“Notas” – 23/12/2018

Sobre a morte de jornais e revistas

“Jornais e revistas morrem antes de morrer” . Quem o disse?

Os órgãos de comunicação costumam ter sua vida contada desde a fundação até a declaração de insolvência, mas considero este cálculo impreciso e equivocado; leitores desertam antes dos anunciantes e estes antes do avanço dos banqueiros ansiosos por cobrar dívidas.

Conheci jornalista veterano que presenciara decadência de dois órgãos de comunicação e ele me garantiu que pouca coisa é mais nociva que a figura do herdeiro. O sujeito tem nas mãos algo que ele não julga precioso e sim um ativo a ser comercializado. Quando o ativo é acompanhado de passivos (dívidas), a ordem é fazer de tudo para se livrar o mais rápido possível da carga. Onde aqui os Luce, os Ochs- Sulzberger? Talvez os Mesquita, os Marinho, mas…

O episódio do anúncio da venda da Ed.Abril a um advogado do mundo dos negócios me trouxe, uma vez mais, reflexões sobre a vida útil dos jornais e revistas, no Brasil. O que aconteceu à Abril não mereceu um gemido, um ai! Quem duvidava do fim próximo desta empresa que já foi enorme? Escrevi sobre este fim quando foi anunciada (post publicado no 02/09/2018) a recuperação judicial da empresa:

“Ed Abril respirando por aparelhos surpreendeu a quem? (…) Uma a uma as revistas sofreram ‘reformulações’, o que leitores experientes e observadores sabem ser diminuição de páginas e matérias sumárias mirando em um ‘público alvo de leitores médios’, que seria fornecido por pesquisas…”

Estas “reformulações” mataram, uma a uma, as revistas. Onde os responsáveis? Lembro de Paulo Francis (no volume de memórias “O Afeto Que se Encerra”) e Helio Fernandes (em entrevista ao Sebastião Nery para a “Status” em, se não me engano, 1978) comentando o que foi trabalhar na “Revista da Semana” na década de 1950, a qual fazia parte de um grupo de revistas (dentre elas, “TicoTico” e “Cena Muda”), que foram sendo mortas pelo que ambos jornalistas consideravam mesquinharias econômicas do dono. Isto (economia mesquinha e administração ruinosa), portanto, é antigo entre os donos de revistas.

E de jornais também. Leiam o que Mario Sergio Conti conta da administração do “Jornal do Brasil” do final dos anos ‘70 até o final dos anos ‘80, no “Memórias do Planalto”. Ou as linhas dedicadas à administração do “Correio da Manhã” no período após a morte do proprietário, Paulo Bittencourt, em um dos livros de Elio Gaspari, da série sobre a Ditadura. Gaspari nega que apenas a perseguição dos militares tenha sido a causa do morte de um dos mais importantes jornais da história do Brasil.

E quanto minha geração deveu à Abril…

O que muitos de idade próxima da minha sabem sobre MPB deve-se à série de fascículos (contendo ensaios – biográfico e introdutório ao universo do homenageado – ilustrados com fotos) de “História da Música Popular Brasileira”, os quais vinham acompanhados de um disco, de gravações de vários intérpretes (colhidas de álbuns já lançados), de canções de autoria do compositor-tema do fascículo. Ou sobre  literatura de língua portuguesa, a série “Literatura Comentada” (minha mãe tinha quase todos, comprados em bancas), com fascículos em forma de livros que continham breve biografia do autor-tema, mais trechos de obras, mais algum ensaio sobre a obra, e mais outro sobre o contexto histórico. Três de minhas fixações conheci por tais fascículos: Millôr Fernandes, Dalton Trevisan e Nelson Rodrigues. E tantos outros que reli a ponto de desfigurar os tais livrinhos.

A “Realidade” só li em bibliotecas, e deste contato, só carreguei motivos para lamentar sua extinção, e a “Veja” li muitos números antigos em bibliotecas. Ah, a “Veja”…descobri-a quase ao mesmo tempo das tais coleções sobre MPB e sobre literatura. Foi uma fixação que enfraqueceu-se ao correr dos últimos quinze, vinte anos.
O tal jornalista veterano que citei acima achava graça na minha memória e na minha capacidade de estabelecer diferenças entre o estilo dos três primeiros diretores da publicação.

Mas é assim que funciona a mente de um apaixonado por um assunto: as particularidades e os pontos de curva de um determinado objeto, imperceptíveis ao observador trivial, são, ao observador intenso, descritíveis à exaustão. Torna-se, este apaixonado, este observador obsessivo, um excêntrico, um chato.

Esta mesma obsessão alimentei pela revista “Playboy”, sobre a qual já dediquei uns dois ou três textos. Os ensaios das mulheres enlouquecedoras, os trechos de livros em lançamento, as entrevistas longas e reveladoras (as que mais me lembro são as que tem como entrevistador Ruy Castro), as entrevistas mais curtas (também um exercício jornalístico dos mais interessantes,pois exigentes – tanto ao entrevistado quanto ao repórter) e reportagens especiais; a revista foi perdendo, ano depois de ano, substância em cada um destes itens, até morrer sem muito choro dos leitores que a viam agonizar.

As revistas “Veja” e “Playboy” vinham morrendo por uma queda de exigência dos editores. Simples. Reportagens longas? “Quem precisa disto?” Entrevistas de mais de dez páginas? “Quem lê isso tudo hoje em dia?” Para qual leitor estes editores imaginavam estar trabalhando? Ora, o leitor verdadeiro, o que tem a leitura por “cachaça”, quer mais e mais páginas e mais e mais texto.

Descuidou-se também do papel formador que estas publicações têm a cumprir; a classe média temerosa da recente possível soltura de Lula não deve muito deste terror (“Lula solto…já passou”) a uma imprensa que fixou-se mais em escândalos que na desmontagem da mitificação de seu governo? Tivesse esta imprensa mostrado às massas o que era, na verdade, o governo do PT, seria Lula o temeroso da liberdade das ruas.

Ou na formação do leitor quanto à linguagem; por que ler e /ou assinar uma publicação que recruta redatores que expressam-se na linguagem das redes sociais (inferior em inventividade e graça à linguagem de porta de banheiro público)? Ora, que se leia blogs de graça ou assista-se aos vlogs; o ganho é o mesmo, se não maior. Redatores talentosos e consagrados não veem por que lutar contra o que parece ser assunto dos donos e acomodam-se ao novo quadro de mediocridade premiada. E assim o corpo sangra até a gota derradeira.

