“Notas” – 09/02/2019

Sobre o “Breviário de Um Canalha” de Eduardo Almeida Reis

“Breviário de Um Canalha”, o segundo romance de Eduardo Almeida Reis, lançado em 2010, é, como o anterior,”Bumerangue”, de trama simples. Um simples enganoso, mas simples.

Naquele, a trama girava em torno da ligação do narrador com a primeira-dama de um estado e neste a ligação amorosa do narrador com a sogra. Em ambos, o autor pouco trata destas ligações no conjunto das páginas. Suas reflexões, ou as evocações de memória (suas ou de outros, contadas a ele) compõem 90% do material. O peixe fisgado…esquece das tramas amorosas, entrega-se ao fluxo digressivo pedindo mais.

Bom, o narrador deste “Breviário” narra a um amigo, ao que parece, na meia-idade, sua juventude e vida adulta atravessadas por ligação amorosa e sexual com a sogra. Sim, com a sogra, durante décadas, em segredo, sem que uma borboleta desconfiasse.

Coisas do acaso, coisas de cama; o autor parece dizer. Poderia ter sido com alguma Rainha do Rádio. Poderia, no romance anterior, ter sido com a copeira do palácio. Aconteceu de ter sido com quem foi; a vida é para ser enfrentada, sem tentativas ridículas de disfarces ou exercícios inúteis de culpa. Neste “Breviário”, como no romance anterior, o narrador não transmite vaidade pela façanha. Para orgulho ou para vergonha, a vida exige mais que ir para cama com esta ou aquela. Até pelo fato do homem ser um mero escolhido.

O que torna o livro além de delicioso, necessário, é o conjunto das observações cortantes sobre a Política e os homens do dinheiro, sobre jornalistas às voltas com políticos e homens de dinheiro; sobre o Poder, resumindo.

Um personagem, político e banqueiro, é, por exemplo, apresentado assim:

“Sua biografia, nos milhões de santinhos que mandava  distribuir pelo interior do Espírito Santo, contava que nasceu muito pobre na divisa com a Bahia, engraxou sapatos para pagar seus estudos e se empregou num pequeno banco aos 14 anos, como contínuo.
Já naquela época, era muito comum político dizer que havia começado a vida engraxando sapatos. A política nhambiquara é, quase toda ela, composta de ex-engraxates, mas o Senador  nunca engraxou nem os  próprios borzeguins, que não dispensava nas andanças pelo interior do estado. Fez o primário e o ginásio em Vitória, a expensas de seu pai, pequeno fazendeiro no sul da Bahia.
Trabalhou, sim, num pequeno banco, onde entrou como escriturário aos 18 anos, quando já estudava Direito. Banco pertencente a um tio seu.”

A cafonice destes poderosos anda de mãos dadas com a gula pelo dinheiro e o nenhum escrúpulo em obtê-lo e acumulá-lo, pelo que se nota em algumas das descrições do livro. Tampouco experimentam vermelhidão no rosto quando apanhados com as mãos nas carteiras alheias. Riem-se. Referem-se aos seus pares como “malandro”, sem desejo de ofender,mais como reconhecimento de méritos, ou como como saudação diária.
Não parecem temerosos de serem apanhados ou denunciados. Por quem, hein? quem pode acusar quem neste meio? E mais que isto: quem conhece quem neste meio? O narrador confessa ser pego de surpresa algumas vezes:

“E sempre fui bom analista de caracteres alheios, embora não consiga entender o meu próprio caráter. Que se pode dizer de um sujeito que come a sogra?”

Todos neste meio conhecido como “a Elite” carregam seus baús de historinhas, e tratam-se de abastecer dossiês, ou mandar vigiar os “amigos” encarregados de transportar suas arcas de tesouros. O narrador reconhece a dificuldade de narrar tudo que sabe, tudo que não tem como não se ficar sabendo:

“Mas a história deles dá um livro que não tenho tempo de escrever, mesmo porque ainda preciso contar minha história, se é que interessa ao leitor a história chocha de um sujeito que veio do Pará para estudar Engenharia, casou-se com bela moça, teve filhos e trabalhou mais ou menos honestamente, sem deixar de comer a sogra.”

E o narrador não faz estas observações com a pieguice de quem considera o Brasil um país perfeito, de gente maravilhosa, que só não prospera mais porque sugado pelos parasitas bebedores de champanhe. O Inferno é arquitetado e construído por cada brasileiro que desrespeita, sempre que a oportunidade surge, o direito e o espaço alheio, tornando a convivência um suplício de todos os dias:

“Não sabendo conviver, entre outros motivos porque não respeita o direito dos outros, o patrício inviabiliza os condomínios horizontais e verticais. Mata-se por vaga de garagem, mesmo  numerada e pintada no chão.”

O narrador narra as vicissitudes do seu tempo, mas observa, em algumas passagens, a piora no que já era ruim, ou a deterioração (irreversível?) do pouco que era bom. Tanto na segurança como na urbanidade no trato, quase tudo piorou. Mas a comparação mais pungente foi esta:

“Coisa curiosa: naquele tempo as pessoas decoravam a tabuada e sabiam fazer as quatro operações.”

O personagem narrador sente cumprir em si profecia feita por um conhecido sobre seu futuro como homem de banco: adquirira “olhos de vidro”. O dinheiro, e apenas o dinheiro, interessava e ocupava a mente. “Amigos? Quem tem amigos? São todos uns interesseiros.” “Tempo para descanso ou desfrute das coisas e pessoas das quais gostamos? Tempo roubado da obrigação de ganhar mais dinheiro.”

