“Notas” – 15/12/2018

Sobre escrever como combatente

“Sabe tudo isso aí? Este é o nosso inimigo, daí não podermos relaxar, entende?”

Eu me referia aos departamentos de Letras e o de Filosofia e Ciências Humanas, dois blocos de edificações interligados na UFMG- FAFICH e FALE.

Meu acompanhante parece ter entendido então minha pregação de algumas horas, nas quais eu falava, sem qualquer cansaço, das minhas reservas quanto ao que responde por Direita, no Brasil.

Foi numa dessas visitas ao campus. Em dias assim, minhas preocupações mostram-se mais agudas, falar do inimigo em seu território é diferente de falar dele na segurança de quilômetros de distância. Como quase nunca piso aquele chão, o sentimento de urgência foi maior; admito falar com interlocutores que me leem e escrever no blog sobre a casta acadêmica com certa frieza resignada.

Passando pela biblioteca da FAFICH não consegui não repetir uma vez mais que os inimigos da casta acadêmica deveriam montar acampamento ali; leitura e releitura dos clássicos do marxismo e do chamado pós -modernismo até que qualquer interlocutor adversário recue diante do que pareça uma autoridade máxima no assunto :

“Não vale citar ‘Decálogo de Lenin’ sem saber em que volume das Obras Completas de Lenin ele se encontra; sem a certeza dele constar nas referidas Obras que se proíba de citá-lo, compreende? Será tão difícil assimilar a necessidade de ser sério nesta guerra?”

Meu interlocutor perguntou que esta exigência teria a ver com minha “implicância” com redatores que escrevem “Mimimi” no lugar de queixas ou lamurias, e apontei então um grupo onde uma professora e alunos portavam livros e conferenciavam num semicírculo:

“Pode apostar que muitos aí, embora com pinta de maconheiro e jeito de quem despreza os clássicos, sabem da força dos termos utilizados com precisão e zombam, zombam mesmo, desta linguagem de rede social. Não se encontra em qualquer linha de Leon Trotsky concessão às simplificações da propaganda, e este “elitismo” do escritor é muito da sua força como revolucionário. Os bolcheviques desprezavam os populistas, pois aprenderam que as massas esperam quem as guie para o alto, e não que as lideranças intelectuais e políticas se misturem a elas. Esta mistura não dá às massas qualquer poder. Já os membros da massa que obtenham ascensão intelectual…”

Meu interlocutor vinha de me questionar, por email, sobre meu texto anterior, no qual eu me queixava de apoiadores do Jair Bolsonaro que não o apoiaram em um dia em que seus inimigos aproveitaram-se do episódio do assessor de seu filho para começar a promover o Terceiro Turno; eu, Pawwlow, estaria exigindo que estes ditos inimigos do PT escrevessem sobre algo a ser explicado? Como defenderiam Bolsonaro se ignoravam do que se tratava a acusação e se Bolsonaro era mesmo inocente?

“Vejam os nomes da direita brasileira que militam nas redes sociais e na imprensa; o bom-mocismo é o elemento distintivo e dominante. Formam o que os autores do vlog ‘Os Brasileirinhos’ qualificam de ‘Direita gravata borboleta’. Não são nomes que consigam alcançar os não convertidos ao Conservadorismo, ou ao Liberalismo. Têm alcance mais restrito até que muito blogueiro do PT que conta com o público cativo da casta acadêmica e dos chamados movimentos sociais, pois ambos segmentos sociais ramificam-se, por contato, com conexões com a massa ainda não convertida a nenhum dos dois lados da disputa pelo Poder. Já os tais direitistas dirigem-se quase que apenas aos segmentos da classe média já ligados, ainda que por tradição, ao que se conhece como Direita. Escrevem textos insossos, indistinguíveis uns dos outros. Abusam de termos como ‘Mimimi’, e confiam na eficácia dos memes. Claro que gente assim, ao primeiro coro denuncista contra Bolsonaro sacaria do bolso do colete a frase ‘não tenho bandido de estimação’.”

E deveriam ter?

“Não, não deveriam. Mas lembro de minha avó materna e sua observação do que presenciara na Polônia arrasada por ocupações – dos alemães e dos russos: ‘Na guerra, se vê quem é quem.’ Do assessor, passaram a acusar Bolsonaro de corrupto e retiraram da gaveta do necrotério – pois provaram não a ter sepultado- a tese do atentado forjado. E não pararam mais. Bolsonaro e filhos erraram na demora da resposta? Claro que sim, mas não contaram com o apoio dos que deveriam exigir que estes acusadores se contivessem ou apresentassem as provas. Alegar desconhecimento não vale, quando o líder ao qual se supõe apoiar sofre um dia de ataques que transbordam da acusação inicial. Não é preciso saber do grau do envolvimento de Bolsonaro com este caso do assessor para esboçar alguma defesa. Isto não é espírito de gladiador de arquibancada,mas de intelectual com algum posicionamento, Estes direitistas faltaram ao líder ao qual deveriam ter o mínimo de lealdade que uma guerra exige – e que blogueiros petistas mostram ter a Lula, e isto é mérito, sim – e respeito ao público que conseguem por posarem de direitistas. Toda a fama e espaço que desfrutam são frutos deste pretenso direitismo. Ou você acredita que estes camaradas isolados de movimentos teriam leitores fiéis com o texto morno que apresentam? Você me perguntou outro dia por que não os menciono pelo nome; ora, são todos iguais, homenagear um com a citação nominal seria injusto.”

Quase na saída da Av. Antônio Carlos, meu interlocutor observou que poderiam me acusar de escrever provocado por inveja, e de covarde, por dar “indiretas”…

“Não dou nomes, pois como disse, citar um só seria injusto; nunca conseguiria adivinhar o autor de um texto desta gente, caso não visse o nome no alto da página. E citar nomes também poderia me render acusação de querer fazer nome através de guerrinhas com as estrelas da ‘Nova Direita’. Também nunca citam o meu, talvez por não saberem quem sou,rs, rs… Quanto a ter inveja do dinheiro e da fama destes caras… qualquer um é livre para me julgar como quiser. Penso que um escritor – ou figura pública graças a qualquer modalidade intelectual- atinge seu ponto mais baixo quando seu único argumento é : ‘Venci na vida, você me critica por recalque’ .”

Os prédios que abrigam os laboratórios de monstruosidades nos observavam, graves. Meu interlocutor pediu, como despedida, que eu explicasse o que eu dissera em conversa anterior, sobre ‘escrever como um combatente’. Que seria este combate com caneta esferográfica e papel?

“Combate-se primeiro consigo próprio; internet e outras distrações causam, dia depois de dia, micro deserções das nossas batalhas. Como te contei uma vez -e escrevi no blog – certa vez vi uma prostituta na zona que não descuidava do livro didático e do caderno entre cliente e outro. Isto é alma guerreira. Bom, combate-se depois com o temor do que dirão os círculos sociais, os íntimos e os mais amplos. Ser exigente consigo; ler, e reler. Anotar e destas anotações tecer enredos mentais onde os personagens são o escritor e o mundo inimigo. Ter na mente a certeza que escritor não combatente é um beletrista apenas, um personagem de telenovela de época, um animador de salão de grã finos…”

Eu segui o caminho que vai dar no centro da cidade enquanto meu interlocutor, talvez cansado, retornou ao ventre da Academia. Quem sabe buscando alguma biblioteca…

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