“Notas”- 22/11/2018

Sobre “Bumerangue” de Eduardo Almeida Reis

“Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com personagens da vida real é mera coincidência. Ou não.”

Assim Eduardo Almeida Reis apresenta seu primeiro romance, “Bumerangue”,lançado em 1995. O leitor é livre para desperdiçar tempo e energia tentando adivinhar quem é quem no livro.

E será mesmo um desperdício. O livro é delicioso, divertido, ainda que não se encontre qualquer pista sobre identidades correspondentes na vida real ao romance. Eduardo Almeida Reis parece ter lançado pistas apenas para selecionar entre os leitores os aptos a se divertir com sua sátira, os que saberão ler além de jogos de “Será que o Governador do livro é Fulano? Não seria Beltrano, pela época retratada no livro?”

O Poder político mais imediato e mesquinho é o alvo, não os ocupantes ocasionais deste. A província e o que ela retém de atraso e de corrupção em si mesma parece ser o objeto de purgação do escritor. Governadores que agem como chefes de bandos criminosos sempre existirão enquanto a Política nas províncias for a politicagem da compra de votos, das vitórias eleitorais conquistadas sobre a miséria e ignorância das massas.

A imprensa provinciana jogando papel importante na perpetuação deste sistema de ocupação do Poder pelos piores, pelo nivelamento por baixo que se afigura eterno. Os editoriais pomposos e vazios, o consenso fabricado em coquetéis em palácios, a política editorial definida a partir dos financiamentos; a opinião pública, em síntese, forjada nos arranjos entre jornais (cada vez mais) sem leitores e dinheiro público jorrando sem justificativas.

“No princípio era verba.E nós correndo atrás”, segundo o narrador do livro, jornalista outrora bem sucedido, estacionado neste intervalo em jornal de província que opera como jornal de província; medíocre, sem leitores e de governismo mal assumido, disfarçado de “neutralidade”. Ou nas palavras do diretor do dito jornalzinho:

“Vamos ficar numa posição de absoluta neutralidade, my boy, a exemplo das outras eleições, que assim podemos tomar dinheiro de todos os lados.”

Tudo que se diz com estas palavras, sempre: “Nada de radicalismos. Não somos palmatória do Mundo. O Mundo não depende de nós para continuar rodando”.

Quem não pensa mais ou menos assim na Imprensa provinciana, a Grande Imprensa parecendo toda ela, no Brasil,e cada vez mais, imprensa de província?

Não contarei a trama do livro, embora spoiler não seja preocupação de apreciadores verdadeiros de literatura. Ou contarei apenas o que a contracapa do livro já conta; as aventuras que sucedem a um jornalista desde que este resolve arriscar-se em ligação amorosa com a primeira-dama de Minas Gerais. Almeida Reis costura personagens fictícios com personagens da vida real, como Alberico Souza Cruz, à época diretor de jornalismo da Rede Globo. Ou suas reminiscências da redação d’O Globo” nos anos ‘60:

“ ‘Clima’ das redações antigas, laudas amarrotadas pelo chão, cigarros apagados nos cinzeiros, o chargista pedindo sugestões (…) Logo depois, chegava o Doutor Roberto dirigindo um Fusca, sem qualquer tipo de segurança. Ricardo e Rogério, seus irmãos, já estavam a postos desde cedo.”

E a observação sobre o jornalismo atual, personificada em jornalista recém-formada que contratara no jornalzinho de província dos dias da trama do romance:

“Vai fazer carreira brilhante, porque consegue ter um texto absolutamente ininteligível (…)os editores adoram. Ninguém tem a coragem de dizer que não entendeu nada. Perder a direção do carro, para ela, resultava sempre na perda do controle direcional do veículo automotor. Mulher era esposa e tiro era disparo de arma de fogo. Com todas essas credenciais, registrei-a como editora-adjunta (…)”

O personagem narrador tem atrás deste cotidiano medíocre e cinzento passado como correspondente estrangeiro na grande imprensa; mineiro do interior, de Curvelo, para ser exato, ou de cidade perto de Curvelo, para maior exatidão. É pai de um filho já jovem. Que tem o herói, portanto, em comum com o carioca, pai de filhas, Eduardo Almeida Reis?

