“Notas” – 10/11/2018

Sobre “Saber Vencer”

David Nasser dedicou um artigo para a edição comemorativa do 31 de Março de 1964 da revista “O Cruzeiro” com o título “Saber Vencer”. Texto ilustrado com foto do jornalista escrevendo à máquina na sua casa da Tijuca, mesa repleta de armas de fogo. Lembro por alto de uma frase : “Que a carniça que eles são não nos transforme nos urubus que não somos”. Pregava a vitória sem mesquinharias, sem perseguições menores que teriam o efeito de anular o êxito naquela batalha. Aquele era um momento histórico no qual estas advertências faziam sentido; a vitória sobre o governo de João Goulart veio através de um movimento armado,e naquele momento nada parecia apontar reações violentas aos recém-vitoriosos.

Saber vencer é mais difícil que saber perder, na maioria das vezes. Há a companhia dos oportunistas que demonstram capacidade de dar conselhos estúpidos com aparente total disposição, há o cansaço da (s) batalha (s) recente (s)e há a sensação de que o pior já é passado, um punhado de recordações amargas, apenas.

Vejam a derrota parlamentar do Partido Republicano; a Economia parecia, em seu processo de recuperação, garantia de vitória do partido de Donald Trump. Articulistas da revista neoconservadora “The Weekly Standard” apontaram excesso de autoconfiança no partido que superestimou vitórias anteriores e vinha descuidando de seu eleitorado.”Eles gostam de mim”, acreditava Trump sobre eleitores que gostam e deixam de gostar de um candidato ou um partido com igual velocidade. Houve também, apontam outros textos da publicação neocon, uma divisão nas diversas alas do Partido. E a de Trump parece ser a menos afetada.Onde os Republicanos tentaram combater no território Democrata, perderam. Saber vencer nos dias que sofremos implica pressão constante.

Há uma vitória recente no Brasil que exigirá demonstrações frequentes de firmeza e compromisso com eleitores que rejeitaram tudo o que o sistema de Poder do PT e associados representa. Caso Jair Bolsonaro resolva que o pior já passou terá, muito antes que imagina, pesadelos que o assaltarão, unidos e dispostos a reduzir sua vitória a uma nostalgia recente.

Imagino que já estejam a postos, entre comentaristas da chamada Direita, os conselheiros que cantam a canção que cantam já há diversas eleições: “Ganhando dessa gente, tudo é consequência.” Esta canção agrada quem deseja decretar fim de guerra sem a rendição assinada pelos perdedores; o desejo de retorno à “vida normal” é o motor que move muitas bravatas e berros de vitória prematuros.

Esquecem, estes apressados, que Bolsonaro ganhou com menos votos que o esperado (estou entre os que acreditam nas fraudes) e que o número de votos nulos e brancos não permite acreditar que ele conta com a maioria dos brasileiros. Assim como muitos Republicanos esqueceram que Trump se elegeu com os votos do Colégio Eleitoral e que teria, portanto, ainda que a Economia melhorasse, muitos americanos contra si.

Bolsonaro terá que ser apoiado com firmeza ainda maior que o foi na campanha; as provocações e sabotagens nem começaram; derrotados ainda discutindo onde erraram e quais candidaturas deveriam ter sido priorizadas podem passar a impressão que a derrota foi admitida. Quando estudiosos de História sabem que os combatentes experimentados admitem derrota apenas para preparar a volta, ainda mais furiosa e determinada,ao campo de batalha.

A primeira provocação,“O Ministério de Bolsonaro só tem homens” não foi respondida como deveria, Bolsonaro teria respondido que o Ministério ainda estava se formando, quando deveria rejeitar qualquer intromissão na formação de seu Ministério por parte de uma imprensa colonizada e com reiterada má vontade para com ele. A Ministra anunciada já é alvo de ataques, como serão quaisquer outros representantes de “minorias” às quais presidentes devem reservar cotas.

“Onde negros neste Ministério?”

Bolsonaro nomearia um negro.

“É negro de alma branca, espírito de capitão do mato.”

Onde gays neste Ministério?

Bolsonaro depressa providencia um Ministro gay.

“Este gay nunca representou o segmento LGBT, onde este gay nas nossas iniciativas de lacração?”

Ora, vimos este enredo sendo filmado no início do governo de Michel Temer. Os que se dispunham a compor o Ministério de um “governo golpista” eram atacados até que viesse outro, outro, e mais outro…

Esta gente derrotada nas últimas eleições presidenciais sabe como exercer pressão constante, e verificou que gritos estridentes conseguem o que argumentos muitas vezes não conseguem: vencer pela prostração e temor das consequências. Confrontos sempre carregam embutidas as consequências que cautelosos preferem evitar.

Bolsonaro presidente é diferente do Bolsonaro candidato; o candidato não está amarrado pelo cargo, a faixa presidencial servindo como mortalha, muitas vezes. Daí a necessidade de apoiadores decididos e que saibam aconselhar o Presidente a evitar ceder em demasia.

Quando escrevo sobre apoios decididos tenho em mente a homenagem ao Elia Kazan em certa cerimônia do Oscar (deram-lhe um Oscar honorário, Kazan com cerca de noventa anos). Warren Beatty estava entre os que aplaudiram o diretor de pé enquanto muitos mantiveram-se sentados em protesto (Kazan era amaldiçoado pela Esquerda das mansões de Los Angeles por ter sido acusado de delação na “Caça às bruxas” do macartismo, em Hollywood). Beatty não poderia ser acusado de direitista, ou conservador, mas era amigo de Kazan. Por caráter, não se acovardou. Como não foram covardes os que protestaram, em minha opinião. Os que mantiveram-se sentados, de braços cruzados, como Nick Nolte. Não o vaiaram, não cercaram seu carro, apenas não o aplaudiram. Fosse juiz moral talvez acusasse antes os que aplaudiram o enorme diretor, porém sentados, como Steven Spielberg.

Pior que a oposição é o apoio morno.

O pior não começou, repito.

Saber vencer, nestes dias após a vitória, é saber vigiar e distinguir companheiros dos oportunistas. Conseguir identificar no auditório os que o aplaudiram, porém sentados e cuidando para não ser vistos. E saber se cuidar dos que aconselham recuos e concessões.

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