Caso a venda da Abril se concretize (ou seja, se os bancos aceitarem os termos do acordo) duvido muito da recuperação da credibilidade e do público. “Vinho novo em odre velho”, quem não conhece a parábola? Títulos de outras publicações que voltaram não fizeram estas ser as mesmas de outros dias, sabemos todos. Não adianta, por exemplo, ter “Status” na capa e dentro dela não haver o time de redatores e colaboradores da publicação original, ou o “Jornal do Brasil” sem a equipe que fez do jornal um ponto de referência…

O que acontece com a Abril neste momento serve como (mais um) exemplo a ser estudado.

X

Que os leitores celebrem com as pessoas que amam este Natal. Ainda que sejam ateus, que encontrem neste momento de mesa farta um intervalo para reflexões.

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“Notas” – 15/12/2018

Sobre escrever como combatente

“Sabe tudo isso aí? Este é o nosso inimigo, daí não podermos relaxar, entende?”

Eu me referia aos departamentos de Letras e o de Filosofia e Ciências Humanas, dois blocos de edificações interligados na UFMG- FAFICH e FALE.

Meu acompanhante parece ter entendido então minha pregação de algumas horas, nas quais eu falava, sem qualquer cansaço, das minhas reservas quanto ao que responde por Direita, no Brasil.

Foi numa dessas visitas ao campus. Em dias assim, minhas preocupações mostram-se mais agudas, falar do inimigo em seu território é diferente de falar dele na segurança de quilômetros de distância. Como quase nunca piso aquele chão, o sentimento de urgência foi maior; admito falar com interlocutores que me leem e escrever no blog sobre a casta acadêmica com certa frieza resignada.

Passando pela biblioteca da FAFICH não consegui não repetir uma vez mais que os inimigos da casta acadêmica deveriam montar acampamento ali; leitura e releitura dos clássicos do marxismo e do chamado pós -modernismo até que qualquer interlocutor adversário recue diante do que pareça uma autoridade máxima no assunto :

“Não vale citar ‘Decálogo de Lenin’ sem saber em que volume das Obras Completas de Lenin ele se encontra; sem a certeza dele constar nas referidas Obras que se proíba de citá-lo, compreende? Será tão difícil assimilar a necessidade de ser sério nesta guerra?”

Meu interlocutor perguntou que esta exigência teria a ver com minha “implicância” com redatores que escrevem “Mimimi” no lugar de queixas ou lamurias, e apontei então um grupo onde uma professora e alunos portavam livros e conferenciavam num semicírculo:

“Pode apostar que muitos aí, embora com pinta de maconheiro e jeito de quem despreza os clássicos, sabem da força dos termos utilizados com precisão e zombam, zombam mesmo, desta linguagem de rede social. Não se encontra em qualquer linha de Leon Trotsky concessão às simplificações da propaganda, e este “elitismo” do escritor é muito da sua força como revolucionário. Os bolcheviques desprezavam os populistas, pois aprenderam que as massas esperam quem as guie para o alto, e não que as lideranças intelectuais e políticas se misturem a elas. Esta mistura não dá às massas qualquer poder. Já os membros da massa que obtenham ascensão intelectual…”

Meu interlocutor vinha de me questionar, por email, sobre meu texto anterior, no qual eu me queixava de apoiadores do Jair Bolsonaro que não o apoiaram em um dia em que seus inimigos aproveitaram-se do episódio do assessor de seu filho para começar a promover o Terceiro Turno; eu, Pawwlow, estaria exigindo que estes ditos inimigos do PT escrevessem sobre algo a ser explicado? Como defenderiam Bolsonaro se ignoravam do que se tratava a acusação e se Bolsonaro era mesmo inocente?

“Vejam os nomes da direita brasileira que militam nas redes sociais e na imprensa; o bom-mocismo é o elemento distintivo e dominante. Formam o que os autores do vlog ‘Os Brasileirinhos’ qualificam de ‘Direita gravata borboleta’. Não são nomes que consigam alcançar os não convertidos ao Conservadorismo, ou ao Liberalismo. Têm alcance mais restrito até que muito blogueiro do PT que conta com o público cativo da casta acadêmica e dos chamados movimentos sociais, pois ambos segmentos sociais ramificam-se, por contato, com conexões com a massa ainda não convertida a nenhum dos dois lados da disputa pelo Poder. Já os tais direitistas dirigem-se quase que apenas aos segmentos da classe média já ligados, ainda que por tradição, ao que se conhece como Direita. Escrevem textos insossos, indistinguíveis uns dos outros. Abusam de termos como ‘Mimimi’, e confiam na eficácia dos memes. Claro que gente assim, ao primeiro coro denuncista contra Bolsonaro sacaria do bolso do colete a frase ‘não tenho bandido de estimação’.”

E deveriam ter?

“Não, não deveriam. Mas lembro de minha avó materna e sua observação do que presenciara na Polônia arrasada por ocupações – dos alemães e dos russos: ‘Na guerra, se vê quem é quem.’ Do assessor, passaram a acusar Bolsonaro de corrupto e retiraram da gaveta do necrotério – pois provaram não a ter sepultado- a tese do atentado forjado. E não pararam mais. Bolsonaro e filhos erraram na demora da resposta? Claro que sim, mas não contaram com o apoio dos que deveriam exigir que estes acusadores se contivessem ou apresentassem as provas. Alegar desconhecimento não vale, quando o líder ao qual se supõe apoiar sofre um dia de ataques que transbordam da acusação inicial. Não é preciso saber do grau do envolvimento de Bolsonaro com este caso do assessor para esboçar alguma defesa. Isto não é espírito de gladiador de arquibancada,mas de intelectual com algum posicionamento, Estes direitistas faltaram ao líder ao qual deveriam ter o mínimo de lealdade que uma guerra exige – e que blogueiros petistas mostram ter a Lula, e isto é mérito, sim – e respeito ao público que conseguem por posarem de direitistas. Toda a fama e espaço que desfrutam são frutos deste pretenso direitismo. Ou você acredita que estes camaradas isolados de movimentos teriam leitores fiéis com o texto morno que apresentam? Você me perguntou outro dia por que não os menciono pelo nome; ora, são todos iguais, homenagear um com a citação nominal seria injusto.”

Quase na saída da Av. Antônio Carlos, meu interlocutor observou que poderiam me acusar de escrever provocado por inveja, e de covarde, por dar “indiretas”…

“Não dou nomes, pois como disse, citar um só seria injusto; nunca conseguiria adivinhar o autor de um texto desta gente, caso não visse o nome no alto da página. E citar nomes também poderia me render acusação de querer fazer nome através de guerrinhas com as estrelas da ‘Nova Direita’. Também nunca citam o meu, talvez por não saberem quem sou,rs, rs… Quanto a ter inveja do dinheiro e da fama destes caras… qualquer um é livre para me julgar como quiser. Penso que um escritor – ou figura pública graças a qualquer modalidade intelectual- atinge seu ponto mais baixo quando seu único argumento é : ‘Venci na vida, você me critica por recalque’ .”

