“Notas” – 12/01/2019

Sobre algo bem pior

Jair Bolsonaro em evento recente advertiu sobre o perigo de seu governo errar “e voltar vocês sabem quem”. Parece não ser esta a primeira vez que adverte sobre este perigo.

Não, não acredito que o PT volte; o PT perdeu votos mesmo no território social que julgava seu: as classes mais baixas, que seriam, pelo cálculo que foi possível presumir, beneficiário de políticas sociais (na verdade, alguns programas assistenciais) e gratas pela eternidade ao Partido. Esqueceram (estes estrategistas de gabinete) que mesmo estas classes sofrem com a criminalidade e com a educação pública de qualidade nula. O PT parece ter perdido de vez os grandes centros.

Mas o “Pós-PT” não sofreu este desgaste. A coligação de forças (que incluiria o próprio PT, não mais como a vedete-chefe da companhia) da Esquerda (ou campo dito progressista, ou dito democrático) saberá capitalizar os setores insatisfeitos que poderão surgir, alegando não ter sido Governo e portanto, ter algo a oferecer. A eleição de Alexandre Kalil para a prefeitura de Belo Horizonte em 2016 mostra que o “Pós-PT” (o vice era, ou ainda é, da “Rede”) tem força nos grandes centros e não sofreu associação na mente da massa com o PT.

Vejo o PC do B como o carro-forte desta composição; movimentos ditos sociais e pequenas legendas da Esquerda foram quase que por completo anexados; o PC do B não descuida da formação de quadros, de seus institutos. De partido que era há vinte anos quase que dedicado ao dito movimento estudantil, vem ao longo destes anos transcendendo este limite, muito mais que o PT. Nada de filiações em massa de indivíduos, a operação mira lideranças. Mesmo quando tentou-se a candidatura controversa de Senhorita Andreza à Câmara Municipal de Belém do Pará, o objetivo era fixar lideranças, ainda que lideranças folclóricas. O mesmo se dá com candidaturas ligadas ao movimento de “profissionais do sexo”. Ainda que em muitos casos o resultado eleitoral não tenha sido bem sucedido, a ocupação de espaços no chamado lúmpen é algo a se considerar na luta política de médio e longo prazos. Mostra que o “Pós-PT” através de seu braço mais musculoso não está dormindo, ou resignado em prostração. Sem falar de movimentos de “sem-teto” e dos movimentos de “minorias”. O “Pós-PT” não descansa.

Vejo na Direita uma tendência ao descanso, ao repouso após a batalha de 2018, e a guerra sequer começou. Vejam que setores ainda insistem na “farsa do atentado”. Quem processa? Quem defende o governo recém-empossado com a energia que a Esquerda se defenderia fosse ela a vítima de um atentado e vítima de acusações de fraude do atentado?

Não noto nos vitoriosos de hoje a preocupação que seria fruto do raciocínio “Fosse eu a Oposição que faria para dificultar a vida destes sujeitos?”

Acusações sem respostas conclusivas, desencontros entre o Presidente e ministros; isso no primeiro mês ainda não machuca tanto, mas, e se em um ano a coisa permanecer errática? Capital político desperdiça-se nesta confiança demasiada na fidelidade do eleitor.

Incomoda-me esta Direita pró-Estados Unidos e pró-Israel; a massa que votou em Jair Bolsonaro não é toda assim, muitos que votaram no presidente atual tem no Brasil sua preocupação-limite. O Brasil tem suas guerras internas a vencer e nenhum país deve devotar alinhamento automático a outro.

Lembro passagem de “Veil”, livro de Bob Woodward que trata da CIA no período Ronald Reagan, onde o embaixador da Arábia Saudita nos Estados Unidos, Príncipe Bandar, recebe advertência do Reino sobre excessivo alinhamento, na qual eram lembradas passagens então recentes onde o interesse dos Estados Unidos e da Arábia Saudita não coincidiram.

Países têm suas questões de contato com países de sua influência e suas questões isoladas e o novo Governo do Brasil terá que discernir entre as naturezas destas questões.

Israel é questão que não diz respeito aos brasileiros. Os advogados deste alinhamento do Brasil invocam o exemplo de Osvaldo Aranha e seu voto na ONU por Israel.

Cito Carlos Lacerda:

“A minha tese era da abstenção (…) Eu achava que o Brasil deveria se poupar, porque não tendo ou não podendo ser suspeitado de intuitos imperialistas, poderia futuramente até ser usado como um dos intermediários possíveis entre partes litigantes, ao passo que, tomando partido, teria que sustentar o seu voto pelo resto da vida.”

Lacerda conta que o Min.das Relações Exteriores, Raul Fernandes, chamou-o ao Itamaraty e mostrou-lhe as instruções dadas ao embaixador do Brasil na ONU, Osvaldo Aranha: “Na questão da Palestina deveis abster-vos de votar.”

Continua Lacerda:

“Mas o fato é que o Osvaldo, envolvido pelo New York Times, envolvido pelo clima muito pró-judaico de Nova York, envolvido enfim por uma série de coisas, tornou-se assim, um dos heróis da nação israelita, porque mudou o voto do Brasil”

(“Depoimento”, Carlos Lacerda, pág.97. terceira edição, Nova Fronteira)

Logo…alegar o “papel do Brasil como fiador de Israel” como pretexto para comprar briga que não tem conosco qualquer ponto de contato…

Venezuela é briga nossa, não Israel.

Há o esforço de caracterizar qualquer crítico de Israel como esquerdista, e no Brasil esta nova Direita esquece, quando não ignora, os textos publicados na revista “Manchete” (a qual era pró-Israel) de crítica perfurante a Israel, de David Nasser. Seria David Nasser um esquerdista, no julgamento destas direitas colonizadas?

Há muito a se fazer para atender país que escolheu Bolsonaro para cuidar das coisas do País. Estes eleitores são os responsáveis pela vitória de Bolsonaro, não lideres religiosos ou líderes de segmentos político-intelectuais.

Como escrevi semana passada:

“Houve um sujeito dizendo: ‘Não importa o que digam os formadores de opinião, mas há muita coisa a se mudar no Brasil. Precisamos, rever, e com urgência, muitos dogmas.’ E houve milhões respondendo: ‘Também pensamos assim. Conte conosco.'”

Há que atentar para o uso de citações tortas e dos termos inexatos. Há que se pensar, como compensação às políticas amargas de recuperação econômica, em programas sociais que apaguem das massas qualquer saudade do PT, enterrando assim qualquer avanço do “Pós-PT”. Há que trabalhar mais e reduzir o folclore ao mínimo.Há que mirar com precisão no poder da casta acadêmica. E o Governo verá que não sobrará tempo para adotar agendas alheias, com base em ideologias .

Pois algo bem pior poderá surgir aos que temem a volta do PT.

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