A ordem é conseguir e acumular, cada vez mais. E tirar da vítima preferencial:o pobre. O pobre se endivida e tem que pagar caso queira continuar se endividando. Os ricos? O narrador aprende que estes são excelente companhia para fins de semana em condomínios fechados; bebidas e gente bonita com pouca roupa. Não espere tirar nada dos ricos.

E todos aprendem a explorar os pobres, ou a classe média desejosa de respirar. Os banqueiros contam com exército de saqueadores. Os gerentes todos esmeram-se na rapina, senão estacionam na carreira. Ou são dela expelidos. Uma hora o sujeito não sente qualquer dó das vítimas; “antes eles do que eu”, dizem,  marcando jantares com as filhas deste mesmo meio, em restaurantes grã-finos, mirando seus Rolex.

O sujeito não apenas se acostuma, declarara amar o que faz:

“Um empreiteiro riquíssimo me disse, não faz muito tempo, que resolveu seu problema aprendendo a gostar daquilo que faz. Levado a extremos, seu raciocínio  permite que o cavalheiro aprenda a gostar de matar,  roubar,  teatro japonês,  discurso, festa infantil, buchada de bode,  música sertaneja, festa junina, baile funk, reunião de diretoria – essas coisas intoleráveis.”

Muito desta capacidade de adaptação ao ofício vem das anestesias; anestesia administrada em farras, ou na alegada religiosidade:

“Alguns dos maiores bandidos que conheci no meio bancário, e fora dele, eram incapazes de dar um traque sem falar da bondade de Deus, sem invocar Sua proteção, como se Ele existisse para abençoar agiotas, ladrões, estelionatários e homicidas.”

Esta observação do narrador leva às reflexões sobre Deus, e os deuses das diversas religiões, que terminam sintetizadas assim:

“quase todos feitos à imagem do Homo sapiens sapiens, sinal de que não são de confiança.”

Estas palavras, estas reflexões digressivas lembram as do autor do livro, expostas em um sem número de crônicas, tantas delas reunidas em livros. O que fez que o livro fosse apontado como autobiográfico, o que o autor sempre negou. O escritor empresta ao personagem muito do que é seu, e isto deveria ser conhecimento já estabelecido em apreciadores de literatura.

O narrador tem vida diversa da do autor do livro. O que pode ser dele, Eduardo Almeida Reis, em Cláudio, o narrador-protagonista, me parece irrelevante. “São apenas vidas e palavras”, parece nos lembrar a todo instante o autor do livro. Aposto que ele divertiu-se com as ginásticas mentais que sabia que leitores realizariam para identificar no livro quem é quem: personagens (alguns de identificação de relativa facilidade) mudam da vida real para vida ficcionalizada de estados,de épocas (que se fundem),graus de parentesco de personagens sofrem o mesmo processo. Como se Eduardo Almeida Reis dissesse:

“Isto, se Fulano é Beltrano, se X apontado como irmão mais moço de Y, era na verdade, primo distante ou sobrinho, se determinada Fulana é inspirada em Sicrana,se os fatos narrados deram-se mesmo nas décadas tais ou quais; nada disso importa, nada disso muda o que o livro quer dizer.”

O livro trata da luta pelo topo, ou o que muitos acreditam ser o topo, e o vazio e desespero que preenchem este topo. Tudo ilusório, nada aplaca ou atenua certas fomes. O dinheiro, a celebridade, o Poder.

Como o narrador percebe sobre aspirantes aos holofotes:

“Durante a subida íngreme, fazendo manobras audaciosas em tarefas hercúleas para realizar seus sonhos dourados, são capazes de conceder seus respectivos rabos pelos primeiros 15 minutos de fama. No poleiro, afetam aborrecer-se com aquilo que chamam de invasão de sua privacidade: só a pau!”

A satisfação, o narrador observa, vem do trabalho duro, do trabalho físico no contato com a natureza. Acordar cedo, sentir o aroma da vegetação úmida, enfrentar ferramentas, abrir caminhos, ocupar  o solo virgem. Como o narrador em “Bumerangue” na lida com a fazenda com um dia inteiro de trabalho a cumprir. Isto, a volta ao campo, salva a vida do narrador do “Breviário”.

Quem conhece a obra de Almeida Reis sabe de sua admiração por Eça de Queiroz, sobretudo “A Cidade e as Serras”, que celebra o campo rústico e másculo,contrapondo-o à cidade fútil e ladra da vitalidade. E quem conhece mesmo Almeida Reis sabe a diferença entre seus escritos rurais, nos quais celebra o cansaço e o recomeço de cada dia na lida com bois e vacas e as exigências da fazenda e a amargura do Almeida Reis urbano (contido, por exemplo, no volume de crônicas reunidas,”Burrice Emocional”); o humor cético tratando dos shoppings vazios de calor humano, os vizinhos insuportáveis (avós recebendo os “demônios de estimação”, impedindo a vida intelectual da vizinhança), os carros de luxo na Savassi transportando casais emburrados, os atendentes mal educados do comércio, os comerciantes com suas economias estúpidas, a feiura que embrutece pessoas já sem educação; tudo na cidade é Inferno. Talvez Inferno com alguns barzinhos agradáveis, mas mesmo estes, raros…

Eduardo Almeida Reis é dos últimos gigantes do texto entre nós. Sonho com série de livros memorialísticos que sei que transportariam muito do mundo da Imprensa e do Poder, que ele conheceu bem. E que são um making-of de seus romances, como este “Breviário”.

Sonhar não paga imposto.

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