Os prédios que abrigam os laboratórios de monstruosidades nos observavam, graves. Meu interlocutor pediu, como despedida, que eu explicasse o que eu dissera em conversa anterior, sobre ‘escrever como um combatente’. Que seria este combate com caneta esferográfica e papel?

“Combate-se primeiro consigo próprio; internet e outras distrações causam, dia depois de dia, micro deserções das nossas batalhas. Como te contei uma vez -e escrevi no blog – certa vez vi uma prostituta na zona que não descuidava do livro didático e do caderno entre cliente e outro. Isto é alma guerreira. Bom, combate-se depois com o temor do que dirão os círculos sociais, os íntimos e os mais amplos. Ser exigente consigo; ler, e reler. Anotar e destas anotações tecer enredos mentais onde os personagens são o escritor e o mundo inimigo. Ter na mente a certeza que escritor não combatente é um beletrista apenas, um personagem de telenovela de época, um animador de salão de grã finos…”

Eu segui o caminho que vai dar no centro da cidade enquanto meu interlocutor, talvez cansado, retornou ao ventre da Academia. Quem sabe buscando alguma biblioteca…

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“Notas”- 09/12/2018

A primeira grande prova de Jair Bolsonaro antes da posse

Eu votaria de novo em Jair Bolsonaro, fosse hoje a eleição?

Sim, votaria. Nada vi, neste episódio do assessor de Flávio Bolsonaro, seu filho, que me fizesse mudar o voto, me arrepender do voto que dei, ou que me envergonhasse do que escrevi aqui no blog. E não me envergonharia do que escrevi, ou mudaria meu voto se a eleição fosse hoje ainda que algo errado tivesse vindo à tona.

Votei contra o sistema de Poder do PT e associados e este sistema de Poder não tem qualquer autoridade moral para levar eleitores e simpatizantes de Bolsonaro às cordas. Jornalistas e opinadores de twitter que atravessaram anos justificando o injustificável e mitificando ao máximo os governos do PT acreditam ter delegação da História para ridicularizar quem recusou o voto ao sistema ao qual serviam. Esta sensação de que podem cobrar talvez venha da ilusão de que as massas recusaram o PT por episódios de corrupção apenas e não pelo conjunto da obra; não, não foram o sítio e o triplex que fizeram a Lava -Jato popular, e sim a percepção nas massas de que a pobreza não fora eliminada como cantava a imprensa do PT (a mesma solta foguetes há dois dias) e que a violência só aumentou no período e que as escolas atingiram o subsolo do poço, entre tantos outros etc. Tivesse sido um período de melhoras substanciais, as massas considerariam os “agrados” recebidos por Lula (a propriedade nominal dos tais agrados sendo nuance desprezível) merecedores de mera suspensão de direitos e alguma multa, se tanto. Claro que além de agradinhos, houve rombos na Petrobras que impressionaram, não? E financiamentos para obras em outros países enquanto aqui morre-se em filas de hospitais…

Não, nada vi, até o momento em que escrevo, qualquer motivo para me envergonhar ou me justificar perante qualquer comissariozinho de barbicha e óculos de armação colorida.

Maaaas … me desagradou a demora no pronunciamento do presidente eleito. Esperava, desde a manhã de ontem, algum pronunciamento e alguma explosão diante de comentaristas, e sites, e blogs, que mencionaram “o dinheiro sujo dos Bolsonaro”. Esperava algum anúncio de processo contra quem, sem provas, retratava o presidente eleito como um corrupto. E só vi algo neste sentido na tarde quase noite de ontem. São muitas horas recebendo acusações e deboches sem reagir. E mesmo quando houve enfim alguma resposta, esta veio sem a veemência que se esperava em uma situação do tipo.

Não sou dos que justificam esta demora em reagir com a tese do elemento surpresa; homens públicos têm a obrigação de estar preparados para investigações sobre si e sobre seus circundantes. Qualquer elemento, qualquer deslize ou qualquer coisa que se pareça com um deslize, vira arma nas mãos de adversários políticos. Sobretudo destes que Bolsonaro vem enfrentando; Bolsonaro tem inimigos, não adversários. Quem leva uma facada e é acusado de forjar um atentado deveria estar preparado para tudo, não?

Não escreverei nada sobre inocência ou culpa do Bolsonaro neste episódio, não por enquanto. Acho que ele deve se explicar, e se desculpar caso haja algo para se desculpar. E que isto seja o mais rápido, para o bem de todos.

Mas se explicar nas cordas, sem reagir com indignação aos ataques que vem sofrendo desde ontem, será perda de tempo. Melhor então recuar de uma vez, penso.

Passou, e já passou há muito, da hora de Bolsonaro distribuir processos para blogueiros, tuiteiros e donos de site. Desde o atentado que sofreu, acusam-no de tudo. Como escrevi aí em cima, acusaram-no de forjar o atentado e não sei de processo contra quem acusou. Assim, acusar e debochar é bom negócio. Ou excelente negócio, lembrando que muitos dos que acusam e debocham têm muito a perder com o futuro governo.

Não sei quem aconselha o presidente eleito na lida com a imprensa ou formadores de opinião que dão expedientes nas redes sociais. Caso seja alguém da escola “Não discuta com essa gente, o que vem de baixo não atinge”, seu governo correrá perigos, pois seus inimigos(sim,reitero, Bolsonaro não tem adversários, mas inimigos) nem começaram, sim?

A turma do “ Estes pobres-diabos estão estrebuchando porque sabem que as tetas nas quais mamaram secaram de vez” não vem ajudando quem sofre seus conselhos. Basta ver as eleições do PT que tiveram-nos como adversários no jornalismo. Adversários dóceis, gente engraçadinha, pareciam acreditar que piadinhas sobre suposto analfabetismo de Lula ou a pouca comunicabilidade de Dilma Rousseff fariam as massas rever seus votos.

Bolsonaro deve ter seus jornalistas de estima; que estes vigiem redes sociais, blogs, sites, e trabalhem! Que saibam defendê-lo, ou aconselhá-lo, num baque como este. Não vale esperar um dia inteiro, quase dois, para mostrar serviço.

Bolsonaro deve lembrar que muita, mas muita gente, perdeu amizades (mesmo namoros ou promessas de namoro), sofreu perseguições no trabalho, e em ambientes educacionais, declarando-lhe o voto. Gente da TV já sofre boicotes; artistas rotulados como “fascistas” por apoiá-lo. Gente que ainda confia nele, e que votaria nele de novo ainda que se provasse alguma culpa, ou omissão, neste caso do assessor de seu filho. E mais gente do povo, gente que não teve medo de apelidos e expressões repreensivas.

A toda esta gente, Bolsonaro deve uma reação decidida aos que o atacam.

