“Notas” – 30/12/2018

Sobre Tom Wolfe – uma grande perda em 2018

Este ano (no mês de Dezembro) o “FERNANDO PAWWLOW-CADERNOS” completou dez anos; claro que intervalos de meses sem postar e meses com uma só postagem semanal  deram ao blog apenas 409 postagens (contando com esta). Há certa coerência temática: o papel e a responsabilidade dos intelectuais atuantes na imprensa na luta política; a memória da imprensa; a contestação do domínio da casta acadêmica. Mesmo quando tratei de telenovelas, era sobre estes eixos temáticos que refletia. Não acredito em democracia de leitores que não leem, inspirados por jornalistas que pregam a desistência dos combates como forma última de bom-senso. Democracia sem fricções é a tirania dos que ganharam a partida por W.O. Intelectuais verdadeiros, penso, estragam os festejos dos vitoriosos.

Um dos maiores intelectuais das últimas décadas, especialista em satirizar o bom mocismo da vida intelectual norte-americana, submissa à casta acadêmica, foi retirado pela morte, do campo de batalha em 2018: Tom Wolfe.

Como tantos brasileiros, soube de Tom Wolfe por ocasião do lançamento de “A Fogueira das Vaidades”, que no Brasil teve edição simultânea (ou quase) ao lançamento. Do quadro de Paulo Francis falando do livro no “Jornal da Globo”, lembro da frase de encerramento: “Tudo que você sempre quis saber sobre Nova York mas tinha vergonha de perguntar.”A edição brasileira (se não me engano pela Rocco, que lançou alguns outros de seus livros depois) tinha prefácio, excelente, do mesmo Paulo Francis.

Deste ponto em diante, Wolfe virou moda entre os intelectuais brasileiros. A L& PM lançou a coletânea “Décadas Púrpuras” (excertos de seus livros de crônicas e reportagens mais conhecidos ) e salvo engano, a Rocco lançou um livro onde dois dos ensaios publicados pela coletânea da L& PM aparecem na íntegra, um deles o que mais fora celebrado quando do lançamento de “Décadas Púrpuras”: “Estas Noites Radical Chic”.

Este ensaio, ou reportagem, é o retrato quase balzaqueano dos salões chiques de Nova York onde milionários do mundo do jornalismo e dos espetáculos praticavam esquerdismo de grife. Wolfe dá mostra neste texto de sua capacidade maior: a de mergulhar na origens dos fenômenos que satiriza. Vasculhou na História e descobriu que o fenômeno vem dos salões franceses onde nobres e avizinhados exercitavam a nostalgia de uma rudeza primordial; esta rudeza sendo apresentada com os requintes da aristocracia. Era uma espécie de boemia intelectual de cunho ritualístico, onde nobres buscavam o sentido do luxo na negação (ainda que estilizada) deste luxo. Um sentimentalismo de classe. Sem a arqueologia deste sentimento, teria-se apenas registro de gente hipócrita e pitoresca.

O radical chic teve seus palcos brasileiros: bares do Rio de Janeiro inacessíveis ao “meu povo,meu povo”, a casa de Chico Buarque onde esquerdistas faziam suas reuniões. Hoje este templo máximo no Brasil é o apartamento de Caetano Veloso e Paula Lavigne, chão de reuniões do “Pós-PT”.

Onde um Wolfe entre nós para estabelecer paralelos entre estes salões de gente chique e letrada de agora com os do Império? Sem simplificações, sem tentativas de sátira que traem o ressentimento de não pertencer a esta casta?

O mesmo se dá no texto onde Wolfe apresenta a “febre confessional” que queimou a casta acadêmica (em seus braços no mundo dos espetáculos e por extensão no modo de viver da classe média) na década de ‘70: “ A Década do Eu”. Os grandes encontros onde dezenas, centenas e mesmo milhares de pessoas reuniam-se para praticar uma espécie de psicanálise grupal, onde não se admitia qualquer censura ao que necessitasse ser exteriorizado, ainda que tal necessidade fosse, claro, subjetiva. Wolfe viu nesta mania das megacatarses grupais uma volta dos cultos protestantes dos séc.dezoito e dezenove dos Estados Unidos, onde a pessoa devia exorcizar seus demônios em público.

