“Notas” – 23/12/2018

Sobre a morte de jornais e revistas

“Jornais e revistas morrem antes de morrer” . Quem o disse?

Os órgãos de comunicação costumam ter sua vida contada desde a fundação até a declaração de insolvência, mas considero este cálculo impreciso e equivocado; leitores desertam antes dos anunciantes e estes antes do avanço dos banqueiros ansiosos por cobrar dívidas.

Conheci jornalista veterano que presenciara decadência de dois órgãos de comunicação e ele me garantiu que pouca coisa é mais nociva que a figura do herdeiro. O sujeito tem nas mãos algo que ele não julga precioso e sim um ativo a ser comercializado. Quando o ativo é acompanhado de passivos (dívidas), a ordem é fazer de tudo para se livrar o mais rápido possível da carga. Onde aqui os Luce, os Ochs- Sulzberger? Talvez os Mesquita, os Marinho, mas…

O episódio do anúncio da venda da Ed.Abril a um advogado do mundo dos negócios me trouxe, uma vez mais, reflexões sobre a vida útil dos jornais e revistas, no Brasil. O que aconteceu à Abril não mereceu um gemido, um ai! Quem duvidava do fim próximo desta empresa que já foi enorme? Escrevi sobre este fim quando foi anunciada (post publicado no 02/09/2018) a recuperação judicial da empresa:

“Ed Abril respirando por aparelhos surpreendeu a quem? (…) Uma a uma as revistas sofreram ‘reformulações’, o que leitores experientes e observadores sabem ser diminuição de páginas e matérias sumárias mirando em um ‘público alvo de leitores médios’, que seria fornecido por pesquisas…”

Estas “reformulações” mataram, uma a uma, as revistas. Onde os responsáveis? Lembro de Paulo Francis (no volume de memórias “O Afeto Que se Encerra”) e Helio Fernandes (em entrevista ao Sebastião Nery para a “Status” em, se não me engano, 1978) comentando o que foi trabalhar na “Revista da Semana” na década de 1950, a qual fazia parte de um grupo de revistas (dentre elas, “TicoTico” e “Cena Muda”), que foram sendo mortas pelo que ambos jornalistas consideravam mesquinharias econômicas do dono. Isto (economia mesquinha e administração ruinosa), portanto, é antigo entre os donos de revistas.

E de jornais também. Leiam o que Mario Sergio Conti conta da administração do “Jornal do Brasil” do final dos anos ‘70 até o final dos anos ‘80, no “Memórias do Planalto”. Ou as linhas dedicadas à administração do “Correio da Manhã” no período após a morte do proprietário, Paulo Bittencourt, em um dos livros de Elio Gaspari, da série sobre a Ditadura. Gaspari nega que apenas a perseguição dos militares tenha sido a causa do morte de um dos mais importantes jornais da história do Brasil.

E quanto minha geração deveu à Abril…

O que muitos de idade próxima da minha sabem sobre MPB deve-se à série de fascículos (contendo ensaios – biográfico e introdutório ao universo do homenageado – ilustrados com fotos) de “História da Música Popular Brasileira”, os quais vinham acompanhados de um disco, de gravações de vários intérpretes (colhidas de álbuns já lançados), de canções de autoria do compositor-tema do fascículo. Ou sobre  literatura de língua portuguesa, a série “Literatura Comentada” (minha mãe tinha quase todos, comprados em bancas), com fascículos em forma de livros que continham breve biografia do autor-tema, mais trechos de obras, mais algum ensaio sobre a obra, e mais outro sobre o contexto histórico. Três de minhas fixações conheci por tais fascículos: Millôr Fernandes, Dalton Trevisan e Nelson Rodrigues. E tantos outros que reli a ponto de desfigurar os tais livrinhos.

A “Realidade” só li em bibliotecas, e deste contato, só carreguei motivos para lamentar sua extinção, e a “Veja” li muitos números antigos em bibliotecas. Ah, a “Veja”…descobri-a quase ao mesmo tempo das tais coleções sobre MPB e sobre literatura. Foi uma fixação que enfraqueceu-se ao correr dos últimos quinze, vinte anos.
O tal jornalista veterano que citei acima achava graça na minha memória e na minha capacidade de estabelecer diferenças entre o estilo dos três primeiros diretores da publicação.

Mas é assim que funciona a mente de um apaixonado por um assunto: as particularidades e os pontos de curva de um determinado objeto, imperceptíveis ao observador trivial, são, ao observador intenso, descritíveis à exaustão. Torna-se, este apaixonado, este observador obsessivo, um excêntrico, um chato.

Esta mesma obsessão alimentei pela revista “Playboy”, sobre a qual já dediquei uns dois ou três textos. Os ensaios das mulheres enlouquecedoras, os trechos de livros em lançamento, as entrevistas longas e reveladoras (as que mais me lembro são as que tem como entrevistador Ruy Castro), as entrevistas mais curtas (também um exercício jornalístico dos mais interessantes,pois exigentes – tanto ao entrevistado quanto ao repórter) e reportagens especiais; a revista foi perdendo, ano depois de ano, substância em cada um destes itens, até morrer sem muito choro dos leitores que a viam agonizar.

As revistas “Veja” e “Playboy” vinham morrendo por uma queda de exigência dos editores. Simples. Reportagens longas? “Quem precisa disto?” Entrevistas de mais de dez páginas? “Quem lê isso tudo hoje em dia?” Para qual leitor estes editores imaginavam estar trabalhando? Ora, o leitor verdadeiro, o que tem a leitura por “cachaça”, quer mais e mais páginas e mais e mais texto.

Descuidou-se também do papel formador que estas publicações têm a cumprir; a classe média temerosa da recente possível soltura de Lula não deve muito deste terror (“Lula solto…já passou”) a uma imprensa que fixou-se mais em escândalos que na desmontagem da mitificação de seu governo? Tivesse esta imprensa mostrado às massas o que era, na verdade, o governo do PT, seria Lula o temeroso da liberdade das ruas.

Ou na formação do leitor quanto à linguagem; por que ler e /ou assinar uma publicação que recruta redatores que expressam-se na linguagem das redes sociais (inferior em inventividade e graça à linguagem de porta de banheiro público)? Ora, que se leia blogs de graça ou assista-se aos vlogs; o ganho é o mesmo, se não maior. Redatores talentosos e consagrados não veem por que lutar contra o que parece ser assunto dos donos e acomodam-se ao novo quadro de mediocridade premiada. E assim o corpo sangra até a gota derradeira.

Caso a venda da Abril se concretize (ou seja, se os bancos aceitarem os termos do acordo) duvido muito da recuperação da credibilidade e do público. “Vinho novo em odre velho”, quem não conhece a parábola? Títulos de outras publicações que voltaram não fizeram estas ser as mesmas de outros dias, sabemos todos. Não adianta, por exemplo, ter “Status” na capa e dentro dela não haver o time de redatores e colaboradores da publicação original, ou o “Jornal do Brasil” sem a equipe que fez do jornal um ponto de referência…

O que acontece com a Abril neste momento serve como (mais um) exemplo a ser estudado.

X

Que os leitores celebrem com as pessoas que amam este Natal. Ainda que sejam ateus, que encontrem neste momento de mesa farta um intervalo para reflexões.

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