Ah! Colunistas da “Folha de S.Paulo”…

Como escrevi há algum tempo, cumpro nas madrugadas de Domingo, meu roteiro de colunistas da “Folha de S.Paulo”; Elio Gaspari, deste ao Mario Sergio Conti para terminar no Ruy Castro. Como também escrevi, me prometo desertar destas leituras, mas a qualidade do texto de um, as informações de outro e e o que vem como síntese das duas razões nos três me mantém fiel. Mesmo reclamando deles após cada leitura, são três colunistas que não consigo, e não quero ( sendo sincero com vocês), deixar de ler.

Por serem os três jornalistas que sempre cito (e sempre elogio – elogio muito mais que critico) me sinto muito à vontade para apontar o que julgo insuportável nestes três dos últimos dos nossos gigantes.

Começo pelo que fez o texto mais proveitoso, Mario Sergio Conti. Este valeu a pena a leitura, me senti pago com seu texto sobre o livro do jornalista francês que trata do comportamento da imprensa ocidental sobre Hitler nos dias da ascensão do líder nazista.

Gaspari e Manchinha

Já Elio Gaspari…cometeu mais uma de suas cartas psicografadas; ou emails, para ser mais exato. Este recurso às vezes é engraçado; na maioria das vezes Gaspari atribui ao pós-Morte de figuras ilustres seus conceitos mais pedestres sobre política. As grandes figuras depois de mortas viram cantores do que Gaspari tem de menos notável, de pouco questionador, de nada crítico. Estes mortos recebessem emprestados o Gaspari atento e mordaz (o melhor Gaspari) dos seus antigos textos da “Veja” e das melhores passagens dos seus livros, seria enorme presente pós-cemitério, uma verdadeira compensação.

O autor de “O Sacerdote e o Feiticeiro” “recebeu” ontem a cadela Manchinha, a vítima de golpes de barra de ferro, do segurança do Carrefour de Osasco.

A cadelinha espancada até quase morrer agradeceu quem por ela chorou, mas recomendou que não se esquecesse dos “bípedes” assassinados, vítimas de violência.

Pois respondo aqui à cachorrinha vítima:

Sim, Manchinha. Precisamos atentar à violência praticada pelo homem contra o homem.

Ocorre que a imprensa é muito responsável pela violência do brasileiro; violência que não distingue vítimas de assalto, inimigos de vida e morte e inimigos ocasionais de brigas de bar e discussões do trânsito. Estas explosões de violência atingem também cachorros, seres adoráveis como você, Manchinha.

Você, Manchinha, não foi o único cão morto por latir, por revirar sacos de lixo,por existir. Mesmo seus irmãos bem nascidos são envenenados por vizinhos. Sem que nada aconteça.
E jornalistas repetem que punição é violência que gera mais violência.

Nem digo que o “cavalo” que você utilizou milita neste tipo de ativismo jornalístico, mas pouco tenho lido dele sobre aumento de punições, ou punições independentes do critério etário ou para criminosos que atacam animais.

O tipo de gente que te matou e o modo como te matou, Manchinha, não hesitaria em matar uma criança, ou um idoso em um assalto.

E jornalistas nada ou quase nada (o que dá, de forma indecente, no mesmo) escrevem sobre isto. Utilizar seu martírio para desconversas,é um insulto, Manchinha querida.

Ruy Castro e as livrarias

Ruy Castro comparou leitores que compram livros pela internet aos passageiros de uber que preferem estes aos taxistas. Escreveu ter feito esta comparação a um taxista que se declarou um leitor, embora não frequentasse livrarias e comprasse seus livros via internet.

Leitores,segundo Ruy Castro, frequentam livrarias e se encantam com os itens ali expostos.

Pois muito bem!

Então eu e a torcida reunida do Corinthians e do Flamengo não somos leitores, Ruy. Eu,por exemplo, compro meus livros em sebos, e há muito tempo. Quando encontro uma promoção (como encontrei meses atrás o quinto volume da série de Elio Gaspari, e os “Diários de Andy Warhol”) aí sim, compro. Mas isto tem sido cada vez mais raro. Ou quando encontro livros de coleções historiográficas, como há pouco tempo na “Leitura” e na mesma livraria edição da Ed.Itatiaia contendo três livros do Eça de Queiroz: “A Cidade e as Serras”, “A Ilustre Casa de Ramires e “O Mandarim”. Isto, Ruy, é raaaaro. Muito raro.

Os sebos do Maletta e do Amadeu são minhas preferências, e mesmo nestes templos (templos sempre louvados em sua coluna, faço justiça) tenho ido cada vez menos. Não há dinheiro, e trato de reler os livros que tenho.

Os livros estão muito caros, e esta é a causa da crise do negócio, Ruy, não de leitores que adquirem seus livros na internet, pois lá encontram preços compatíveis com sua realidade.

Como Elio Gaspari (que vem se batendo contra a paternalização das redes de livrarias) escreveu há alguns anos, leitores deveriam entrar em consórcios para adquirir livros, por caros que estes são (Gaspari no tal texto deu o exemplo de livro importado mais barato que vários brasileiros da ocasião: coletânea de ensaios de Gore Vidal, em capa dura).

Ruy Castro, na sua visão de personagem de novela de Manoel Carlos (a foto que ilustra seu texto é do interior da Livraria da Travessa, de Ipanema), não parece entender que não se trata de hábitos de leitura, mas de realidade econômica, simples.

Estes são os jornalistas que não entendem a massa que vota em Bolsonaro.

Mas, repito, não consigo desertar deles.

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“Notas” – 01/12/2018

Sobre o “Gabinete Bolsonaro”

“Pawwlow, que você tem achado da escolha do Ministério? O Bolsonaro está acertando?”

“Fulano será mesmo um bom ministro na pasta X?”

“O Ministério não está muito militarizado?”

Bom, Jair Bolsonaro ainda não assumiu, o Governo ainda não começou, vamos ver.

Não consigo responder outra coisa aos amigos leitores que me questionam em conversas sobre o que será o “Gabinete Bolsonaro”. Pode ser que seja uma decepção, pode ser que a coisa saia melhor que qualquer otimista tenha imaginado. Votaria nele de novo mesmo assim, e acredito que a maioria dos que nele votaram repetiriam o voto.

Porque a opção era muito aterrorizadora, exagerava do direito de ser promessa de desastre fatal para o Brasil. E Bolsonaro contará, portanto, com margem de erro maior que qualquer de seus antecessores; cientistas políticos terão que estabelecer outros prazos para o que chamam de “lua de mel com o Governo”. Este terá, mesmo se derrapar no início, boa vontade por parte dos brasileiros. Os anos de PT não deixaram saudade na população, sobretudo naquela sua porção que acreditou nas promessas do partido e foi a ele fiel enquanto conseguiu. Até que percebeu que a casta acadêmica era a inimiga.

