“Notas” – 05/01/2019

Sobre a posse de Jair Bolsonaro

“Foi uma posse histórica.”

Bom, qual posse presidencial não o é? Penso que mesmo posse de ditadores ou “presidentes” eleitos por colégio eleitoral o sejam; alguma aptidão a pessoa necessita ter (ou aparentar ter) para subir as escadarias dos palácios como ocupante temporário.

Tenho idade para me lembrar das posses da Presidência desde José Sarney; lembro parentes concordando com o clima de velório da cerimônia, pois acompanharam a eleição pelo Colégio Eleitoral (lembro de minha mãe acordando a mim e ao meu irmão, ambos pré -adolescentes) e sentiram que a História havia trapaceado.

Cinco anos depois, a posse de Fernando Collor; houve certa euforia, mas o comportamento altivo do ex-Governador de Alagoas não permitiu exteriorizações de euforia. As trocas de ofensas entre o presidente que entrava e o que saía também não deixou de apresentar o preço da troca de sorriso engessados na observação estrita da gentileza obrigatória mínima.

Foi o Plano Real muito mais que Fernando Henrique Cardoso a estrela da posse, e não consigo me lembrar de comoções populares. Um sujeito simpático sim, mas a massa não parecia vibrar com sua figura recebendo a faixa do presidente anterior, Itamar Franco (confesso não lembrar da posse do vice de Collor), uma vez que ele estava, desde o Plano Real, já com os dois pés no Palácio. E presidente eleito da situação parece não comover tanto, parece. Não foi o fim de grandes batalhas políticas.

Lula? Lula sim. Era um ex-operário e um dirigente partidário de Oposição, recebendo a faixa depois de anos de militância política e três eleições das quais saíra derrotado. Mesmo os que não votaram nele notaram a História já debruçada sobre o desfile diante da Guarda, o carro empurrado, lembram? E Lula é, sem dúvida, político com alto poder de comunicação. Repito: mesmo eleitores da candidatura derrotada não conseguiram negar a evidência histórica daquele momento. O que veio depois….veio depois.

Ora,ora, Pawwlow, Dilma Rousseff também teve posse memorável?

Bom, que vocês dizem sobre a primeira presidente eleita, desfilando não com o Primeiro – Cavalheiro, mas com sua filha? Como escrevi sobre Lula no parágrafo acima: o que veio depois…veio depois. Negar a História é tolice. Foi sim um dia memorável, sou dos que consideram Dilma Rousseff mais nociva quando calada,não quando legando suas declarações sem dúvida inspiradas – e já imortalizadas – pelo espírito da graça involuntária.

(E aproveito para repetir aqui o que já escrevi em textos anteriores: ela e seu antecessor são menos culpados pelo que fizeram ao Brasil que a incompetência e desinteresse da Imprensa dita de Oposição.)

A posse da Jair Bolsonaro foi a que mais me comoveu, das que assisti. Um homem ainda por se recuperar por completo de um atentado sendo recebido pelos gritos de população ainda mais animada que a da posse de Lula; não me pareceram todos loiros com camiseta da seleção brasileira, ou turistas vindos dos bairros nobres de São Paulo e Rio de Janeiro.

As palavras ditas no Congresso Nacional (sob a vista de dois ex-presidentes, José Sarney e Fernando Collor) e no Parlatório podem não ser destinadas a integrar antologias de oratória, mas me pareceram sinceras e coerentes com as palavras ditas em anos como combatente e em meses de campanha. E isto merece o respeito. Nem escrevo sobre o tom firme e o olhar repleto de convicção.

Pois é de convicções que se fez esta campanha. Não de maquiagens retóricas executadas por marqueteiros ou conselheiros do mundo jornalístico. Houve um sujeito dizendo:  “Não importa o que digam os formadores de opinião, mas há muita coisa a se mudar no Brasil. Precisamos, rever, e com urgência, muitos dogmas.” E houve milhões respondendo: “Também pensamos assim. Conte conosco.”

E daí talvez o gesto de Bolsonaro que apontava a faixa presidencial e dela apontava a massa; esta faixa, pareceu-me querer dizer Bolsonaro, é de você que comprou briga na sua comunidade, que não se intimidou na escola ou na faculdade, que perdeu amizades, ou mesmo namorada(o) s. A faixa é também, arrisco-me a interpretar o gesto do Presidente, de todos vocês que confiaram nos seus olhos e ouvidos e viram o quanto estes estavam negando o que formadores de opinião, sintonizados com a casta acadêmica (por formados por ela), repetiam sem cansaço durante os últimos anos.

Houve uma comunhão mental entre este homem e seus eleitores, talvez nunca vista na História do Brasil. Uma simbiose, se preferirem. E daí este gesto da faixa presidencial parecer nada demagógico, nada teatral.

Lembro de diálogos na fila do ônibus; brancos com toda pinta de universitários caprichando na expressão de nojo quando informados pelo alarido das vozes (vozes de negros em roupas de trabalho pesado, nada perfumados ou elegantes) sobre a preferência eleitoral majoritária daquele meio social. Filas que sempre ofereciam, a quem quisesse ouvir, narrativas sobre trabalhadores assaltados, na presença de filhos, na chegada do dia de trabalho duro, pesado, impiedoso. Um destes trabalhadores negros comenta com seu colega de banco de ônibus, na sexta-feira anterior ao Primeiro Turno :

“E Domingo, hein? Vou de Bolsonaro. Eu e todo mundo da minha casa”. O colega de banco de ônibus diz ser este o placar pré-eleitoral também em sua casa.

No corredor oposto do ônibus, universitário típico, afrouxa o colarinho enquanto faz careta.
E o negro retoma, agora quase gritando:

“O negócio é votar no Bolsonaro mesmo… Bolsonaro na veia.”

É isso aí!

Notei em Fernando Collor olhar que me pareceu dizer:

“Bolsonaro, não cometa os erros que cometi, não desperdice chances.”

Ah! A Primeira Dama Michelle Bolsonaro…seu encanto natural não poderia deixar de ofender. Sua espontaneidade parece fora de dúvida quando a assistimos observando o intérprete da linguagem de sinais vertendo o Hino Nacional aos deficientes. Não me pareceu pessoa que trabalha seguindo manuais de etiquetas e poses. Daí tomar a iniciativa de discursar antes do marido em linguagem de sinais, daí o beijo na boca do marido, daí o sorriso. E daí seu carisma. E…daí os ataques. Querem saber o que penso? Ela tirará de letra estes recalcados.

Pena que os petistas tenham ofuscado com seus atos as belas recepções que a massa oferece aos vencedores e que ofereceu a eles. Repito: foram sim belas posses, dias memoráveis mesmo. Lula e Dilma Rousseff receberam carinho e reconhecimento do que suas figuras tinham de particular em uma posse presidencial.
Que eles desperdiçaram sem dó dos que neles depositaram expectativas.

E tentam agora diminuir uma bela posse na lógica pequena de que isto serve como posição política. Não, não serve. A massa que, como pareceu dizer Bolsonaro no gesto da faixa, também tomou posse, percebe o desprezo, e tende a devolver o desprezo com mais desprezo.

Que Bolsonaro não se deixe afastar dos seus irmãos de vitória por conselhos dos apóstolos da pacificação pelo alto, são os meus votos.

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