“Notas” – 01/12/2018

Sobre o “Gabinete Bolsonaro”

“Pawwlow, que você tem achado da escolha do Ministério? O Bolsonaro está acertando?”

“Fulano será mesmo um bom ministro na pasta X?”

“O Ministério não está muito militarizado?”

Bom, Jair Bolsonaro ainda não assumiu, o Governo ainda não começou, vamos ver.

Não consigo responder outra coisa aos amigos leitores que me questionam em conversas sobre o que será o “Gabinete Bolsonaro”. Pode ser que seja uma decepção, pode ser que a coisa saia melhor que qualquer otimista tenha imaginado. Votaria nele de novo mesmo assim, e acredito que a maioria dos que nele votaram repetiriam o voto.

Porque a opção era muito aterrorizadora, exagerava do direito de ser promessa de desastre fatal para o Brasil. E Bolsonaro contará, portanto, com margem de erro maior que qualquer de seus antecessores; cientistas políticos terão que estabelecer outros prazos para o que chamam de “lua de mel com o Governo”. Este terá, mesmo se derrapar no início, boa vontade por parte dos brasileiros. Os anos de PT não deixaram saudade na população, sobretudo naquela sua porção que acreditou nas promessas do partido e foi a ele fiel enquanto conseguiu. Até que percebeu que a casta acadêmica era a inimiga.

Mas…não convém que Bolsonaro abuse desta disposição das massas. E acredito que Bolsonaro não abusará. Suas escolhas sinalizam desejo sincero de romper o sistema de governabilidade trocada por honrabilidade; militares e quadros técnicos parecem ser a maioria do que será seu Governo,e isto é, para seus eleitores, a confirmação da boa escolha que fizeram. Chega de acordos que são pagos com a anulação de políticas de saúde,educação, segurança. O Governo que terá início em 2019 estará livre, pelo caráter de sua vitória, das amarras do velho sistema.

Mas é o ministério ideal? Não sei, repito. Ninguém sabe. Ao longo dos meses, as escolhas se revelarão felizes ou desastradas, e não imagino Bolsonaro insistindo em escolhas que se mostrarem equivocadas por capricho; seu estilo parece ser o mais pragmático imaginável:

“Olha Fulano, não nos entendemos, mas saiba que você terá sempre meu respeito, vida que segue, tálquei?”

Pois já tem indicado que não se elegeu na base do comércio de ministérios. E não precisou.

Ao dizer o que muitos brasileiros precisavam (não,não se trata de vontade, ou desejo de ocasião,mas de necessidade) ouvir, comprando inimizades com a casta acadêmica e seus braços no mundo das artes e espetáculos e na imprensa, Bolsonaro atingiu milhões de mentes, não importa se mentes que até então votavam na Esquerda ou se direitistas de berço. Bobagem acreditar que Bolsonaro ganhou apenas na militância anticomunista,ou antiesquerdista. Ou apenas nos setores dominados pelos pastores evangélicos. Muitos gays e muitos antigos eleitores do PT votaram nele. E, portanto, Bolsonaro não tem dívidas para com chefes de segmentos. Deve sua vitória às verdades que disse e às brigas que topou. Só. Sua ligação com as massas, prescindindo, pois, de intermediários. E isto dá a ele liberdade total na composição de seu gabinete.

Que eu sugeriria a ele fosse um seu interlocutor,ou uma sua leitura?

Que seguisse o roteiro que eu sugeri, em texto publicado no blog, aos editores de jornais e revistas, tomando por base uma palestra de Elio Gaspari

https://fernandopawwlow.blog/2017/08/29/notas-29082017/

“Vão às associações de ex-isto e ex-aquilo, aos profissionais competentes que foram boicotados e depois afastados sem motivo conhecido, e tentem arrancar destes mais alguns nomes a se procurar, com o perfil semelhante. Gente capaz e honesta que foi expurgada, sem que se saiba bem a razão. Ouçam histórias, consigam o que puderem de atas de reuniões, documentos, cartas. Tentem ir nas reuniões, aos encontros de veteranos de algumas batalhas perdidas das políticas públicas.”

 

( as palavras entre aspas acima são minhas, não de Elio Gaspari, sim?)

Ministros colhidos entre os dissidentes da máquina estatal, ou que contem com estes dissidentes como conselheiros e consultores. Um governo assim terá chances gigantescas de fazer uma verdadeira revolução no Brasil partindo da adoção de políticas públicas para os diverso setores da administração. Gabinete composto de gente que sabe o que deve ser feito e como deve ser feito. Burocratas experimentados nas armadilhas e sabotagens e que saberão orientar o governante a fazer muito em tempo razoável. Ou o que se deve evitar, a qualquer custo, seja qual for a hipótese.

Pois não se pode esquecer que o PT e seus associados um dia saberão assimilar lições e se recuperarão com o discurso reformulado. Não convém, pois, perder tempo com esforços de reinvenções da roda. Ganhar tempo, fazer o mais possível sem esquecer do relógio; experientes podem mais isso que bem intencionados sem calos obtidos na lida estatal, não?

Que observadores e formadores de opinião façam a parte que lhes cabe neste momento; cobrar de Bolsonaro o governo perfeito sem aconselhar com sabedoria é praticar sabotagem.

Todos nós, a partir de Janeiro, estaremos sob observação.

Bertolucci

Andei assistindo, em 2018, filmes do Bernardo Bertolucci, os que tenho em casa: “O Pequeno Buda”, “O Céu Que Nos Protege”, “O Último Imperador”.

O artista impressiona na releitura, rever “O Último Imperador” pela primeira vez desde que adolescente o vi no cinema (tenho o dvd há dez anos e vinha adiando a tarefa de rever, temeroso de decepções) foi uma sensação poderosa: o meu deslumbramento nada diminuiu. E em diversas passagens d'”O Pequeno Buda” e d”O Céu Que Nos Protege” me emocionei como da primeira vez que os assisti. Isto é arte cinematográfica, e o Mundo perde mais um artista nestes dias de estupidez do “politicamente correto” e da ditadura dos mortos vivos da casta acadêmica.

Bertolucci escorrega por vezes no “cinema de tese”? Sim. Mesmo numa obra prima como “O Último Imperador” o didatismo é perceptível. Na outra obra prima dele, “1900“, (o qual não revejo há anos) o didatismo socialista é irritante. Isto dito, reitero que são obras primas, cinema realizado por um artista exigente. Quantas passagens de “1900“ cinéfilos carregam na mente pela exuberância, pelo exercício de cinema épico?

Este seu talento fez com que fosse tão combatido, não o esquerdismo que não era exclusividade sua, diga-se. Fosse um cineasta medíocre, sem capacidade de produzir filmes memoráveis, as sátiras que inspirou em seus críticos teriam frutificado tanto?

Arnaldo Jabor escreveu há alguns anos que jamais perdoaram Bertolucci pelos Oscar, e pelo sucesso comercial.

Não, jamais perdoaram-no pelo talento. Pelo cinema belíssimo que cometeu.

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