Mas…não convém que Bolsonaro abuse desta disposição das massas. E acredito que Bolsonaro não abusará. Suas escolhas sinalizam desejo sincero de romper o sistema de governabilidade trocada por honrabilidade; militares e quadros técnicos parecem ser a maioria do que será seu Governo,e isto é, para seus eleitores, a confirmação da boa escolha que fizeram. Chega de acordos que são pagos com a anulação de políticas de saúde,educação, segurança. O Governo que terá início em 2019 estará livre, pelo caráter de sua vitória, das amarras do velho sistema.

Mas é o ministério ideal? Não sei, repito. Ninguém sabe. Ao longo dos meses, as escolhas se revelarão felizes ou desastradas, e não imagino Bolsonaro insistindo em escolhas que se mostrarem equivocadas por capricho; seu estilo parece ser o mais pragmático imaginável:

“Olha Fulano, não nos entendemos, mas saiba que você terá sempre meu respeito, vida que segue, tálquei?”

Pois já tem indicado que não se elegeu na base do comércio de ministérios. E não precisou.

Ao dizer o que muitos brasileiros precisavam (não,não se trata de vontade, ou desejo de ocasião,mas de necessidade) ouvir, comprando inimizades com a casta acadêmica e seus braços no mundo das artes e espetáculos e na imprensa, Bolsonaro atingiu milhões de mentes, não importa se mentes que até então votavam na Esquerda ou se direitistas de berço. Bobagem acreditar que Bolsonaro ganhou apenas na militância anticomunista,ou antiesquerdista. Ou apenas nos setores dominados pelos pastores evangélicos. Muitos gays e muitos antigos eleitores do PT votaram nele. E, portanto, Bolsonaro não tem dívidas para com chefes de segmentos. Deve sua vitória às verdades que disse e às brigas que topou. Só. Sua ligação com as massas, prescindindo, pois, de intermediários. E isto dá a ele liberdade total na composição de seu gabinete.

Que eu sugeriria a ele fosse um seu interlocutor,ou uma sua leitura?

Que seguisse o roteiro que eu sugeri, em texto publicado no blog, aos editores de jornais e revistas, tomando por base uma palestra de Elio Gaspari

https://fernandopawwlow.blog/2017/08/29/notas-29082017/

“Vão às associações de ex-isto e ex-aquilo, aos profissionais competentes que foram boicotados e depois afastados sem motivo conhecido, e tentem arrancar destes mais alguns nomes a se procurar, com o perfil semelhante. Gente capaz e honesta que foi expurgada, sem que se saiba bem a razão. Ouçam histórias, consigam o que puderem de atas de reuniões, documentos, cartas. Tentem ir nas reuniões, aos encontros de veteranos de algumas batalhas perdidas das políticas públicas.”

 

( as palavras entre aspas acima são minhas, não de Elio Gaspari, sim?)

Ministros colhidos entre os dissidentes da máquina estatal, ou que contem com estes dissidentes como conselheiros e consultores. Um governo assim terá chances gigantescas de fazer uma verdadeira revolução no Brasil partindo da adoção de políticas públicas para os diverso setores da administração. Gabinete composto de gente que sabe o que deve ser feito e como deve ser feito. Burocratas experimentados nas armadilhas e sabotagens e que saberão orientar o governante a fazer muito em tempo razoável. Ou o que se deve evitar, a qualquer custo, seja qual for a hipótese.

Pois não se pode esquecer que o PT e seus associados um dia saberão assimilar lições e se recuperarão com o discurso reformulado. Não convém, pois, perder tempo com esforços de reinvenções da roda. Ganhar tempo, fazer o mais possível sem esquecer do relógio; experientes podem mais isso que bem intencionados sem calos obtidos na lida estatal, não?

Que observadores e formadores de opinião façam a parte que lhes cabe neste momento; cobrar de Bolsonaro o governo perfeito sem aconselhar com sabedoria é praticar sabotagem.

Todos nós, a partir de Janeiro, estaremos sob observação.

Bertolucci

Andei assistindo, em 2018, filmes do Bernardo Bertolucci, os que tenho em casa: “O Pequeno Buda”, “O Céu Que Nos Protege”, “O Último Imperador”.

O artista impressiona na releitura, rever “O Último Imperador” pela primeira vez desde que adolescente o vi no cinema (tenho o dvd há dez anos e vinha adiando a tarefa de rever, temeroso de decepções) foi uma sensação poderosa: o meu deslumbramento nada diminuiu. E em diversas passagens d'”O Pequeno Buda” e d”O Céu Que Nos Protege” me emocionei como da primeira vez que os assisti. Isto é arte cinematográfica, e o Mundo perde mais um artista nestes dias de estupidez do “politicamente correto” e da ditadura dos mortos vivos da casta acadêmica.

Bertolucci escorrega por vezes no “cinema de tese”? Sim. Mesmo numa obra prima como “O Último Imperador” o didatismo é perceptível. Na outra obra prima dele, “1900“, (o qual não revejo há anos) o didatismo socialista é irritante. Isto dito, reitero que são obras primas, cinema realizado por um artista exigente. Quantas passagens de “1900“ cinéfilos carregam na mente pela exuberância, pelo exercício de cinema épico?

Este seu talento fez com que fosse tão combatido, não o esquerdismo que não era exclusividade sua, diga-se. Fosse um cineasta medíocre, sem capacidade de produzir filmes memoráveis, as sátiras que inspirou em seus críticos teriam frutificado tanto?

Arnaldo Jabor escreveu há alguns anos que jamais perdoaram Bertolucci pelos Oscar, e pelo sucesso comercial.

Não, jamais perdoaram-no pelo talento. Pelo cinema belíssimo que cometeu.

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“Notas”- 22/11/2018

Sobre “Bumerangue” de Eduardo Almeida Reis

“Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com personagens da vida real é mera coincidência. Ou não.”

Assim Eduardo Almeida Reis apresenta seu primeiro romance, “Bumerangue”,lançado em 1995. O leitor é livre para desperdiçar tempo e energia tentando adivinhar quem é quem no livro.

E será mesmo um desperdício. O livro é delicioso, divertido, ainda que não se encontre qualquer pista sobre identidades correspondentes na vida real ao romance. Eduardo Almeida Reis parece ter lançado pistas apenas para selecionar entre os leitores os aptos a se divertir com sua sátira, os que saberão ler além de jogos de “Será que o Governador do livro é Fulano? Não seria Beltrano, pela época retratada no livro?”

O Poder político mais imediato e mesquinho é o alvo, não os ocupantes ocasionais deste. A província e o que ela retém de atraso e de corrupção em si mesma parece ser o objeto de purgação do escritor. Governadores que agem como chefes de bandos criminosos sempre existirão enquanto a Política nas províncias for a politicagem da compra de votos, das vitórias eleitorais conquistadas sobre a miséria e ignorância das massas.

