“Notas”- 16/11/2018

Sobre não discutir

Há quem obtenha prazer em discutir, acreditam estar “travando combates no campo das ideias.” A eleição presidencial recente foi uma fartura de oportunidades a estes discutidores compulsivos. A mim,não foi. Apertava o cadeado de boca sempre que convidado a ingressar nestas querelas, e não me arrependo. O que tenho a dizer sobre o assunto escrevi e escrevo no blog,e é mais que o bastante. Política em conversas pessoais, só com gente muito conhecida.

Houve um chamado à escolha entre duas maneiras de ver o Mundo (sobretudo o Brasil) e não há em momentos assim possibilidade de convencimento; naturezas não se transformam com o mero auxílio de argumentos, penso.

Mas tem quem goste, repito.

Citam números, fatos históricos, testemunhos de pessoas (célebres ou anônimas de seu convívio) sobre o Inferno e nada disto convence quem deseja continuar no sonho. Não sei se há despertadores capazes de acudir quem se encontra em sono comatoso, e certas crenças são sonos comatosos onde os pacientes sonham o sonho sonhado por eles. Que fatos enumerados em uma argumentação podem dizer neste caso?

Por isto não aceito discussões políticas com gente que conheço pouco ou nada:

“Detesto política, assunto sonífero. Acompanho apenas futebol e noticiário policial, intercalados com notícias sobre votações em reality shows e vida sexual das celebridades.”

Caso o interlocutor note minha indisposição para polemizar com ele e me tome por grosso, jogará em minha cara insultos misturados aos perdigotos; julgando-me mesmo um alienado, balançará a cabeça, emitirá sons como “tsc, tsc”, e me deixará em paz. Nos dois casos, não desperdiço tempo e energia.

Não convencerei ninguém nas discussões de fila de ponto de ônibus e não acredito poder ser convencido pelo mesmo meio. O que não pareceu grave aos brasileiros com mente (de)formada pela casta acadêmica em todos estes anos não parecerá nunca; dezenas de milhares de homicídios por ano e vida econômica do País afetada pela criminalidade deveriam bastar como argumentos conclusivos sobre a necessidade de mudanças profundas. Ou não bastam e nada então bastaria.

Há gente insensível aos dramas da gente comum, que habita um planeta distante do nosso, cujos problemas maiores e que exigem resposta urgente são relativos à etiqueta social. Palavras escolhidas sem consulta prévia aos códigos que determinam o que é ofensivo e piadas de gosto discutível são o que temos de mais grave a dar combate. Gente assim existe e embora minoritária, decide posições e as colocações nos postos de trabalho nas áreas entendidas como culturais. Qual argumento usar com este tipo de gente? Como sacudi-los?

Vejam o caso recente do Silvio Santos no Teleton: um apresentador e empresário, já rico e realizado nas suas atividades promove, há anos, maratona na sua programação para ajudar crianças com deficiências físicas. Uma brincadeira com uma convidada e, pronto! eis Silvio Santos acusado de assédio por celebridades que obedecem aos comandos bolados pelos publicitários-ativistas do tal “politicamente correto”.

Muitos brasileiros enfureceram-se com o que parecia linchamento com parentesco de primeiro grau com o que sofreu o então recém-esfaqueado Jair Bolsonaro: o #EleNão sendo substituído pela imagem de Silvio Santos no Teleton durante a tal brincadeira com sua convidada, com a inscrição “Chega de Assédio” Coisa de publicitário; ícone e “textão”. Tudo uniformizado para ser reproduzido nas redes sociais de celebridades, as mesmas do #EleNão.

Que fazem estes discutidores de internet?

Intervenções nas redes sociais destas celebridades qualificando algumas delas como “hipócritas”. O que mostra que desconhecem o que seja hipocrisia.

Ora, estas celebridades encontram-se, ao menos nos dois casos em que serviram como caixas de ressonância de ativistas de cúpula, quilômetros abaixo da hipocrisia.

Hipócritas seriam se elaborassem um texto adicional ao texto oficial da campanha a qual aderiram e isto, ao menos nas redes sociais das celebridades que vi, não fizeram. Cumpriram a obrigação do coletivo, apenas. Qualificar estas estrelas da indústria cultural como hipócritas é, pois, prestar-lhes homenagem. Para quem cumpre obrigação, discutir se o monstro fascista é mesmo a vítima de uma tentativa de homicídio ou se é mesmo um assédio a brincadeira de um senhor quase nonagenário durante uma maratona na qual ajuda crianças é inimaginável.

Há quem determina o que pode ou não ser dito e/ou escrito. E este ser Todo Poderoso se chama Casta Acadêmica. O corpo acadêmico mais seus braços na imprensa e no mundo dos espetáculos formam esta casta, à qual populares qualificam como “bolha”. Um funk “proibidão” cuja letra refira-se às mulheres como utensílios pode ser aceitável caso contemplado pela casta acadêmica. O mesmo se deve considerar como certos itens da indústria da pornografia, como as “captions” de sites e blogs que associam a obtenção de sexo com adoção de determinados comportamentos.

Quando um articulista ou filósofo rotulado como direitista observa que a visão de mulheres seminuas nas ruas e praias provoca desejo de homens que pela lógica da sociedade não podem ter a companhia destas mulheres, por pobres, ele é qualificado como “machista que incentiva estupros”. Quando é um filósofo, pensador, ou articulista da Esquerda, ele está apenas constatando uma realidade, ainda que o dito esquerdista utilize tom de recriminação às mulheres que se exibem “como se estivessem no banheiro de suas casas”.

O trecho entre aspas é citação que faço de memória de texto de Roland Corbisier, publicado na imprensa e que consta da coletânea de artigos “Raízes da Violência”. Texto no qual o filósofo adverte sobre o comportamento de certa classe média que trata despossuídos como invisíveis. Procurem o livro, vejam se exagero. Até onde sei, Corbisier não foi incomodado por feministas, e este texto é já da década de ‘80, publicado em livro no início da década de ‘90. Imaginem o que aconteceria se texto assim fosse assinado por um autor catalogado como reacionário. Um Nelson Rodrigues ou um David Nasser, hein?

Escrevi sobre este texto aqui no blog, e sobre esta pouca severidade dos juízes morais para com um dos seus, mas isto caiu no vazio destinado aos textos não divulgado por quem, por suposto, teria alguma afinidade. Deixa pra lá…

Daí a estupidez das discussões, a tolice dos que perdem tempo batendo boca no lugar de formar grupos de estudos e/ou redes de blogueiros. Ou ligas eleitorais, ou institutos. Queixar-se da “hipocrisia” do grupo que determina o que é certo e o que é errado serve apenas como desabafo. O Poder continua como sempre, imóvel e tranquilo por saber seus adversários uns afobados, uns otários com pressa.

“Mas você quer que a gente faça o quê? Que fiquemos de braços cruzados enquanto esta gente avança? Temos que fazer alguma coisa…você conhece o ‘Decálogo de Lenin’ ?”

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