“Notas” – 26/01/2019

Sobre meu “pessimismo”

“Você viu as entrevistas do Flávio Bolsonaro durante a semana? Agora está esclarecido, só os que estão agindo de má-fé continuarão atacando; as pessoas vão perceber… olha não embarco no seu pessimismo. Você também me disse, no nosso último encontro, que se houvesse Direita que não  uns grupinhos de palhaços, Dilma Rousseff não estaria eleita para o Senado. E ela não se elegeu.”

Assim fui cobrado por um amigo e leitor do blog, no Centro. Estávamos próximos ao Ed. Acaiaca, o que exibe em sua fachada os dois índios que populares dizem ter o nariz escorrendo. Reputado como o edifício mais alto da cidade.

“Vê ali o Acaiaca? Edifício planejado, construído durante a Guerra. Até abrigo antiaéreo ele possui. O construtor não se agarrou a qualquer forma de otimismo que aconselhasse não gastar com uma possibilidade apenas remota de um ataque. A Guerra terminou, e ele está aí até hoje, como exemplo de algo bonito e bem feito. E que funciona; seus elevadores, garantem os admiradores do Acaiaca, viajam a 20km/h. Quantos edifícios mais recentes que ele desmoronam em decadência e feiura? O Poder é como um edifício planejado durante a Guerra. A derrota de Dilma Rousseff foi uma surpresa feliz, que poderia não ter havido; institutos de pesquisas davam-na como eleita. Não se calcula Poder por viradas eleitorais, ou pelas possibilidades infinitesimais de cálculo. Nem edifícios calculam-se assim. Bolsonaro ganhou a eleição presidencial e em menos de um mês está nas cordas.”

Lembro hoje deste diálogo de dois dias atrás. Todo o edifício do Governo Bolsonaro parece ter sido erguido sob a pressa eleitoral, com um punhado de sorte e noventa por cento de improvisação. Ganhou muito pelos erros do esquema de Poder do PT e associados, e assim mesmo com menos votos do que esperava (ainda que contando as reclamações de fraudes). Hoje exibe surpresa diante da orquestra e coral afinados nos ataques diários, com atualizações quase que por minuto. Esperava a trégua depois dos votos contados?

Escrevi no blog sobre a demora de cerca de quarenta e oito horas para responder às acusações sobre o ex-assessor; este intervalo de tempo teve na internet seu prazo de execução pública dos Bolsonaros. Não é difícil imaginar que a assessoria de imprensa,ainda que informal, da família do Presidente sofreu um golpe. Um “tilt”, como diriam os apaixonados por jogos eletrônicos. Tilt do qual parece vir se recuperando com a velocidade de um cágado reumático. Onde os tweets e vídeos atualizados ao menos de hora em hora?

Os inimigos do Governo Bolsonaro não parecem cansados de atualizar seus ataques.

Assisti as entrevistas do Flávio Bolsonaro durante a semana e a única conclusão à qual cheguei é que nelas falta o tom furioso da vítima de uma injustiça.

A melhor delas rendeu alguma coisa por conta do entrevistador, Boris Casoy. Este insistiu em apontar um erro cometido pelo entrevistado: a demora em responder aos ataques. Flávio Bolsonaro agarrava-se à lógica de que a imprensa não era a instância legal para sua defesa, ao que o jornalista lembrou-lhe que talvez não fosse mesmo a instância legal, mas era o meio adequado de se dirigir à massa. Documentos à mão (como os exibidos pelo Senador eleito) dizem pouco quando o ataque à imagem é reiterado dia depois de dia, minuto depois de minuto. Boris Casoy foi correto, e o que teve de incisivo teve de honesto nas perguntas. Não houve “pegadinhas” ou tentativas de confronto.

Quem aconselhará Flávio Bolsonaro? Algum advogado sem dúvida conhecedor de leis, mas ignorante de Política? Algum jornalista da escola “Não dê confiança, não responda provocações”, do tipo que orientou a então Oposição ao PT?