A imprensa provinciana jogando papel importante na perpetuação deste sistema de ocupação do Poder pelos piores, pelo nivelamento por baixo que se afigura eterno. Os editoriais pomposos e vazios, o consenso fabricado em coquetéis em palácios, a política editorial definida a partir dos financiamentos; a opinião pública, em síntese, forjada nos arranjos entre jornais (cada vez mais) sem leitores e dinheiro público jorrando sem justificativas.

“No princípio era verba.E nós correndo atrás”, segundo o narrador do livro, jornalista outrora bem sucedido, estacionado neste intervalo em jornal de província que opera como jornal de província; medíocre, sem leitores e de governismo mal assumido, disfarçado de “neutralidade”. Ou nas palavras do diretor do dito jornalzinho:

“Vamos ficar numa posição de absoluta neutralidade, my boy, a exemplo das outras eleições, que assim podemos tomar dinheiro de todos os lados.”

Tudo que se diz com estas palavras, sempre: “Nada de radicalismos. Não somos palmatória do Mundo. O Mundo não depende de nós para continuar rodando”.

Quem não pensa mais ou menos assim na Imprensa provinciana, a Grande Imprensa parecendo toda ela, no Brasil,e cada vez mais, imprensa de província?

Não contarei a trama do livro, embora spoiler não seja preocupação de apreciadores verdadeiros de literatura. Ou contarei apenas o que a contracapa do livro já conta; as aventuras que sucedem a um jornalista desde que este resolve arriscar-se em ligação amorosa com a primeira-dama de Minas Gerais. Almeida Reis costura personagens fictícios com personagens da vida real, como Alberico Souza Cruz, à época diretor de jornalismo da Rede Globo. Ou suas reminiscências da redação d’O Globo” nos anos ‘60:

“ ‘Clima’ das redações antigas, laudas amarrotadas pelo chão, cigarros apagados nos cinzeiros, o chargista pedindo sugestões (…) Logo depois, chegava o Doutor Roberto dirigindo um Fusca, sem qualquer tipo de segurança. Ricardo e Rogério, seus irmãos, já estavam a postos desde cedo.”

E a observação sobre o jornalismo atual, personificada em jornalista recém-formada que contratara no jornalzinho de província dos dias da trama do romance:

“Vai fazer carreira brilhante, porque consegue ter um texto absolutamente ininteligível (…)os editores adoram. Ninguém tem a coragem de dizer que não entendeu nada. Perder a direção do carro, para ela, resultava sempre na perda do controle direcional do veículo automotor. Mulher era esposa e tiro era disparo de arma de fogo. Com todas essas credenciais, registrei-a como editora-adjunta (…)”

O personagem narrador tem atrás deste cotidiano medíocre e cinzento passado como correspondente estrangeiro na grande imprensa; mineiro do interior, de Curvelo, para ser exato, ou de cidade perto de Curvelo, para maior exatidão. É pai de um filho já jovem. Que tem o herói, portanto, em comum com o carioca, pai de filhas, Eduardo Almeida Reis?

Talvez nada. E este nada nada quer dizer para um personagem que diz: “Foda-se a minha biografia.” Compreendem?

Há reminiscências que são comuns ao escritor e jornalista Eduardo Almeida Reis e ao jornalista Antônio Carlos, o narrador do “Bumerangue”. A visão de Mundo dos dois cavalheiros teria suas coincidências também?

O gosto pelos charutos, pelos bons vinhos e pela vida no campo, no que esta tem de contrária ao artificialismo da vida nas cidades. Ainda que a volta ao campo seja no livro forçada pelas circunstâncias, rende ao narrador satisfação mesmo com o trabalho duro:

“Doze, quatorze, dezesseis horas por dia:tenho trabalhado feito alma penada. E o pior é que gosto. Fico exausto, mas adoro”.

O que lembra passagens de “Seis Alqueires e Uma Vaca” e “ A Cidade e as Serras”.

“ A Cidade e as Serras”?

Sim, há também em comum entre o personagem-narrador e o autor do livro a admiração, ou devoção, ao Eça de Queiroz.

Mais as digressões sobre etimologia, sobre genética e mesmo sobre a crença em Deus. Sobre crer em Deus algumas frases distribuídas em alguns parágrafos próximos :

“Minha quizila com Deus não é de hoje (…) Os piores propagandistas do Senhor os que n’Ele creem (…) Duvido que alguém me aponte uma guerra entre ateus, ou em nome do ateísmo (…) A não ser que Deus exista mesmo e esteja afinzão de espezinhar o rebanho.”

Quem não conhece algumas passagens de crônicas de Eduardo Almeida Reis (das que constam em coletâneas como “Burrice Emocional” às mais recentes do seu blog “Philosopho”) onde seu juízo sobre religiões é parente de primeiro grau destas observações do personagem-narrador?

O amor incondicional deve, ao que se pode perceber em diversas passagens do livro onde são evocados amigos, passeios, atividades do campo; às coisas e eventos onde o ser humano experimenta algo do que é transcendental nas delícias da vida, como no poema que o narrador dedica às suas memórias com a personagem com a qual relacionou-se como amante:

“Quero fazer de tuas coxas/fones de ouvido/ Que me isolem do mundo/na caminhada essencial”.

As intenções mais sublimes devem ser direcionadas, portanto, ao que se conhece como Eros.

O Thânatos, o Poder temporal e mesquinho, sustentado pela ignorância de muitos e pelo poder da força das armas e do dinheiro, personificado no Governador asqueroso e vil, é acompanhado dos avisos sobre a Morte; Morte absoluta, perto da qual mesmo a rotina de uma organização criminosa internacional (como a retratada no livro) tem algo de nobre, cavalheiresco. A Morte, o Tânatos, reside nos gabinetes e das convenções que matam a alma.

Este Eduardo Almeida Reis surpreende leitores acostumados ao seu humor, ainda que este esteja presente em passagens como esta:

“Sorriu de leve, quando disse da mania de seus pais na escolha dos nomes dos filhos. Homens, filósofos; mulheres, artistas de cinema: Sophia, Ingrid, Ava, Giulieta, Silvana, lourísimas todas. Bonita, só ela. Spencer,Voltaire, Hegel, Kant, Rousseau. Hegel foi morto na penitenciária capixaba pelo companheiro de cela (…) Spencer, ex-cabo PM, era assessor do governador. Rousseau pilotava um táxi em Cariacica, ES. Voltaire conseguiou estudar medicina e clinicava no Sul da Bahia.”

E tantas outras passagens onde o escritor de não-ficção saudado como “Gênio rural” por David Nasser mostra-se habilidoso em misturar personagens reais e fatos da história recente do Brasil com ficção de situações e personagens.