Talvez nada. E este nada nada quer dizer para um personagem que diz: “Foda-se a minha biografia.” Compreendem?

Há reminiscências que são comuns ao escritor e jornalista Eduardo Almeida Reis e ao jornalista Antônio Carlos, o narrador do “Bumerangue”. A visão de Mundo dos dois cavalheiros teria suas coincidências também?

O gosto pelos charutos, pelos bons vinhos e pela vida no campo, no que esta tem de contrária ao artificialismo da vida nas cidades. Ainda que a volta ao campo seja no livro forçada pelas circunstâncias, rende ao narrador satisfação mesmo com o trabalho duro:

“Doze, quatorze, dezesseis horas por dia:tenho trabalhado feito alma penada. E o pior é que gosto. Fico exausto, mas adoro”.

O que lembra passagens de “Seis Alqueires e Uma Vaca” e “ A Cidade e as Serras”.

“ A Cidade e as Serras”?

Sim, há também em comum entre o personagem-narrador e o autor do livro a admiração, ou devoção, ao Eça de Queiroz.

Mais as digressões sobre etimologia, sobre genética e mesmo sobre a crença em Deus. Sobre crer em Deus algumas frases distribuídas em alguns parágrafos próximos :

“Minha quizila com Deus não é de hoje (…) Os piores propagandistas do Senhor os que n’Ele creem (…) Duvido que alguém me aponte uma guerra entre ateus, ou em nome do ateísmo (…) A não ser que Deus exista mesmo e esteja afinzão de espezinhar o rebanho.”

Quem não conhece algumas passagens de crônicas de Eduardo Almeida Reis (das que constam em coletâneas como “Burrice Emocional” às mais recentes do seu blog “Philosopho”) onde seu juízo sobre religiões é parente de primeiro grau destas observações do personagem-narrador?

O amor incondicional deve, ao que se pode perceber em diversas passagens do livro onde são evocados amigos, passeios, atividades do campo; às coisas e eventos onde o ser humano experimenta algo do que é transcendental nas delícias da vida, como no poema que o narrador dedica às suas memórias com a personagem com a qual relacionou-se como amante:

“Quero fazer de tuas coxas/fones de ouvido/ Que me isolem do mundo/na caminhada essencial”.

As intenções mais sublimes devem ser direcionadas, portanto, ao que se conhece como Eros.

O Thânatos, o Poder temporal e mesquinho, sustentado pela ignorância de muitos e pelo poder da força das armas e do dinheiro, personificado no Governador asqueroso e vil, é acompanhado dos avisos sobre a Morte; Morte absoluta, perto da qual mesmo a rotina de uma organização criminosa internacional (como a retratada no livro) tem algo de nobre, cavalheiresco. A Morte, o Tânatos, reside nos gabinetes e das convenções que matam a alma.

Este Eduardo Almeida Reis surpreende leitores acostumados ao seu humor, ainda que este esteja presente em passagens como esta:

“Sorriu de leve, quando disse da mania de seus pais na escolha dos nomes dos filhos. Homens, filósofos; mulheres, artistas de cinema: Sophia, Ingrid, Ava, Giulieta, Silvana, lourísimas todas. Bonita, só ela. Spencer,Voltaire, Hegel, Kant, Rousseau. Hegel foi morto na penitenciária capixaba pelo companheiro de cela (…) Spencer, ex-cabo PM, era assessor do governador. Rousseau pilotava um táxi em Cariacica, ES. Voltaire conseguiou estudar medicina e clinicava no Sul da Bahia.”

E tantas outras passagens onde o escritor de não-ficção saudado como “Gênio rural” por David Nasser mostra-se habilidoso em misturar personagens reais e fatos da história recente do Brasil com ficção de situações e personagens.

Este livro me fez salivar pelo romance seguinte de Eduardo Almeida Reis, “Breviário de Um Canalha”, o qual ainda vou ler e escrever sobre, aqui no “Cadernos”.

“Bumerangue” é recomendação segura aos que apreciam literatura, e admiram Eduardo Almeida Reis, um dos últimos grandes ainda aqui.

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