Tanto no tal ensaio sobre os esquerdistas chiques buscando experiências quase místicas celebrando a extrema Esquerda das ruas (no caso , os “Black Panthers”) quanto no ensaio sobre as megaconvenções de uso grupal de drogas e “encontros de sensibilização”, Wolfe não apenas buscou a genealogia dos fenômenos como soube ler os mesmos fenômenos em diversas manifestações do seu tempo. E com estes recursos, a sátira tornava-se muito poderosa, muito difícil de ser dispensada com alguma acusação de que o autor era conduzido por preconceitos estúpidos diante do “Novo”.

Os ensaios onde expõe o mundo das artes plásticas, onde valores são estabelecidos na esquina onde fortunas encontram-se com intelectuais de gabinete e seus associados na imprensa, também são saborosos. Wolfe mergulha no universo dos marchands, dos apreciadores – sérios ou aventureiros –  e do mundo da moda. É o mundo dos artistas que realizam “conceitos”. Quadros que exigem páginas e mais páginas para sua apreciação.

Ou a arquitetura adotada sem filtro algum,pois como questionar e confrontar o que Wolfe chama de “deuses brancos”, os professores vindos do Velho Mundo e adotados com deslumbramento pelos americanos colonizados (da casta acadêmica,claro) por tudo que venha da Europa? As descrições dos edifícios por Wolfe e a narrativa da recepção dos tais “mestres” diz mais que mil teses.

Wolfe foi penetrante como poucos ao identificar um dos meios pelo qual a casta acadêmica anexou a vida cultural americana: escritores oferecem recepções em seus apartamentos (apartamentos cuja decoração é também alvo de cuidados quanto à sofisticação), buscam vestir-se no rigor dos alfaiates de nome, sustentam a obrigação das viagens anuais à Europa, e isto tudo custa muito dinheiro. Dinheiro que começou a ter como fonte, no final da década de ‘60 em diante (parece que o auge foi na década de ‘70), o circuito das grandes universidades. Palestras onde o escritor seria confrontado por hordas de esquerdistas de gabinete e da massa estudantil começaram a domar muito do imaginário dos escritores. Em uma que participou ao lado de Günter Grass, Wolfe testemunhou oradores denunciando a vinda dos fascistas e a observação de alguém como Grass que sabia bem (hoje sabe-se que ele sabia bem até demais) sobre fascismo: “Aqui os fascistas são muito lentos”.

E, no entanto, como recusar debater neste meio e manter o status?

A casta acadêmica impondo-se como maioria ruidosa e como fonte de dinheiro.

Acrescento: como catraca que separa e determina quem pode viver do intelecto e quem deve buscar outras formas de sustento, sobretudo trabalho braçal. Nos Estados Unidos essa diferença é também grande, mas menos feroz que no Brasil. Mesmo porque o culto ao diploma e ao “Doutor” é menor que aqui e lá não há obrigatoriedade de diploma para ser jornalista e outras atividades que têm outros meios de controle do exercício da profissão.

A casta acadêmica,logo, impõe-se sempre por alguma espécie de força, não pela superioridade intelectual de seus membros.

E daí a obrigação do intelectual de verdade combatê-la sem medir esforços e sem calcular perdas. Não se presenteando com o direito ao erro, sobretudo.

Eles, os donos do Poder neste mundo, podem escrever mal,não seus inimigos. Eles, os que determinam quem pode ou não dar aulas, ser jornalista ou mesmo ser considerado um intelectual,podem escrever sem cuidados com a estética, não quem se apresenta como inimigo. Daí minha birra com quem escreve “mimimi” no lugar de lamúria ou queixa.

E é por esta tábua de exigências que lamento quando Wolfe atenua, quando não anula por completo, suas sátiras com onomatopeias e ênfases- “as ênfases!!!”- e sinais gráficos que lotam seus textos. Depois de descrições cortantes de pessoas,vestuários, decorações, etc, estes recursos funcionam como discos de risadas em programas humorísticos. Não reforçam a graça, tornam o texto infantiloide e de fácil demolição.

E ainda assim, a morte de Wolfe foi perda enorme. Foi um combatente, um escritor que não economizava energia no mergulho dos assuntos, fossem corridas de carros no interior dos Estados Unidos ou excursões psicodélicas.

Caso a casta acadêmica um dia caia do Poder, e ela seja apenas uma piada fixada na mente da maioria, quem contra ela combateu merecerá todas as honras. Tom Wolfe terá, sem qualquer dúvida, lugar neste panteão.

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Que os leitores e amigos tenham um 2019 produtivo! Abraço do Pawwlow

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