Este livro me fez salivar pelo romance seguinte de Eduardo Almeida Reis, “Breviário de Um Canalha”, o qual ainda vou ler e escrever sobre, aqui no “Cadernos”.

“Bumerangue” é recomendação segura aos que apreciam literatura, e admiram Eduardo Almeida Reis, um dos últimos grandes ainda aqui.

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“Notas”- 16/11/2018

Sobre não discutir

Há quem obtenha prazer em discutir, acreditam estar “travando combates no campo das ideias.” A eleição presidencial recente foi uma fartura de oportunidades a estes discutidores compulsivos. A mim,não foi. Apertava o cadeado de boca sempre que convidado a ingressar nestas querelas, e não me arrependo. O que tenho a dizer sobre o assunto escrevi e escrevo no blog,e é mais que o bastante. Política em conversas pessoais, só com gente muito conhecida.

Houve um chamado à escolha entre duas maneiras de ver o Mundo (sobretudo o Brasil) e não há em momentos assim possibilidade de convencimento; naturezas não se transformam com o mero auxílio de argumentos, penso.

Mas tem quem goste, repito.

Citam números, fatos históricos, testemunhos de pessoas (célebres ou anônimas de seu convívio) sobre o Inferno e nada disto convence quem deseja continuar no sonho. Não sei se há despertadores capazes de acudir quem se encontra em sono comatoso, e certas crenças são sonos comatosos onde os pacientes sonham o sonho sonhado por eles. Que fatos enumerados em uma argumentação podem dizer neste caso?

Por isto não aceito discussões políticas com gente que conheço pouco ou nada:

“Detesto política, assunto sonífero. Acompanho apenas futebol e noticiário policial, intercalados com notícias sobre votações em reality shows e vida sexual das celebridades.”

Caso o interlocutor note minha indisposição para polemizar com ele e me tome por grosso, jogará em minha cara insultos misturados aos perdigotos; julgando-me mesmo um alienado, balançará a cabeça, emitirá sons como “tsc, tsc”, e me deixará em paz. Nos dois casos, não desperdiço tempo e energia.

Não convencerei ninguém nas discussões de fila de ponto de ônibus e não acredito poder ser convencido pelo mesmo meio. O que não pareceu grave aos brasileiros com mente (de)formada pela casta acadêmica em todos estes anos não parecerá nunca; dezenas de milhares de homicídios por ano e vida econômica do País afetada pela criminalidade deveriam bastar como argumentos conclusivos sobre a necessidade de mudanças profundas. Ou não bastam e nada então bastaria.

Há gente insensível aos dramas da gente comum, que habita um planeta distante do nosso, cujos problemas maiores e que exigem resposta urgente são relativos à etiqueta social. Palavras escolhidas sem consulta prévia aos códigos que determinam o que é ofensivo e piadas de gosto discutível são o que temos de mais grave a dar combate. Gente assim existe e embora minoritária, decide posições e as colocações nos postos de trabalho nas áreas entendidas como culturais. Qual argumento usar com este tipo de gente? Como sacudi-los?

Vejam o caso recente do Silvio Santos no Teleton: um apresentador e empresário, já rico e realizado nas suas atividades promove, há anos, maratona na sua programação para ajudar crianças com deficiências físicas. Uma brincadeira com uma convidada e, pronto! eis Silvio Santos acusado de assédio por celebridades que obedecem aos comandos bolados pelos publicitários-ativistas do tal “politicamente correto”.

Muitos brasileiros enfureceram-se com o que parecia linchamento com parentesco de primeiro grau com o que sofreu o então recém-esfaqueado Jair Bolsonaro: o #EleNão sendo substituído pela imagem de Silvio Santos no Teleton durante a tal brincadeira com sua convidada, com a inscrição “Chega de Assédio” Coisa de publicitário; ícone e “textão”. Tudo uniformizado para ser reproduzido nas redes sociais de celebridades, as mesmas do #EleNão.

Que fazem estes discutidores de internet?

Intervenções nas redes sociais destas celebridades qualificando algumas delas como “hipócritas”. O que mostra que desconhecem o que seja hipocrisia.

Ora, estas celebridades encontram-se, ao menos nos dois casos em que serviram como caixas de ressonância de ativistas de cúpula, quilômetros abaixo da hipocrisia.

Hipócritas seriam se elaborassem um texto adicional ao texto oficial da campanha a qual aderiram e isto, ao menos nas redes sociais das celebridades que vi, não fizeram. Cumpriram a obrigação do coletivo, apenas. Qualificar estas estrelas da indústria cultural como hipócritas é, pois, prestar-lhes homenagem. Para quem cumpre obrigação, discutir se o monstro fascista é mesmo a vítima de uma tentativa de homicídio ou se é mesmo um assédio a brincadeira de um senhor quase nonagenário durante uma maratona na qual ajuda crianças é inimaginável.

Há quem determina o que pode ou não ser dito e/ou escrito. E este ser Todo Poderoso se chama Casta Acadêmica. O corpo acadêmico mais seus braços na imprensa e no mundo dos espetáculos formam esta casta, à qual populares qualificam como “bolha”. Um funk “proibidão” cuja letra refira-se às mulheres como utensílios pode ser aceitável caso contemplado pela casta acadêmica. O mesmo se deve considerar como certos itens da indústria da pornografia, como as “captions” de sites e blogs que associam a obtenção de sexo com adoção de determinados comportamentos.

Quando um articulista ou filósofo rotulado como direitista observa que a visão de mulheres seminuas nas ruas e praias provoca desejo de homens que pela lógica da sociedade não podem ter a companhia destas mulheres, por pobres, ele é qualificado como “machista que incentiva estupros”. Quando é um filósofo, pensador, ou articulista da Esquerda, ele está apenas constatando uma realidade, ainda que o dito esquerdista utilize tom de recriminação às mulheres que se exibem “como se estivessem no banheiro de suas casas”.

O trecho entre aspas é citação que faço de memória de texto de Roland Corbisier, publicado na imprensa e que consta da coletânea de artigos “Raízes da Violência”. Texto no qual o filósofo adverte sobre o comportamento de certa classe média que trata despossuídos como invisíveis. Procurem o livro, vejam se exagero. Até onde sei, Corbisier não foi incomodado por feministas, e este texto é já da década de ‘80, publicado em livro no início da década de ‘90. Imaginem o que aconteceria se texto assim fosse assinado por um autor catalogado como reacionário. Um Nelson Rodrigues ou um David Nasser, hein?