Pois não faltam jornalistas que deveriam assinar-se “Fulano É Isso Que Eles Querem Que Você Faça de Tal” ; não duvido que, a cada entrevista dessas do Flávio Bolsonaro que convenceram apenas a quem estava convencido de sua inocência, tenham telefonado a ele com a avaliação: “Ma-ra-vi-lha!!!”

Com amigos, aliados ou apoiadores (preciso escrever que de ocasião? onde muitos destes novos amigos há poucos anos?) do tipo, ninguém precisa fazer inimigos ou opositores.

O que noto é que os Bolsonaros estão assustados com a fúria das redes sociais inimigas; onde os conselheiros políticos que não os advertiram que com eles não haveria lua-de mel?
O ânimo de combate parece ter se esgotado com a eleição, e com a eleição a guerra apenas teve início. Não os advertiram de nada,nada.

Acusam Olavo de Carvalho de funcionar como guru da família Bolsonaro, mas suspeito que a família ouve muito mais os cientistas políticos improvisados que o autor de “O Jardim das Aflições”; não é possível que não tenham entendido as advertências feitas por Olavo logo houve o anúncio da vitória eleitoral.

Outra coisa que me inquieta: onde uma coordenação para monitorar ataques nas redes sociais? É preciso rastrear autorias de ataques ao Presidente, ataques que são replicados por celebridades televisivas sem um acréscimo de uma vírgula, muitas vezes. Os simpatizantes do Presidente no lugar de procurar a matriz dos ataques insultam as ditas celebridades televisivas, que apenas seguem o rebanho; como fariam mais que seguir rebanhos se as paredes de suas casas são nuas de livros? Os ataques e cobranças debochadas de explicações são de autoria de publicitários e assessorias de imprensa das ditas celebridades, e estes mentores de linchamento virtual seguem incólumes enquanto a massa de eleitores e simpatizantes os ignoram. Não há quem tenha pensado nisto? Não há quem esteja investigando isto? Não há assessoria presidencial?

Ninguém processa ninguém.

O que tenho visto são perfis fake de twitter atacando não apenas a política do Presidente (o que faz parte da Democracia) mas distorcendo dados e emitindo ataques pessoais. Sem medir palavras, abusando do anonimato. Intimidando quem ousa questionar.

Dois episódios recentes mostram que há regentes para estes corais: o anúncio da renúncia de Jean Wyllys e a tragédia da barragem de Brumadinho. Em ambos casos, twitteiros anônimos e famosos replicam-se sem constrangimento. No caso de Brumadinho, celebridades e anônimos exercem militância contra Bolsonaro, militância que não vi quando houve episódio do rompimento da barragem de Mariana. Replicam-se sem dissimulações ou cuidados.

Que esperam para reagir?

Poder é como edifício planejado durante a Guerra, repito.

O que os atuais governistas esquecem, quando não ignoram, é que nenhuma facção política realiza no Governo o que não forçou governos a realizar enquanto foi Oposição. O PT não fez muito mais no Governo do que forçou o PSDB a fazer enquanto oposição a este.

A militância oposicionista do atual Governo ao antigo governo teve seus méritos, mas isolados, sem coordenação e organicidade. E daí virão muitos dos problemas que sequer começaram. Como organizarão forças de pressão eficazes?

Vinte e seis dias e nas cordas. Como estará depois da operação do Presidente e do fim do carnaval, quando o ano começará de fato? Decerto os governistas contam com alguma trégua, quem sabe? Ou imaginam que a fé nos que votaram em Jair Bolsonaro não sofrerá abalos.

Não consigo ser otimista, embora consciente que esta minha maneira de perceber os fenômenos possa render acusações de “pessimismo profissional.”

Antes pessimista que irresponsável. Nós, que podemos ler e escrever, temos responsabilidade maior que milhões que saltam com o céu escuro da cama após noite mal dormida, apenas cochilada, neste verão que cozinha gente, para jornada de trabalho impiedosa.

Se não tivermos responsabilidade agora, como enfrentaremos o que virá se este governo fracassar, e fracassar muito antes do previsto?

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