no 247 e na “Tribuna da Internet”, sofreu ataques dos ditos comentaristas anônimos.

Eu, um blogueiro sem licença para exercer o jornalismo, defender estas medidas não basta. Jornalistas que podem exercer a profissão e a exercem por bom preço deveriam propor estas medidas com maior insistência que eu. Até por interesse, não importa.

Esperar pela posse de Bolsonaro e pelo início da nova legislatura me parece temerário, e uma demonstração de ignorância histórica. Poder é exercício constante, e disto a Esquerda sabe mais que o suficiente. E por saber mais que o suficiente não perde um minuto no esforço de desmoralizar a eleição de Bolsonaro; eleito e seus eleitores devem ser retratados como idiotas, como débeis, como fracos; tomados, portanto, sem descanso, como inimigos a serem alvos de constrangimentos, de boicotes e de ataques físicos.

Janeiro nunca foi tão distante visto do início de Novembro.

Bolsonaro tem sido firme nas entrevistas desta primeira semana e não demonstrou qualquer soberba, qualquer superioridade prematura.

Mas alguns de seus apoiadores… O que tem de idiota encarnando a caricatura elaborada pela Esquerda, anunciando “matar viados”, “surras em viados” entre outros concertos de estupidez via whats’app… Bolsonaro deveria vir a público anunciando medidas duras para quem usar de seu nome e de sua vitória para cometer crimes. Caso já o tenha feito, que reforce o aviso, nunca é demais insistir nas mensagens necessárias, e nunca foi tão necessário admoestar estúpidos.

Sem estes avisos e conselhos, sem demonstrações mais efetivas de apoio inteligente, sem a musculatura do apoio crítico e vigilante, Bolsonaro será como garoto que fui contra os algozes do Brasil. Repleto de indignação e fúria contra assaltantes covardes, mas impotente para qualquer ação.

Como o garoto frente ao idoso e seu agressor, numa tarde quente e de céu cinza, sob pombos que portavam-se como corvos, voando baixo, baixo, baixo…

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