Escrevi sobre este texto aqui no blog, e sobre esta pouca severidade dos juízes morais para com um dos seus, mas isto caiu no vazio destinado aos textos não divulgado por quem, por suposto, teria alguma afinidade. Deixa pra lá…

Daí a estupidez das discussões, a tolice dos que perdem tempo batendo boca no lugar de formar grupos de estudos e/ou redes de blogueiros. Ou ligas eleitorais, ou institutos. Queixar-se da “hipocrisia” do grupo que determina o que é certo e o que é errado serve apenas como desabafo. O Poder continua como sempre, imóvel e tranquilo por saber seus adversários uns afobados, uns otários com pressa.

“Mas você quer que a gente faça o quê? Que fiquemos de braços cruzados enquanto esta gente avança? Temos que fazer alguma coisa…você conhece o ‘Decálogo de Lenin’ ?”

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“Notas” – 10/11/2018

Sobre “Saber Vencer”

David Nasser dedicou um artigo para a edição comemorativa do 31 de Março de 1964 da revista “O Cruzeiro” com o título “Saber Vencer”. Texto ilustrado com foto do jornalista escrevendo à máquina na sua casa da Tijuca, mesa repleta de armas de fogo. Lembro por alto de uma frase : “Que a carniça que eles são não nos transforme nos urubus que não somos”. Pregava a vitória sem mesquinharias, sem perseguições menores que teriam o efeito de anular o êxito naquela batalha. Aquele era um momento histórico no qual estas advertências faziam sentido; a vitória sobre o governo de João Goulart veio através de um movimento armado,e naquele momento nada parecia apontar reações violentas aos recém-vitoriosos.

Saber vencer é mais difícil que saber perder, na maioria das vezes. Há a companhia dos oportunistas que demonstram capacidade de dar conselhos estúpidos com aparente total disposição, há o cansaço da (s) batalha (s) recente (s)e há a sensação de que o pior já é passado, um punhado de recordações amargas, apenas.

Vejam a derrota parlamentar do Partido Republicano; a Economia parecia, em seu processo de recuperação, garantia de vitória do partido de Donald Trump. Articulistas da revista neoconservadora “The Weekly Standard” apontaram excesso de autoconfiança no partido que superestimou vitórias anteriores e vinha descuidando de seu eleitorado.”Eles gostam de mim”, acreditava Trump sobre eleitores que gostam e deixam de gostar de um candidato ou um partido com igual velocidade. Houve também, apontam outros textos da publicação neocon, uma divisão nas diversas alas do Partido. E a de Trump parece ser a menos afetada.Onde os Republicanos tentaram combater no território Democrata, perderam. Saber vencer nos dias que sofremos implica pressão constante.

Há uma vitória recente no Brasil que exigirá demonstrações frequentes de firmeza e compromisso com eleitores que rejeitaram tudo o que o sistema de Poder do PT e associados representa. Caso Jair Bolsonaro resolva que o pior já passou terá, muito antes que imagina, pesadelos que o assaltarão, unidos e dispostos a reduzir sua vitória a uma nostalgia recente.

Imagino que já estejam a postos, entre comentaristas da chamada Direita, os conselheiros que cantam a canção que cantam já há diversas eleições: “Ganhando dessa gente, tudo é consequência.” Esta canção agrada quem deseja decretar fim de guerra sem a rendição assinada pelos perdedores; o desejo de retorno à “vida normal” é o motor que move muitas bravatas e berros de vitória prematuros.

Esquecem, estes apressados, que Bolsonaro ganhou com menos votos que o esperado (estou entre os que acreditam nas fraudes) e que o número de votos nulos e brancos não permite acreditar que ele conta com a maioria dos brasileiros. Assim como muitos Republicanos esqueceram que Trump se elegeu com os votos do Colégio Eleitoral e que teria, portanto, ainda que a Economia melhorasse, muitos americanos contra si.

Bolsonaro terá que ser apoiado com firmeza ainda maior que o foi na campanha; as provocações e sabotagens nem começaram; derrotados ainda discutindo onde erraram e quais candidaturas deveriam ter sido priorizadas podem passar a impressão que a derrota foi admitida. Quando estudiosos de História sabem que os combatentes experimentados admitem derrota apenas para preparar a volta, ainda mais furiosa e determinada,ao campo de batalha.

A primeira provocação,“O Ministério de Bolsonaro só tem homens” não foi respondida como deveria, Bolsonaro teria respondido que o Ministério ainda estava se formando, quando deveria rejeitar qualquer intromissão na formação de seu Ministério por parte de uma imprensa colonizada e com reiterada má vontade para com ele. A Ministra anunciada já é alvo de ataques, como serão quaisquer outros representantes de “minorias” às quais presidentes devem reservar cotas.

“Onde negros neste Ministério?”

Bolsonaro nomearia um negro.

“É negro de alma branca, espírito de capitão do mato.”

Onde gays neste Ministério?

Bolsonaro depressa providencia um Ministro gay.

“Este gay nunca representou o segmento LGBT, onde este gay nas nossas iniciativas de lacração?”

Ora, vimos este enredo sendo filmado no início do governo de Michel Temer. Os que se dispunham a compor o Ministério de um “governo golpista” eram atacados até que viesse outro, outro, e mais outro…

Esta gente derrotada nas últimas eleições presidenciais sabe como exercer pressão constante, e verificou que gritos estridentes conseguem o que argumentos muitas vezes não conseguem: vencer pela prostração e temor das consequências. Confrontos sempre carregam embutidas as consequências que cautelosos preferem evitar.

Bolsonaro presidente é diferente do Bolsonaro candidato; o candidato não está amarrado pelo cargo, a faixa presidencial servindo como mortalha, muitas vezes. Daí a necessidade de apoiadores decididos e que saibam aconselhar o Presidente a evitar ceder em demasia.

Quando escrevo sobre apoios decididos tenho em mente a homenagem ao Elia Kazan em certa cerimônia do Oscar (deram-lhe um Oscar honorário, Kazan com cerca de noventa anos). Warren Beatty estava entre os que aplaudiram o diretor de pé enquanto muitos mantiveram-se sentados em protesto (Kazan era amaldiçoado pela Esquerda das mansões de Los Angeles por ter sido acusado de delação na “Caça às bruxas” do macartismo, em Hollywood). Beatty não poderia ser acusado de direitista, ou conservador, mas era amigo de Kazan. Por caráter, não se acovardou. Como não foram covardes os que protestaram, em minha opinião. Os que mantiveram-se sentados, de braços cruzados, como Nick Nolte. Não o vaiaram, não cercaram seu carro, apenas não o aplaudiram. Fosse juiz moral talvez acusasse antes os que aplaudiram o enorme diretor, porém sentados, como Steven Spielberg.

Pior que a oposição é o apoio morno.

O pior não começou, repito.

Saber vencer, nestes dias após a vitória, é saber vigiar e distinguir companheiros dos oportunistas. Conseguir identificar no auditório os que o aplaudiram, porém sentados e cuidando para não ser vistos. E saber se cuidar dos que aconselham recuos e concessões.

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